Lembranças do crime atormentam vítimas

Sequestrado revive experiência por até três meses; para psiquiatras, melhor forma de tratar distúrbio é falar do trauma

Sequestrado revive experiência por até três meses; para psiquiatras, melhor forma de tratar distúrbio é falar do trauma

Relembrar e falar sobre o trauma do sequestro é o melhor tratamento para
superá-lo. Esquivar-se das más lembranças só piora
a situação e pode levar a vítima a desenvolver quadros crônicos
de ansiedade e depressão.
Segundo psiquiatras ouvidos pela Folha, 80% das vítimas de sequestro sofrem
de um tipo de distúrbio psicológico, chamado transtorno de estresse
pós-traumático (PTSD).
Durante a fase aguda desse distúrbio, que dura cerca de três meses,
a pessoa revive a experiência traumática repetidamente, seja por
meio de lembranças que invadem a consciência (flashbacks) seja durante
os sonhos.
“Ainda não nos recuperamos. Ele lembra disso toda a hora. Chora e
tem medo. Estamos em choque”, diz M., mãe de um menino de nove anos
que foi sequestrado em Campinas (interior de SP) em 14 de setembro e ficou 37
dias de cativeiro. “Por isso, desculpe-me, mas não consigo falar sobre
isso. É como se vivesse tudo de novo.”
O menino, filho de um empresário, foi sequestrado próximo ao colégio.
Três homens cercaram seu carro. A mãe escapou, mas os bandidos atiraram
e pegaram o garoto de dentro do veículo.
Além das lembranças, a vítima também pode sofrer de
irritabilidade, insônia, sobressaltos intensos e apresentar certas reações
fisiológicas (suores, tremores e taquicardia, por exemplo). Tende ainda
a se afastar das pessoas e a perder o interesse em atividades que antes faziam
parte da rotina.
“Ele está muito distante. Pouco responde às minhas perguntas”,
afirma Elisa Carolina Wellendorf, 80, mulher de Alfredo, 82, sequestrado em 3
de setembro passado no interior de São Paulo e mantido como refém
por 30 dias.
Se em três meses os sintomas não desaparecerem, pode haver uma transição
para o quadro crônico. Nesse estágio, dificilmente a pessoa consegue
superar o trauma sozinha. A indicação é que ela faça,
em um primeiro momento, terapia focal, que trabalha diretamente o trauma vivido.
A transição da fase aguda para a crônica vai depender da intensidade
do trauma (tempo de cativeiro e tipo de tortura sofrida) e das características
individuais de cada pessoa, segundo o psiquiatra Márcio Antonini Bernik,
do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.
Cerca de 10% das vítimas “cronificam” o transtorno e precisam
de tratamento psiquiátrico para conseguir superá-lo, afirma Bernik.
As crianças e os adultos imaturos emocionalmente têm mais tendência
a desenvolver a fase aguda do transtorno porque não conseguem reagir ao
trauma.
Segundo Bernik, sociedades que encobrem o trauma, ou omitem dados de violência,
causam ainda mais sofrimento à vitima. “A pior coisa é tentar
esquecer. Só com rememoração sistemática é
que a pessoa consegue vencer essas situações”, afirma.
Para o psiquiatra junguiano Marco Antônio Spinelli, além do PTSD,
muitos sequestrados podem desenvolver um distúrbio chamado de reação
de ajuste (sentimento de tristeza, humilhação, desesperança
e choro incontrolável). “Há perda da inocência, um desencanto
com a vida.” O trabalho terapêutico ajuda o paciente a entender isso
e a reconstruir a vida a partir do trauma.
O sequestro pode ocasionar severos traumatismos psicológicos nas crianças,
dependendo da idade, do tempo de cativeiro a do tipo de violência vivida
ou presenciada, dizem os psiquiatras.
Segundo Miguel Jorge, 50, professor da disciplina de psiquiatria clínica
da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), as crianças tendem
a somatizar o trauma.
Depois de libertas, podem apresentar diarréias, dores indefinidas, alteração
de humor (períodos de alegria e tristeza), regressões no comportamento
(voltam a urinar na cama, chupar chupeta, gaguejar etc.).

Fonte: Folha de SP, Caderno cotidiano,São Paulo, domingo, 11 de novembro de 2001

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