Divã Virtual: Voluntários testam a psicoterapia on-line

Durante cerca de quatro meses, quase todos os dias, a secretária Andreia, 29, reservou um tempo para sentar-se no computador e descrever as cenas de ciúmes que fazia e que estavam destruindo seu casamento. Horas depois, recebia de volta uma “análise cuidadosa” do que estava sentindo.
A jornalista Renata Carvalho, 25, escrevia duas vezes por semana, tentando entender o “mecanismo” que sempre a afastava dos relacionamentos.

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: AURELIANO BIANCARELLI

Durante cerca de quatro meses, quase todos os dias, a secretária Andreia, 29, reservou um tempo para sentar-se no computador e descrever as cenas de ciúmes que fazia e que estavam destruindo seu casamento. Horas depois, recebia de volta uma “análise cuidadosa” do que estava sentindo.
A jornalista Renata Carvalho, 25, escrevia duas vezes por semana, tentando entender o “mecanismo” que sempre a afastava dos relacionamentos.

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: AURELIANO BIANCARELLI

Seriam apenas confidências e desabafos se os relatos de Andreia e Renata não fossem endereçados às suas “terapeutas virtuais”. A terapia pela internet é proibida pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). As duas, no entanto, fazem parte de um grupo de estudo que reúne 45 clientes usuários e 15 psicólogos. Trata-se da primeira pesquisa sobre “atendimento psicológico mediado pelo computador” com aval do CFP e protocolo aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa reconhecido pelo Conselho Nacional de Saúde.

Caráter experimental
Por uma resolução do CFP de 2000, a psicoterapia em meio virtual, “por ser uma prática ainda não reconhecida pela psicologia”, só pode ser praticada como projeto de pesquisa. O usuário deve assinar formulário onde conste saber do “caráter experimental” desse tipo de atendimento e nada pode ser cobrado.
A resolução do CFP foi resultado de debates iniciados anos atrás, ainda no encontro PsicoInfo-98. Prosseguiram no ano seguinte dentro do Grupo de Trabalho sobre Atendimento Mediado pelo Computador, criado por sugestão do conselho.
Quando a resolução limitou os atendimentos à pesquisa, havia cerca de 15 terapeutas on-line em atividade no país. Alguns continuam atendendo, reunidos numa Associação Brasileira de Profissionais de Saúde Mental On Line (leia texto na página).
Renata e Andreia fazem parte do primeiro grupo de clientes que completou as 15 semanas de terapia previstas nessa pesquisa. Outros voluntários estão no meio do processo e outros ainda estão apenas iniciando.
O estudo em questão -o único em andamento até agora- faz parte da pesquisa de mestrado do psicólogo Oliver Zancul Prado, 27. O objetivo do trabalho -e de outros que venham a ser iniciados- é formar uma base de dados que permita ao Conselho de Psicologia, no futuro, definir regras sobre o emprego da internet.
Na sua pesquisa, Oliver Prado optou por um fórum onde os participantes têm salas exclusivas na internet, mas não têm a sincronicidade do chat. O cliente escreve quando deseja e o terapeuta responde quando pode ou quer.
Se optasse pelo ICQ (sigla para a expressão em inglês “I seek you” [Eu procuro você”), o mais usado programa de comunicação da internet, os dois poderiam trocar frases simultaneamente, num diálogo escrito. Outros programas permitem o uso de microfones e câmeras, de forma que os dois lados podem se ver, ouvir um ao outro e trocar frases escritas.
“Escolhemos o fórum para evitar riscos como a queda na conexão e garantir a privacidade”, diz Prado. O preço dessa segurança é uma psicoterapia sem os recursos da expressão, dos gestos e da voz. Na psicoterapia on-line também não há “enquadres” (acertos entre as duas partes), como o horário e o local, nem há a gestualidade ou dados paralinguísticos. “No fórum, o terapeuta tem que trabalhar com aquilo que dispõem, no caso, a escrita”, diz Elisa Sayeg, 36, da Comissão de Credenciamento dos Serviços Psicológicos pela internet. Uma outra psicoterapia terá de ser criada.
“Você sente a falta do brilho no olho, do jeito de sentar, de falar, mas a linguagem escrita permite uma leitura nas entrelinhas”, diz Maria Rita Lemos, 55, uma das psicoterapeutas que participam da pesquisa. Na sua opinião, profissionais com maior experiência teriam maior facilidade em entender os sinais da linguagem escrita.
A jornalista Renata Carvalho esteve entre os clientes internautas de Maria Rita. “Gosto de escrever e gosto de internet. Não sei se optaria por uma terapia pelo computador, mas a troca de correspondência foi mais rica que uma amizade virtual”, diz Renata.
A secretaria Andreia diz que na terapia pela internet relatou sentimentos e situações que não descreveria frente a frente com um terapeuta. “Quando terminou, senti que estava faltando um pedaço. Gostaria de continuar.”

Clientes especiais
Os primeiros resultados da pesquisa, ainda informais, indicam que a internet permite uma “relação de terapia” entre cliente e terapeuta. Oliver Prado diz que não pretende avaliar se a terapia on-line dá bons resultados ou não, mas saber se a relação psicoterápica pode existir pela internet.
Interesse há: cerca de 350 pessoas se inscreveram para participar da pesquisa como cliente.
Do grupo que foi aceito, escolhido pelo critério de inscrição, a maioria é de mulheres. Dois dos selecionados residem no exterior, o que revela um lado útil da terapia pelo computador.
Outros beneficiados pela cyberpsicoterapia seriam pacientes com síndrome do pânico e fobias, excesso de timidez, obesos mórbidos e portadores de deficiências, como surdos. Também seria indicada para pessoas que se deslocam muito, têm pouco tempo ou estão distantes dos centros urbanos médios e grandes.
Júlio Nascimento, 34, psicólogo do site Mix Brasil, diz que sem um “marcador corporal” do paciente, é muito difícil haver psicoterapia. Ele chegou a atender no passado, durante seis meses, uma cliente que se mudou para Londres.
“Era uma paciente que eu já conhecia, e isso me permitiu viver das “lembranças” por um período, mas depois esses marcadores foram se esgotando.”
Ivelise Fortim de Campos, 26, que participa da pesquisa, diz que a internet se presta mais a orientações. “A terapia on-line nunca será igual a uma face a face.”

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