Revista PSYU Nº9 – Coluna ABERTA – Agosto/2001

Musicoterapia em três acordes

Musicoterapia em três acordes

E eis que você, após intensa jornada de aulas, leituras, análise pessoal, estágios e supervisões, finalmente está se formando na faculdade pela qual passou os últimos suados anos!

Momento de transição imensa, por vezes brusca, de ter que pensar – tua opção: atuação clínica – na procura de um local de trabalho, faixas etárias ou populações específicas, em modalidades individual, de casal, grupal, ou ainda nas áreas de RH, reabilitação, hospitalar, pedagógica, pesquisa, mestrado, entre outras…

A opção por uma linha teórica – psicodinâmica, dentre outras: behaviorista, existencial, médica – ao menos te dá alguma tranqüilidade. A mudança está aí, inevitável para você agora, musicoterapeuta.

Musicoterapeuta? Como assim?

De atuação ainda pouco conhecida no Brasil, musicoterapeutas em países como Canadá, Noruega e Dinamarca têm o trabalho nos serviços públicos de saúde assegurado pelo governo. Música + terapia: Musicoterapia. Terapia na e com a música, sons e relações musicais estabelecidas. Relatos antropológicos estão ricos em tradições de cantos xamânicos, da música auxiliando em partos e curas. O clichê de nossas avós: “quem canta, os males espanta”. Musicoterapia: por que não?

O setting: em vez de divã, instrumentos musicais à disposição, ao invés de elaborados insights verbais, atividades de audição, improvisação, recriação e/ou composição musicais, dando-se na relação terapeuta-cliente. Elementos musicais como intervalos, andamentos, harmonia, vibrações, pausas, fazem parte das análises e conteúdos do processo terapêutico, junto às transferências e contratransferências.

Mais do que uma prática alternativa ou esotérica, no mau sentido, ou do que “música pra relaxar” (dizer isso de um musicoterapeuta faz o mesmo que reduzir o trabalho de um psicólogo a “ouvir e dar conselhos”), a Musicoterapia vem buscando sua afirmação enquanto teoria, prática e pesquisa. Munida de teorias e reflexões psi, reporta também aspectos e conceitos próprios, oriundos dos diálogos com a Música, Semiótica e Neurologia.

Dois exemplos: o conceito de Identidade Sonora, proposto por Rolando Benenzon (argentino introdutor da matéria no Brasil, em 1971); a constatação fisiológica de serem diferentes as regiões cerebrais do falar e do cantar (estimulação musical sendo diferente da estimulação verbal). Outros autores importantes em Musicoterapia: Even Ruud (Noruega), Claus Bang (Dinamarca), Kenneth Bruscia (EUA), Lia Rejane Barcellos (Brasil).

Na Musicoterapia o não-verbal é imensa ou exclusivamente visado e compartilhado – o que não significa não ocorrerem intervenções verbais, apenas em menor freqüência. Uma vez que apenas 30% da comunicação humana é verbal, temos em sua atuação clínica um amplo leque de possibilidades. Algo fundamental e estratégico no tratamento de pacientes em coma, demenciados, autistas/psicóticos, ou com as mais variadas dificuldades motoras, de expressão, compreensão ou aprendizagem, por exemplo. A música como linguagem (sem significados precisos – trunfo e armadilha da verbal), simultaneamente meio e mensagem, propicia acessos, vence barreiras, inclusive afetivas.

Em minha atuação clínica, sobretudo como A.T. (Acompanhante Terapêutico) e colaborador do Projeto Oficinas Terapêuticas (serviço oferecido pela Clínica da PUC-SP), isso ocorre de diversas formas, todas muito claras: a criança ecolálica, ou que “não fala”, e começa a fazê-lo a partir do balbuciar alguma canção, ou demonstrando saber letras de canções presentes na mídia (parêntese antropológico: o homem conheceu a fala posteriormente ao cantar), o indivíduo fragmentado que recupera seu passado mediante audição de canções conhecidas ou há muito esquecidas (escuta referencial), que passa a compor canções em cujo cantar e letras projeta delírios, sonhos e rupturas. Outros sons. Tantos tons e alcances.

Musicoterapia porque sim.

Leitura sugerida
O Som e O Sentido, José Miguel Wisnik, Cia. das Letras.
Musicoterapia, Uma Visão Geral, Ana Léa von Baranow, Enelivros.

MARCO ANTONIO BERENGUER, MÚSICO, PSICÓLOGO CLÍNICO, A.T. E PÓS-GRADUANDO EM MUSICOTERAPIA

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