PSYU Nº4 – Coluna DELPHO – Agosto/2000

Infidelidade
Infidelidade
Entenderemos por infidelidade quando, já participando de uma relação duradoura, envolvo-me com outra pessoa. Serão abordados aqui dois de seus aspectos.

Cabe lembrar que quando amo uma outra pessoa, amo-a com todas as possibilidades que é; uma delas é a de trair-me ou deixar-me. Esse aspecto da relação amorosa pode gerar ansiedade na medida em que aponta a incerteza do futuro, sendo geralmente negada (portanto, reconhecida). É importante lembrarmos também que o ser humasno é o ser do projeto. É o seu horizonte que dá sentido ao presente e ao passado. Esse horizonte, esse futuro, é sempre construído; o ser humano é um ser inacabado que lança-se no futuro para realizar-se, nunca se esgotando. Na relação de amor, o projeto é construído com o outro amado; é um projeto compartilhado.

No momento em que sou infiel, renuncio a esse projeto construído como para realizar-me de um novo modo, seja num projeto compartilhado com esse novo outro, ou um projeto individual (lembrando sempre que o ser humano nunca é solipso).

A renúncia momentânea do projeto com o cônjuge revela novas possibilidades existenciais que estavam ocultas no relacionamento. Modos de ser até então velados (mas já presentes de diversos modos, como por exemplo, na insatisfação ou no sentimento de mesmice) são desvelados e trazem novos elementos para a formulação do projeto de mundo. A infidelidade convoca-me a escolher ou negar novas possibilidades, com ou sem o outro (cônjuge).
PAULO R. A. EVANGELISTA, FENOMENOLOGIA EXISTENCIAL
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Muitas são asvariáveis que podem estar controlando uma classe de comportamentos que poderíamos classificar como infiel. Sendo cada caso único e merecedor de uma análise funcional mais detalhada, fica aqui registrado apenas explanações sobre algumas dessas possíveis variáveis sobre o ser infiel dentro de um relacionamento amoroso.

A começar, pode-se discorrer sobre a história de vida. Existem aqueles que aprenderam gradativamente, principalmente no ambiente familiar, alguns conceitos sobre certo e errado, que freqüentemente eram apresentados e conseqüenciados às respostas correspondentes, com reforços condicionados (estímulos verbais ou não). Paralelamente, muitas vezes, também são indicadas quais regras devem ser seguidas, sendo uma delas “Não trairás”. Uma pessoa que desde cedo foi reforçada por seguir determinadas regras poderá, mais facilmente, se apossar desta, dependendo também da confiabilidade do expositor da regra.

A história presente do relacionamento do casal pode ajudar na formulação de hipóteses. Se o relacionamento se apresenta de forma hostil, com muitas punições, se tornando um ambiente aversivo para um ou para ambos, se o cônjuge já não mais retribui de forma eficaz ao parceiro como antes, deixando de lhe proporcionar momentos agradáveis, um dos parceiros pode vir a buscar em outro relacionamento novos reforços, até mesmo como uma possível resposta de fuga. Além disso, não podemos deixar de mencionar o caráter forte do reforçador primário sexo, assim como outras possíveis variáveis, tal como o reforço despendido socialmente sobre o ato de ser infiel ou não.
POR WAGNER MOHALLEM, ANÁLISE DO COMPORTAMENTO
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Antes de nascer, ainda na barriga de sua mãe, o bebê já recebe tudo aquilo que poderia desejar. Após o nascimento, por um caminho complexo, o bebê é obrigado a adentrar ao mundo do desejo, o que torna necessário que comece a lidar com suas demandas tanto internas, as pulsões, como as externas, a cultura. Ou seja, a criança tem de lidar com o desejo de ter todos os seus desejos realizados; em última instância, trata-se do desejo de não desejar.

Em função desses desejos, o homem é obrigado a aprender a lidar com outros homens e para tanto, tem de se submeter à lei; no caso, reprimir seus desejos de morte pelo pai e de amor em relação à mãe. O modo com que isso acontece é que vai determinar as relações posteriores do indivíduo.

Esse estágio anterior onde não há desejos só voltará com a morte do indivíduo. Uma vez que tem de recalcar desejos para fazer parte da cultura humana, o homem será sempre alguém com desejos a realizar. Quando ele estabelece uma relação afetiva com outra pessoa, é como se realizasse seus desejos ancestrais de amor; porém, não é o que realmente acontece. Se num primeiro momento dessa relação o indivíduo se sente pleno, completo, com o tempo os desejos voltam a se impor. O indivíduo percebe que aquele ao qual dirige sua afeição não é plenamente completado por ele e nem o completa plenamente… É uma ilusão supor que a relação afetiva com alguém satisfaça por inteiro as demandas amorosas.

Assim, alguns irão recalcar seus desejos amorosos para com outros objetos; outros irão sublimá-lo, ou seja, transferí-lo para o trabalho, estudo, arte, etc.; e alguns vão sucumbir a eles. É nesse terceiro caso que surge a “infidelidade”.
POR IVAN ESTEVÃO, PSICANÁLISE

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