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Revista PSYU Nº8 – Coluna PROFISSÃO – Junho/2001

O Vínculo no Acompanhamento Terapêutico em Instituições
O Vínculo no Acompanhamento Terapêutico em Instituições
O vínculo é a base de confiança entre terapeuta e paciente. Porém este vínculo é mais que um pacto de sinceridade e confiança, ele também é
possibilidade de dar-se a uma relação. Esta possibilidade na maioria das vezes significa o onde e a via de melhora do paciente. Muitas vezes o paciente, A partir da prática de uma relação interpessoal dirigida (que é o processo terapêutico) pode encontrar os meios para (re)significação da realidade e superação das dificuldades de relacionamento (sintoma comum
à maioria dos procuram atendimento clínico).

No caso do acompanhamento terapêutico, ao contrário da psicoterapia onde o setting fechado auxilia na construção do vínculo, a realidade e o
locus da dificuldade são enfrentados conjuntamente. Tal fator faz com que o vínculo, quando estabelecido, seja extremamente estreito e favoreça o atuar terapêutico. No entanto tal vínculo é muito mais difícil de ser estabelecido, visto que a parceria na compreensão da realidade in loco, muitas vezes, se contrapõe a formação deste vínculo.

Podemos dizer que no acompanhamento terapêutico, a função do acompanhante (AT) de dar dados de realidade, muitas vezes estabelece
este contraponto, pelo tênue limite entre o acreditar e desconfiar do paciente. Quando a realidade do paciente é muito delirante, os dados de realidade podem ser substituídos pela compreensão do delírio, mas isto só deve ser feito por algum tempo e visando a formação do vínculo e a compreensão da realidade do paciente. Dessa maneira a dificuldade em
estabelecer o vínculo é proporcional à dificuldade em quebrá-lo depois dele estar estabelecido.

O acompanhamento terapêutico no Centro de Reabilitação e Hospital Dia (CRHD) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, é um caso à parte. A concentração de pacientes com psicopatologias que envolvem transtornos de personalidade e distúrbios de humor, faz com que o estabelecimento do vínculo seja muito dificultado.

Em muitos casos, o AT se vê em uma posição delicada na ponte entre a equipe do CRHD e o paciente. Nesta situação, as funções do
acompanhamento podem se limitar à adesão ao tratamento ou o início de alguma atividade externa ao hospital. Percebo que com uma “missão” preestabelecida fica mais difícil formar o vínculo, visto que muitas vezes essa ação planejada e estruturada vai contra os desejos e motivações dos pacientes. E o acompanhamento terapêutico só pode ocorrer
através da manifestação dos desejos do paciente. Porém, apesar destes obstáculos do AT institucional, quando é possível estabelecer um vínculo, mesmo que razoavelmente frágil, com os pacientes, a melhora do quadro psicopatológico é surpreendente. A medida que os paciente começam a confiar no AT e desenvolver atividades conjuntas que busquem a inclusão em espaços sociais já habitados ou mesmo em espaços novos, o vínculo se fortalece e também a redução no tempo de melhora aparece.

Ainda cabe dizer, que diante de pacientes tão singulares como os desta instituição, o trabalho do AT não pode se limitar pela necessidade do
vínculo estabelecido. Como já dissemos ele é de extrema importância, porém neste caso a própria formação do vínculo pode ser o objetivo do
acompanhamento.

Concluindo, o vínculo é fundamental para o desenvolvimento de um acompanhamento terapêutico de qualidade e que atenda às necessidades e demandas do paciente. Porém isto é extremamente difícil e exige uma disponibilidade descomunal tanto por parte dos pacientes como por parte do AT, que também é atravessado por todas as questões humanas presente nos processos interpessoais. Deste modo, esta relação específica do acompanhamento terapêutico deve ser objetivada e estudada com mais cuidado do que o necessário em outros meios terapêuticos.
JOÃO PEDRO B. PEROSA, PSICÓLOGO MESTRANDO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NA PUC-SP.

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