PSYU Nº4 – Pesquisa/Projeto Social – Agosto/2000

Arte no presídio: uma proposta de movimento em um sistema rígido
Arte no presídio: uma proposta de movimento em um sistema rígido
Famosa pelas rebeliões, pela violência e pelo mistério, a imagem do presídio na sociedade mostra-se carregada de preconceitos, levando a uma postura fundamentada na exclusão, onde as oportunidades de (re)inserção do preso estão comprometidas. O egresso sem oportunidade de trabalho encontra como alternativa a volta ao crime, fechando assim um ciclo.

Como se propor a empregar uma população marginalizada, onde não há emprego nem para os privilegiados?

A FUNAP, Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel, tem como objetivo essa busca: a (re)inserção do preso no mercado de trabalho. Sua atuação vai desde a formação de oficinas de trabalho dentro do presídio até a alocação da mão de obra para trabalhos fora.

A parceria estabelecisda entre a PUC-SP e a FUNAP possibilitou a formação de grupos de estágio nos presídios e em alguns dos espaços conquistados para o trabalho dos presos, incluindo a própria FUNAP.

O Núcleo de Psicologia do Trabalho da Faculdade de Psicologia oferece no quaerto ano do curso, vagas para estágio curricular nesses estabelecimentos. Este núcleo tem como uma de suas finalidades pensar o modo como se dá o trabalho nas instituições que atende.

Este artigo busca contar um pouco como se deu um desses estágios, onde foi criado o projeto “Arte no Presídio”.

O grupo de estagiários era composato por Juliana Martins, Mara Zeyn e por mim, e supervisionado pelo professor Fábio de Oliveira. Nossa função era conhecer o trabalho no presídio de Franco da Rocha e identificar possíveis demandas de intervenção.

Após algumas visitas às oficinas de trabalho no presídio, sempre muito bem escoltadas, conhecemos a escola: duas pequenas salas onde são ministradas aulas à noite para alguns presos.

Na parede de uma dessas salas havia alguns desenhos surrealistas, com temas de encarceramento como cadeados e fechaduras que muito nos chamaram a atenção.

Além da qualidade dos desenhos, ficamos surpresos com algumas contradições que depois, ao conhecermos o autor, pudemos entender melhor.

Trata-se de W., um artista autodidata preso e condenado a 480 anos. Hoje, depois de cumprir 28 anos no sistema carcerário, com a saúde frágil, move-se com muletas.

W. nos apresentou a outros presos que trabalhavam com arte e marcamos uma reunião. Nesse dia, seis pessoas nos aguardavam. Disseram que davam aula informalmente a outros presos e que tinham um projeto de montar uma associação de artistas presos.

Começamos conhecendo o seu local de trabalho, um espaço coberto ao lado da quadra de futebol, cedido pela direção do presídio. Lá haviam entalhes em madeira, esculturas e artesanatos em geral.

Decidimos trabalhar esse espaço em nosso estágio. Nossa idéia foi a de montar uma exposição das obras deles, no espaço cultural da Biblioteca do PUC-SP. Esta seria inaugurada por uma Mesa Redonda no teatro TUCArena, onde se discutiria com profissionais da área, a questão da arte no presídio e possíveis formas de atuação. A partir deste encontro, o interesse tanto dos presos como o nosso foi gradualmete crescendo, até tornar-se nossa atividade principal no semestre. Tínhamos que arrumar o material para a exposição, compor a mesa, divulgar o evento…

A exposição na PUC-SP ocorreu do dia 5 ao dia 9 de junho.

O estágio semestral terminou e ficou a questão, e agora? Nosso compromisso inicial terminava com a exposição, eles venderam seus quadros, garantiram uma boa impressão com o diretor do presídio, nós ganhamos as nossas notas, fomos aprovados na matéria. Ficamos com a sensação de que um espaço havia sido aberto, que ainda poderia gerar muitos frutos.

Assim, começou a ser planejada uma continuidade. Um novo projeto agora preocupado em implementar o atelier do presídio de Franco da Rocha. Criar um espaço de produção, ensino e aprendizagem de arte, com o intuito de ao mesmo tempo trabalhar uma habilidade possível de comercialização e formar um espaço de reflexão. A arte como facilitadora do contato com o próprio modo de ser e o modo de ser do outro, passa a ser uma ferramenta de expressão, comunicação, de liberdade.

Gostaríamos com esse artigo, de convidar os que se interessam pelo tema a participar conosco dessa nova etapa do projeto.
PAULO ROBERTO R. MACHADO – ALUNO DO 5º ANO DE PSICOLOGIA NA PUC-SP

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