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Revista PSYU Nº8 – Coluna NEO (1) – Junho/2001

É Fantástico (plim, plim)
É Fantástico (plim, plim)
Chego tarde em casa e já cansado, ouço uma rádio que toca rap a noite toda. Aprendo sobre a dura realidade na periferia das grandes metrópolis, com o mérito de poder mudar de sintonia ou (me) desligar a qualquer momento dessa batida que parece querer grudar na cabeça. Assisto um pouco de TV antes de dormir e já entorpecido, leio meus e mails. Fico espantado ao saber que a carne do Mc Donalds vem de bois transgênicos se patas, alimentados por tubos até atingirem o peso para abate. O horror continua com o alerta de que os shampoos hoje no mercado contém ingrediente altamente cancerígeno. O frango do KFC e a garota que diz ter engravidado num baile funk (entenda-se, uma garota que escolheu transar num baile funk) também estão presentes. A fonte da informação é sempre a mesma: pesquisa feita em uma universidade americana comprova.

Nessas horas sempre agradeço por termos cada vez mais acesso imediato às informações do mundo todo. Na era da realidade virtual, alimentos transgênicos, terapias genéticas e megacorporações multimídia que controlam toda a informação, somos todos figurantes do filme Matrix, onde não distinguimos mais fatos de imagens, e a realidade vivenciada no dia-a-dia é confusa, sem conteúdo, passageira. As mesmas “fontes” (canais de televisão, gravadoras fonográficas, portais de internet, editoras e emissoras de rádio) fornecem a dose exata de cultura, lazer e informação que precisamos para nos manter no constante fluxo dos fatos que não elevam em nada nossa condição social e humana. Encontro um disco de rap que reúnem vários grupos do gênero prestando reverência ao cidadão José Carlos dos Reis Ensina, vulgo “Escadinha”, o dono do tráfico no Rio de Janeiro na década de 80. A maioria das letras das músicas foi escrita pelo próprio, e na faixa “Um simples José”, do grupo GOG, enncontro um homem no mínimo, perspicaz: “Bangu 1 há mais de dez guardados, entre quatro paredes e a televisão / De tanto assistir, irmão, percebi a mesma notícia contada de várias maneiras / E a última delas faz você se esquecer das primeiras…”.

Hoje a informação é uma mercadoria e, como tudo o que é mercadoria na nossa cultura, é descartável. Conhecemos mais do que nunca as causas de tudo o que acontece, da queda na Bolsa de empresas de tecnologia à mãe que ameaçou atirar no próprio filho. Temos resposta para todos os por quês, mas perdemos cada vez mais a perspectiva do sentido. Qual é o sentido disso tudo? O mundo está mesmo cada vez pior, como costumamos dizer? Essa compreensão que já atinge o status de fato social parece estar relacionada com a falta de sentido generalizada que paira sobre nossas cabeças como uma grande nuvem cinzenta.

Não temos mais tempo para refletir sobre as questões que nos cercam, não podemos deixar de ser mecanicamente produtivos, somos educados para prezar pela quantidade ao invés da qualidade. Assim, um canal de comunicação que se pretenda respeitável, deve cobrir todos os fatos ao redor do mundo em trinta minutos ou trinta páginas, incluindo o nascimento do primeiro koala criado em cativeiro num zoológico e a morte de políticos que são criticados enquanto vivos, mas que ao adoecerem, tornam-se mártires.

Que rumos pode seguir uma sociedade alimentada dessa forma? Como pode o desenvolvimento social, tão colado ao desenvolvimento tecnológico e econômico, implicar na repressão do pensamento reflexivo? Como isso interfere na nossa percepção de mundo e na constituição da nossa identidade, visto que construímos nosso conjunto de conceitos e valores sempre a partir da realidade que nos rodeia, seja ela real ou virtual?
ARTUR CHAGAS

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