Há mais mulheres com o vírus da Aids do que homens

Essa é a conclusão do estudo feito pelo Ministério da Saúde, que também constatou que o número de vítimas no interior cresceu bastante

Essa é a conclusão do estudo feito pelo Ministério da Saúde, que também constatou que o número de vítimas no interior cresceu bastante

A epidemia de Aids no Brasil, que surgiu nos anos 80 concentrada na população
masculina dos grandes centros, mudou de direção e, hoje, atinge
cada vez mais mulheres que vivem no interior. Pesquisa do Ministério da
Saúde revela que o número de municípios onde a doença
faz mais vítimas do sexo feminino subiu de 34, em 1995, para 159 este ano
– crescimento de quase cinco vezes em seis anos.

O alerta sobre o crescimento da contaminação de mulheres já
é feito desde a metade dos anos 90, mas a combinação entre
“feminilização” e “interiorização”
da doença começa a ser revelada agora e fica clara no estudo.
A maioria das cidades da lista de 2001 não ultrapassa os 50 mil habitantes
e está distante dos grandes centros. Em todos os 159 municípios
a relação mulher/homem de casos de aids é de, pelo menos,
1.5/1 (cidade de Estiva Gerbi, SP), mas chega a 7/1 em Rifaina (SP). Em 1995,
essa relação não ultrapassava os 5/1, em Maricá
(RJ).

Outra novidade é que São Paulo (que concentra 50% dos casos de
Aids no País) empata com Minas Gerais no número desses municípios.
Os dois Estados têm, cada um, 24 cidades do total de 159. O dado é
revelador porque, em 1995, Minas tinha apenas uma das 34 cidades relacionadas
pelo ministério e São Paulo, 10. “Fica claro que a epidemia
está se movendo para o interior”, analisa Kátia Souto, consultora
da área de prevenção da Coordenação Nacional
de Aids do Ministério da Saúde.

A dona de casa Ana Cláudia Rocha, 26 anos, uma das vítimas dessa
mudança, se enquadra no perfil das novas vítimas da doença
traçado pelos especialistas.

Ela é negra, pobre, analfabeta e mora em Tanguá (RJ), um dos
três municípios fluminenses mencionados no estudo.

Vulnerável

Emancipada do município vizinho de Itaboraí em 1997, Tanguá
é um dos poucos locais citados não distantes da capital. Sem hospital,
o município registrou oito casos da doença desde o início
da epidemia, sete em mulheres. Ana Cláudia é uma das sete e, como
a maioria das brasileiras infectadas (56%), foi contaminada em uma relação
heterossexual. “Eu acho que peguei o vírus do meu marido. De que
outra forma seria?”, pergunta.

O marido, no entanto, não admite ser portador do vírus. “Ele
fez o exame, mas quando o resultado saiu, ele rasgou o papel e não me
mostrou. Tenho certeza que ele tem porque andou doente, mas, como briga comigo
quando falo nisso, prefiro deixar pra lá.”

Ela conta ainda que não usava preservativo com o marido porque não
sabia dos riscos que corria. “Eu não sabia o que era Aids e achava
que nunca ia acontecer comigo.” Como Ana Cláudia, a maioria das
mulheres contaminadas com a doença vive numa situação classificada
pelos especialistas como “vulnerabilidade de gênero”. “Os
estudos mostram que as mulheres têm menos parceiros, mas pegam o vírus
porque têm pouco poder de negociação na hora de exigir o
preservativo. E, no caso das mais pobres, esse poder é menor porque,
além da dependência emocional, ela depende financeiramente do homem”,
explica Kátia.

As estatísticas confirmam a tese. Quando se relacionam com parceiros
eventuais, 69% das brasileiras usam preservativo, mas esse número cai
para 22% se o sexo é feito com parceiro fixo (marido ou namorado).

Preocupado com isso, o ministério criou o Cidadã Posithiva –
projeto para capacitar mulheres soropositivas a participarem de programas de
prevenção da doença. Um grupo de 54 mulheres faz uma série
de cursos de treinamento.

Recebe informação sobre a doença e, especificamente, sobre
a “vulnerabilidade da mulher”.

Fonte: Estadão .com.br

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