Revista PSYU Nº9 – Coluna ENTREVISTA – Agosto/2001

Zeca Baleiro fala ao PSYU!

No dia 15 de junho de 2001, o cantor e compositor Zeca Baleiro recebeu entidades de comunicação da PUC para uma entrevista coletiva. Zeca estava em plena temporada do show Líricas, baseado nas composições de seu mais recente disco, que ficou em cartaz no TUCA por todo o mês de junho. A equipe do PSYU esteve lá e mostra agora os principais trechos do bate papo realizado com muita descontração e bom humor.

Zeca Baleiro fala ao PSYU!

No dia 15 de junho de 2001, o cantor e compositor Zeca Baleiro recebeu entidades de comunicação da PUC para uma entrevista coletiva. Zeca estava em plena temporada do show Líricas, baseado nas composições de seu mais recente disco, que ficou em cartaz no TUCA por todo o mês de junho. A equipe do PSYU esteve lá e mostra agora os principais trechos do bate papo realizado com muita descontração e bom humor.

PSYU: Vô Imbolá termina com a faixa Maldição, na qual você canta “meu coração não quer dinheiro, quer poesia” ao mesmo tempo em que evoca nomes ditos “malditos” da MPB e da literatura. Essa canção foi uma ponte intencional com Líricas, onde você discute o conflito arte/mercado, ou foi uma manifestação do seu inconsciente artístico?

Zeca: (Risos) Curioso, eu nunca tinha pensado nisso… É uma ponte natural, porque tanto em termos de conteúdo poético quanto musical, a “maldição” está muito mais próxima das canções que estão no Líricas. Sei que desagradou muita gente, mas era o disco que eu queria fazer. Acho que o artista tem que ser fiel ao seu impulso criativo, senão ele será muito infeliz. Tem um flerte com a aura “maldita” da literatura, há citação expressa a Maiakovski, poema do Cummings traduzido por Augusto de Campos, parceria com Alice Ruiz. A poesia está, de certa forma, mais presente nesse disco que nos outros.

PSYU: O Líricas é “maldito”?Você aceita esse rótulo ou o renega? Uma “arte maldita” é destinada a pouco ou pode ser consumida pelas multidões?

Zeca: A princípio eu renego o rótulo “maldição” assim como renego todos os rótulos. Acho que eles são uma prisão, uma camisa de força para o artista, que limita as possibilidades criativas. O termo “maldição” vem da literatura, de poetas como Rimbaud, Allan Poe e Baudelaire, que exercitavam essa “maldição” num tempo em que isso era charmoso, glamuroso. Mas a literatura tem um compromisso menor com o mercado. Já a música popular é uma arte que depende da aceitação do público. Seja qual for o artista, Macalé ou Zezé di Camargo, ele precisa do público. Quando trabalho nas músicas com elementos da literatura maldita, na verdade tento fazer uma ponte entre esses dois universos. Não quero ser um maldito, um incompreendido, eu quero tocar para as multidões! A música popular precisa de platéia e eu não quero ser um músico sem platéia.

PSYU: Qual é a influência da poeta Hilda Hilst no seu trabalho? O CD de composições eróticas que você diz estar preparando tem a ver com a Hilda Hilst?

Zeca: Na verdade são dois projetos diferentes. Muita gente tem feito essa confusão porque a Hilda ficou muito associada à imagem de escritora erótica, mas a obra dela é muito mais vasta que isso. Ela fez mil peças de teatro, livros de poesia, prosa. Um projeto é um disco de canções eróticas que tenho divulgado nos shows, cantando uma canção. O outro é um disco que está em fase de pré-produção, com canções a partir de poemas que eu musiquei da Hilda, tirados de um capítulo de um livro dela. São poemas super líricos, com uma atmosfera meio medieval. Ela me mandou sua obra poética, eu escolhi dez poemas, musiquei e agora estou selecionando dez cantoras para cantar.

PSYU: Haverá reprise do show “5 no palco” (série de shows que reuniram, em1999, Lenine, Zeca Baleiro, Paulinho Moska, Chico César e Suzano)?

Zeca: Acho muito difícil, não os vejo há muito tempo. Fizemos doze apresentações pelos SESCs da capital e interior de São Paulo. Agente até tentou fazer um disco, mas a gravadora do Lenine (BMG) colocou dificuldades e aí não deu. Depois, cada um seguiu seu rumo. Para mim esse encontro foi histórico. Cinco pessoas da mesma geração fazendo juntos um som é coisa difícil de se ver. Agente estava fazendo no momento em que agente ainda estava firmando nossos trabalhos. Neste último ano, participei de muitos projetos, como o disco do Lobão que foi muito importante no contexto atual. Eu adorei participar desses projetos, principalmente daqueles de gente que admiro.

PSYU: Você não sofre pressão da gravadora para lançar discos com mais freqüência? Como a gravadora viu a mudança de estilo de Vô Imbolá (mais dançante) e Líricas (mais introspectivo)?

Zeca: Eu nunca fui cobrado. Eu acredito que alguns artistas têm um compromisso com vendagem, um vínculo comercial mais estreito com a música do que eu. Até que não sou um “vendedor” desprezível. Entre o Por onde andará Stephen Fry (1996) e Vô Imbolá (1999), passaram-se mais de dois anos. Quanto ao estilo, há um questionamento, mas não pressão. Eu apresentei o projeto de Líricas e eles (a gravadora) bancaram, mesmo achando que não era um disco muito fácil. Tem uma ousadia da parte deles também. E aí está o Líricas.
ENTREVISTA REALIZADA POR THIAGO RODRIGUES, ALEXANDRE BRAGA E MARIA CLARA CARVALHO

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