PSYU Nº4 – CULTURA – Agosto/2000

Claquete (Cinema)
Titan A.E. – Este filme faz parte do pacote do ano 2000 anti-Disney. A Fox entra na empreitada da animação gráfica com um desenho animado para fazer um dos mais bonitos filmes de ficção científica do gênero. Num futuro distante, um grupo de humanos está à procura da nave Titan – uma lenda projetada antes da Terra ser destruída pelos temíveis Drej – capaz de recriar um planeta para a recolonização pelos seres humanos (daí o A.E.: after Earth).

Sua história e seu roteiro deixam muito a desejar, fazendo desse um filme previsível e sem emoção, porém é um filme belíssimo, utilizando-se de avançados recursos quase full time para executar lindas cenas de animação e extrema realidade. Vale a pena, se visto com os olhos.
MAURÍCIO I. P. SALLES
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Dissonâncias
Na semana passada, a poesia experimental brasileira perdeu um dos seus mais atuantes defensores, Philadelpho Menezes. Philadelpho foi professor da Semiótica da PUC-SP e um dos introdutores da poesia sonora no país, ramo da poesia que explora a voz como objeto poético. Não há necessariamente texto, mas a formação de novos signos, agora sonoros, que ganham vida só com sua emissão. As dicas desse mês valem para quem quer conhecer a poesia sonora. Menezes editou dois CDs do gênero, o primeiro se chama “Poesia Sonora: do fonetismo às poéticas contemporâneas da voz”(LLS/PUC, 1996) e o segundo, “Poesia Sonora hoje” (EPE/PUC, 1998). Procurem por eles na Pós-Graduação em Semiótica da PUC-SP, fone: 262-8906.
THIAGO RODRIGUES
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CONTO

Mais um jogo do Coringão

Entrei correndo no ônibus, afinal já estava bastante atrasado. Sabe como é, tenho que agarrar o meu emprego, pois as condições não estão fáceis. Apesar do salário miserável, é o que eu tenho, e é com ele que eu compro o meu franguinho no final de semana. E, veja bem, quase que não estou conseguindo.

O ônibus estava bastante cheio, uma bagunça na verdade. Depois da catraca estava relativamente vazio. Como eu tinha um passe, que consegui comprar antes de subir no ônibus de um menino que vendia chocolate, passei a catraca e pensei que hoje eu não poderia conversar com o trocador como eu sempre fazia, pois este trocador não troca nem dinheiro, nem idéias.

Fiquei em pé, todos os lugares estavam ocupados. Um pouco suado e bastante cansado, talvez por causa da correria, mas eu sabia que ainda teria algumas horas em pé diante do maquinário. Não me restava nada a não ser me conformar ou me acostumar. Para passar o tempo resolvir ouvir a conversa de duas pessoas que estavam sentadas logo a minha frente. O que me chamou a atenção foi o que um deles disse:

– Hoje eu vô te falá dos problema do Brasil.

Eram dois passageiros que pareciam se encontrar regularmente dentro do ônibus. Pareciam pegar a condução para o trabalho sempre na mesma hora, talvez no mesmo ponto. A convivência naqueles momentos dentro do veículo parece ter trazido uma amizade.

O segundo respondeu:

– Chiii!!! Não vai dar tempo.

– Mas calma aí, eu vou falar do maior problema.

– O maior?

– É o jogo do Coringão de ontem.

Jogo do Coringão? Pensei. Gostaria que os problemas do Brasil fossem só um jogo do Coringão…

– Ontem, antes do jogo, fizeram um minuto de silêncio, morreu um figurão. Sabe como é, gente importante morre e todo mundo fica sabendo. Tem pobre que morre todo o dia e ninguém faiz silêncio, se duvidá faiz festa, porque é menos uma boca pra comê. Mas sabe que é isso? É mau agouro. Quando o jogo começa assim é porque não vai acabá bem. O Coringão deu o primeiro chute. Sabe quem começô o jogo? O back central, passou a bola pra trais. Nessa o outro time contra-atacô e pronto, já feiz um gol. O jogo foi rolando, super nervoso. Teve uma hora que o ponta direita entrou no joelho do ponta esquerda do Coringão. Pura canalhice! Tirô o ponta esquerda do jogo. Agora, pergunta se o juiz feiz alguma coisa? Feiz nada, nem deu cartão, só apitô uma falta na bova da área. Mas eu vi pênalti. Mas não adianta eu vê, tem que o juiz, que é autoridade, vê. O jogo foi rolando e o capitão do Coringão foi avançando, parecia que ia ser gol. Tava na boca da área e quando ia chutá, entrô numa dividida com a defesa, derrubô o cara, chutô e é gol… Mas você acredita? O juiz anulô, deu falta na defesa, e pior, expulsô o capitão. Nosso melhor jogador agora fora de campo. É sempre assim, jogo comprado, o Coringão, que o time do Povão, ataca e o juiz dá um jeito de tirá ele da jogada.

– O amigo! – disse o outro, parecendo entediado, tentando interromper a conversa – eu tenho que descê, mas me diz, quanto foi o jogo?

– Desta vez ele perdeu – disse desanimado – mas na próxima o time do povão vai ganhá, tenho certeza. É só o ponta esquerda ficá bom do joelho que nós vai ganhá. Sabe qual’é o problema do Brasil? É que o povo não presta atenção no futebol

O rapaz desceu e eu desci logo atrás. Fui até a firma pensando no que eu tinha ouvido e, realmente, o problema do Brasil é só esse, o povo não presta atenção no Football, um esporte tão Brasileiro…
MARCUS TESHAINER,ESTUDANTE DO 5º ANO DE PSICOLOGIA DA PUC-SP

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