PSYU Nº3 – Coluna DELPHO – Junho/2000

Ciúmes
Ciúmes
Para Freud, o indivíduo se insere na cultura em troca do recalque de seus desejos incestuosos em relação à mãe e dos desejos de morte no que tange ao pai. Sendo o recalque aquele que instaura a neurose, a linha entre normal e patológico muda. Tendo isso em vista, podemos dizer que há certa dose de “normalidade” no ciúme.

O ciúme, em princípio, é o medo da perda do objeto amado, sentimento esse que surge no Complexo de Édipo. São as relações iniciais da criança que direcionam todas as outras da vida do sujeito. Elas podem assumir diversas características, acentuando ou diminuindo a intensidade desse sentimento de perda. Mas não é só dessa forma que o ciúme pode surgir.

Não é raro pessoas que sofram de ciúmes excessivo e infundado. Para entender como isso pode se dar, analisaremos alguns conceitos. Convem lembrar que o reclaque procura excluir da consciência desejos que causem sofrimento ao sujeito. Só que, acontecendo um recalque, o desejo continua a influenciar a vida do sujeito e buscar meios de se realizar. Pressionado, o eu do sujeito tenta impedir a qualquer custo a realização do desejo e eximir-se da culpa, podendo atribuir o desejo recalcado a outras pessoas que não elas – a chamada projeção.

Observando as características do desejo, sabemos que é impossível o amor dirigido somente a um objeto, por mais que queiramos acreditar no contrário, e tentações de “infidelidade” são comuns. Estes desejos, que em alguns sujeitos são recalcados, podem retornar através da projeção. Assim, aquele que vê em seu parceiro diversos motivos para acreditar que ele deseja outro, pode estar projetando seus próprios desejos de “infidelidade”. Quanto mais angustiante é para ele aceitar esses desejos, mais forte será o ciúme e a certeza de que o outro o trai.
IVAN R. ESTEVÃO, PSICANÁLISE
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Para entendermos o ciúme, podemos nos atentar para as relações nas quais este sentimento “surge”, ou seja, para as contingências nas quais essa resposta emocional está inserida. O que se pode hipotetizar é que esse sentimento “surge” pela condição de “perda” de alguns reforçadores para um “concorrente”. Essa transposição é reconhecida pela pessoa que, possivelmente terá muitas de suas respostas agora sob operação de extinção.

Um exemplo desse evento parece ser o fato de sempre ouvirmos relatos a respeito de ciúmes entre irmãos, principalmente sentido pelo irmão mais velho a respeito do caçula. Neste caso, muitos dos reforçadores antes fornecidos apenas ao filho mais velho, no momento, são transpostos ou mesmo divididos com o recém nascido. Já a forma de demonstrar esse ciúme é mais variável ainda; o agente pode “agredir” a fonte de reforçamento (por ex.: os pais) que deixaram de lhe proporcionar algo a qual já estava acostumado, como também pode “agredir” o “concorrente” em si (por ex: o irmão), já que este ato, na ausência da fonte (por ex.: os pais), possivelmente é menos passível de punição.

Surge então, para se analisar o comportamento emocional do qual o ciúme é uma variável, a necessidade de uma análise funcional dessas relações, sejam estas familiares, amorosas ou fraternais, que propiciam e mantém um determinado “comportamento ciumento”. Vale lembrar que assim como a forma de demonstrar esse sentimento é diversificada e deve ser analisada funcionalmente focando as relações dessa pessoa com o ambiente, as condições nas quais esse “mesmo” sentimento pode surgir também são multiplas, o que não impede que essas também sejam analisadas.
WAGNER A. MOHALLEM, PSICOLOGIA COMPORTAMENTAL
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O ciúme é um fenômeno específico que não deve ser compreendido como uma derivação do amor ou da paixão. É o modo em que a possibilidade de não mais fazer parte do outro se manifesta nos relacionamentos de paixão. Eclode mais desveladamente quando sinto ou penso que o outro amado preferiu outrem.

Seduzido na trama da paixão, estou com-prometido com o outro que me promete algo que me tornará eternamente feliz e que é sinalizado na sua presença. Nesse encontro apaixonado vislumbrante de um amor eterno, a finitude da existência e do amor (que pressupõe a existência) encontra-se oculta. Na medida em que a alteridade do ser amado, que se desvela agora na abertura do amor, mostra-se indicando que é um Outro, mostra também sua possibilidade de repartir-se e, portanto, de não mais ser minha exclusividade.

A dura passagem da paixão exclusivista para o amor desvelador da alteridade pode ser vivida de modo qua combato a alteridade do Outro amado, já desvelada, com o desejo de possuí-lo e de ser seu único desejo. O ciúme revela essa luta em que a possibilidade do Outro ser com os outros é reconhecida e negada ao mesmo tempo. Temo, no ciúme, tanto a passagem para o angustiante encontro amoroso EU-TU, que já se anuncia, quanto pela existência com-prometida na paixão com esse outro, vivida como minha única possibilidade de ser.
PAULO R. A. EVANGELISTA, FENOMENOLOGIA EXISTENCIAL

(Artigo baseado no texto “Sedução”, de Dulce Mara Critelli)

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