Como ser humano em cativeiro

‘Reality show’ elaborado por psicólogos analisa comportamento de 12 pessoas confinadas em uma casa
‘Reality show’ elaborado por psicólogos analisa comportamento de 12 pessoas confinadas em uma casa
Que, às vezes, o ser humano pode ser muito mais bicho que humano todo mundo sabe. Em condições especiais, dentro de uma casa de anônimos, vivendo e convivendo em situações no limite, então, nem se fala. É de cair o queixo. Matar de vergonha quem faz e quem assiste ao show de realidade. Um bando de psicólogos americanos resolveu analisar a questão. Até aí, nenhuma novidade: psicólogos sempre analisam alguma questão. Só que estes resolveram mostrar esta análise na TV. É assim que funciona Zoológico humano (The human zoo) – que será exibido hoje, amanhã e depois, às 23h20, no GNT (Net) -, uma versão psi dos reality shows, um Casa dos artistas científico, um No limite com tom de documentário.
O programa começa com um convite que o define bem – algo entre o estranho e o irresistível: ”Descubra do que você é capaz no zoológico humano”. Ao confinando 12 pessoas de cantos diferentes da Inglaterra durante uma semana em uma pousada localizada na Cúmbria, lugar remoto da Grã-Bretanha, com 15 câmeras e 15 microfones ligados 24 horas por dia, sob a observação de psicólogos que ficam em uma sala de controle e manipulam as condições de realidade do experimento para obter resultados mais ricos, Zoológico humano (produzido pela London Weekend Television e exibido nos Estados Unidos em abril do ano passado no Discovery Channel) mostra que o ser humano é capaz. De tudo.

Aceitação – Depois de apenas seis horas, por exemplo, um dos participantes, Richard, 41 anos, invade a dispensa e rouba algumas cervejas para impressionar e ser aceito pelos outros. ”Foi um bom começo, estamos caminhando”, analisa o psicólogo Philip Zimbardo, presidente da Associação Americana de Psicologia, mentor do projeto.

Com produção de primeira e edição amarradinha, Zoológico humano cansa pelo excesso de análise. Dentro da sala de controle, Zimbardo ressalta as implicações analíticas de cada gesto da ”linguagem corporal” de cada participante. Mas não fica só nisto. À medida que os acontecimentos vão se desenrolando na casa, o programa disseca, em simulações de situações cotidianas – espécie de pegadinhas com atores nas ruas -, a reação das pessoas diante de questões como o valor da aparência, a primeira impressão e a honestidade.

Alguns experimentos são engraçados, curiosos até. Como o da mulher feia que leva 70 segundos para ser ajudada a carregar uma mala escadaria acima, enquanto uma gostosona não espera nem metade do tempo. Zoológico humano desfia um rosário de números – quantos milésimos de segundo uma pessoa leva para decidir que a outra lhe é atraente?, por exemplo -, cita pesquisas e embasa tudo com teoria. Interessante. E ponto. No fundo, tem reality demais e show de menos. Em tempo: uma pessoa – pressupõe-se que sóbria – leva 150 milésimos de segundo para decidir se outra lhe é atraente.

GABRIELA GOULART

Fonte: Jornal do Brasil /Caderno B
[16/JAN/2002]

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