Por onde começar

Algumas dúvidas dos recém-formados são de ordem prática, outras dizem respeito à sua estrutura pessoal, e todas devem ser encaradas com atenção
Algumas dúvidas dos recém-formados são de ordem prática, outras dizem respeito à sua estrutura pessoal, e todas devem ser encaradas com atenção
Iniciar-se na clínica não é nada fácil. Nosso trabalho é solitário e demanda muitos recursos internos, além da necessidade de um bom investimento financeiro. Com essas palavras, não almejo desanimar os que estão iniciando esse trabalho ou pretendem se engajar. Ao contrário. É muito importante pensar nessas questões durante a formação para poder se organizar de forma mais adequada e vencer os obstáculos inevitáveis.
Acostumado a receber estudantes e recém-formados de Psicologia como pacientes, verifico como são grandes as expectativas e os medos que nossa profissão enseja. Não é uma exclusividade dos “psis”, mas acredito que, na nossa área e no trabalho com saúde de forma geral, há outros componentes extremamente importantes que envolvem as possibilidades e os recursos internos de cada profissional. Quase todo tempo estamos expostos à fragilidade de nossos pacientes, que invariavelmente se contrastarão com nossas próprias fraquezas.
É muito comum o desejo de trazer o bem-estar, o crescimento e ainda mais “a cura” aos nossos pacientes. Por isso mesmo é muito importante reconhecer nosso campo de ação, sempre levando em conta as próprias possibilidades e as de nossos pacientes.
A psicoterapia é um elemento fundamental em nossa formação e ajuda a trabalhar nossos limites e frustrações, indicando possíveis pontos cegos que aparecem durante o trabalho clínico. Embora já tenha ouvido muitas desculpas de estudantes e até mesmo de profissionais de como é caro fazer psicoterapia. Na verdade, o alto investimento necessário não é só o financeiro. E não acredito que apenas motivos monetários se configurem nas dificuldades para chegar à terapia. A princípio, entrar em contato com nosso imaginário mais sedimentado pode causar algum desconforto, mas este também é o caminho que abre as portas para novas possibilidades de crescimento pessoal.
Acho curioso o fato de alguém querer viver da clínica e não pensar em investir e vivenciar a sua própria psicoterapia. É quase como desqualificar a profissão escolhida ou se colocar numa posição de imunidade relativa aos conflitos intrapsíquicos.

Sem respostas

Muitos já me perguntaram se pelo fato de ser psicólogo eu não sofreria conflitos ou estaria livre de qualquer questão psicológica. Pensar assim é o mesmo que achar que um dentista não teria dor de dente ou que um cardiologista não estaria sujeito a cardiopatias. Este pensamento deve estar ligado à fantasia de que os psicólogos “resolvem problemas” e têm a capacidade de vislumbrar respostas para quaisquer enigmas psicológicos. Costumo dizer que psicólogo não é adivinho. Cabe ao clínico sustentar seu lugar de “não-saber” para fazer emergir as questões do seu paciente como em um puro acaso, evitando fantasias persecutórias.
Além disso, corriqueiramente encontramos nas faculdades de Psicologia pessoas buscando respostas para questões existenciais próprias e soluções para seus conflitos amorosos, sentimentais, familiares etc. Isso é um engodo. A faculdade de Psicologia não vacina ninguém, pelo contrário, pode até suscitar questionamentos antes adormecidos.
A maior ferramenta do psicólogo é ele mesmo e seu psiquismo. Reconhecer o sofrimento no outro é poder identificar aspectos da própria humanidade que servirão de norte para o trabalho clínico. Portanto, torna-se essencial a busca do autoconhecimento.
Existe uma diferença notável entre aqueles que já vêm de um processo de terapia e aqueles que ainda não tiveram essa experiência. Isso é facilmente constatado nas sessões de supervisão. Aqueles que estão em terapia trabalham com maior fluência. O processo psicoterápico ajuda tanto a construir a idéia da profissão quanto a desmanchar fantasias geradoras de ansiedade na hora de iniciar um trabalho. O ideal é começar esse processo durante a formação e poder dar continuidade depois de formado.
Procurar a indicação de professores com quem se tem mais afinidade é uma boa idéia para encontrar seu analista ou terapeuta. De qualquer modo, é muito importante ter referências do profissional escolhido. Caso já tenha familiaridade com alguma abordagem (psicanálise, cognitivismo, existencialismo, entre outras), seria interessante escolher alguém que trabalhe nesta linha.
Alguns profissionais reservam horários para atender estudantes a preços acessíveis e algumas instituições oferecem preços diferenciados para quem quer fazer sua pós-formação.
Outro ponto importante que pode facilitar o início do trabalho é ter um grupo de colegas com afinidades e dispostos a colaborar entre si. A forma como pretendem trabalhar, a abordagem teórica escolhida e a amizade podem definir a formação do grupo. Assim, é possível montar projetos, alugar um espaço para trabalhar, compartilhar a supervisão, dividir tarefas e anseios, enfrentando de forma mais eficiente as agruras do início da vida profissional. Manter tudo bem claro e acordado entre os membros (não só verbalmente) é fundamental.
O trabalho de supervisão não é tarefa apenas para quem está se formando, é um mote importante que vai nos acompanhar durante toda a vida profissional. Falar do exercício clínico com outro profissional proporciona um olhar de fora relevante para abrir novos caminhos. Se a supervisão individual é cara, o trabalho em grupo pode resolver.
Por último, vamos refletir sobre a continuidade dos estudos. Procure se informar sobre especializações, novos cursos de formação e mestrado. O bom profissional deve estar sempre atualizado, mantendo viva a chama do conhecimento, abrindo espaço para conhecer outras pessoas e ampliando sua rede de comunicação.
Acredito que o tempo nos traz experiência, ajuda a refinar a escuta, mas com certeza nunca será possível prever ou saber tudo sobre a clínica, pois cada paciente e cada história que se apresentam em nossos consultórios são únicos e devem ser ouvidos como tal. Assim, é possível imaginar que mesmo quem está no início da sua formação pode exercer a clínica de maneira correta e verdadeira. Mãos à obra, pois há muito trabalho pela frente.

Eduardo Villarom Helene

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