PSYU Nº5 – Coluna DELPHO – Setembro/2000

Mentira
Mentira
A psicanálise nos ensina que o indivíduo é um ser que deseja e que ao mesmo tempo é obrigado a renunciar a alguns desses desejos em prol da cultura e da relativa segurança que ela nos traz. Essa renúncia não implica no desaparecimento do desejo, mas sim no fato deles se tornarem inconscientes. Isso significa que o desejo inconsciente, recalcado, fica fora da percepção consciente, mas continua a influenciar a vida da pessoa. Uma vez que temos de renunciar a esses desejos para vivermos na cultura, nunca nos satisfazemos por completo. Ora, no final das contas, o que todos querem é não desejar, ou seja, ter todos os desejos realizados. Ao vivermos na cultura abrimos mão dessa possibilidade, o que nos leva a um mal-estar contínuo: nunca nos sentimos realizados plenamente.

Vivendo constantemente tomados pelo desejo, vivemos eternamente insatisfeitos. Essa busca por satisfação nos leva em certos momentos a criar subterfúgios e a mentira pode ser um deles. Por menor que seja sua importância e seus efeitos, a mentira é, sempre, algo que gostaríamos que fosse verdade; por trás dela encontramos invariavelmente um desejo, recalcado ou não. Quando mentimos, estamos tentando burlar a insatisfação que nos traz essa não possibilidade de realizarmos todos os desejos, ao mesmo tempo em que a mentira nos dá um prazer de satisfação de algum desejo, ainda que somente de forma imaginária.
IVAN ESTEVÃO, PSICANÁLISE
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A mentira remete-nos, obrigatoriamente, a uma verdade à qual ela se opõe. Isso é ainda mais manifesto quando a verdade é concebida, como na tradição metafísica, como a concordância entre o conhecimento e seu objeto; as mentiras seriam discordâncias. A questão da Verdade é tema da filosofia desde seu princípio.

Essa definição valeria numa concepção de uma verdade única. Na existência do humano (dasein) a verdade é dada historicamente e tem como sustentação ontológica a co-existência, isto é, é dada na “intersubjetividade”. Verdadeiro é aquilo que tem relevância pública. A veracidade dos fenômenos garante-lhes seu ser e testemunho e, por tanto, sua permanência.

Mas como já foi dito, a mentira é um acontecimento relacional, não uma “coisa em si”. Não se pode referir a uma “mentira em si”, mas sim a uma mentira de alguém para outro alguém. Mentir, segundo a compreensão de verdade acima exposta, é um esforço de desrealização de um fenômeno, isto é, de destituição de sua relevância pública, levando-o ao ocultamento. É também um ato de transcendência da situação imediata, no qual o possível (futuro), o já vivido (passado) e o agora se articulam. Sendo assim, é um comportamento unicamente humano. Essa mobilidade temporal tem como fundamento a liberdade ontológica.

Na situação clínica, a discussão sobre a mentira não cabe. Nesse tipo de encontro, aquilo que se manifesta na relação psicoterapêutica é sempre revelador dos modos de ser do paciente: seu ser-com-os-outros, seu cuidado com aquilo que se manifesta e sua liberdade.
PAULO EVANGELISTA, FENOMENOLOGIA EXISTENCIAL
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Existe o ditado popular “A mentira tem perna curta”, mas sabemos porquê?Talvez, levantando algumas hipóteses sobre este jargão popular, um pouco desse comportamento possa ser compreendido. Quem nunca mentiu? Embora haja na comunidade uma diferenciação qualitativa sobre o ato de mentir, ou seja, pequena ou grande, grave ou leve, necessária ou não, entre outras mais, esse pode ser considerado um comportamento humano e, como todos, mostra-se adaptativo, dependendo das condições nas quais surgiu. Voltando ao ditado, pode-se dizer que a mentira tem perna curta, muitas vezes, porque o próprio relator, possivelmente pode vir a contradizê-la e não é difícil de imaginar um possível motivo. Imaginemos uma pessoa que não está acostumada a mentir, ou seja, que não possui esse repertório bem instalado e fortalecido. Quando ela relata uma mentira, seja lá qual for, o relatar está provavelmente sob controle de sua situação momentânea e não sobre o controle do fato relatado em si, pois é claro, este nem existiu. Dessa forma, em situações posteriores, não semelhantes às quais a mentira foi utilizada, é possível que o relato dessa mesma pessoa fique muito mais sobre o controle da veracidade dos acontecimentos, ou seja, o tato pode ser mais preciso, e ela acaba por si só se contradizendo ou mesmo contando a verdade caso demore a lembrar e discriminar que nessa situação “deveria” mentir.

Ou seja, os fatos que fazem parte do conteúdo da mentira podem “perder a força” ou mesmo são esquecidos, podendo o relator muitas vezes nem se lembrar do que havia dito, mesmo que no momento esteja se dirigindo para a mesma pessoa à qual havia mentido.

Uma boa leitura sobre algumas variáveis do relato verbal pode ser encontrada em de ROSE (1997) e ainda em pesquisas como CRITCHFIELD, T. S., SPERONE, M. (1993) e RIBEIRO (1989) – “Correspondence in children’s self-report: tacting and manding aspects” – que apuram algumas variáveis sobre a correspondência do relato e do comportamento relatado.
WAGNER MOHALLEM, ANÁLISE DO COMPORTAMENTO

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