Orgasmo das mulheres não ajuda a evolução da espécie, afirma pesquisadora

Os cientistas nunca tiveram dificuldades em explicar o orgasmo masculino, já que é associado à reprodução. No entanto a lógica darwiniana por trás do orgasmo feminino nunca foi elucidada. As mulheres podem ter relações sexuais e ficarem grávidas –fazendo sua parte na perpetuação da espécie– sem terem orgasmos.
Então, qual é seu propósito evolucionário?

Dinitia Smith
Em Nova York

Fonte: [url=http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2005/05/17/ult574u5436.jhtm]UOL-New York Times[/url]
Os cientistas nunca tiveram dificuldades em explicar o orgasmo masculino, já que é associado à reprodução. No entanto a lógica darwiniana por trás do orgasmo feminino nunca foi elucidada. As mulheres podem ter relações sexuais e ficarem grávidas –fazendo sua parte na perpetuação da espécie– sem terem orgasmos.
Então, qual é seu propósito evolucionário?

Dinitia Smith
Em Nova York

Fonte: [url=http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2005/05/17/ult574u5436.jhtm]UOL-New York Times[/url]
Nas últimas quatro décadas, os cientistas propuseram uma série de teorias.

Uma, por exemplo, argumenta que o orgasmo estimula as mulheres a fazerem sexo e, portanto, a reproduzirem-se; outra sustenta que o orgasmo leva as mulheres a procurarem homens mais saudáveis e fortes, maximizando as chances de sobrevivência de seus filhos.

Mas em um novo livro, a Dra. Elisabeth A. Lloyd, filósofa da ciência e professora de biologia da Universidade de Indiana, estudou 20 das principais teorias e expôs suas falhas.

O orgasmo feminino não tem nenhuma função evolucionária, argumenta em seu livro “The Case of the Female Orgasm: Bias in the Science of Evolution” (O Orgasmo Feminino: Parcialidade na Ciência da Evolução).

Para ela a teoria mais convincente é a do antropólogo Donald Symons, de 1979, que diz que os orgasmos femininos são simples artefatos –subprodutos do desenvolvimento paralelo dos embriões feminino e masculino nas primeiras oito ou nove semanas de vida.

Nesse período, são estabelecidos os caminhos neurais para vários reflexos, inclusive o do orgasmo, disse Lloyd. Com o progresso do desenvolvimento, os hormônios masculinos saturam o embrião e a sexualidade é definida.

Nos meninos, o pênis se desenvolve, junto com o potencial de ter orgasmos e ejacular. As meninas, tendo o mesmo projeto de corpo inicial, “incorporam os caminhos neurais para o orgasmo”.

O bico do seio no homem também é vestigial, salientou Lloyd. Apesar de servirem a um propósito nas mulheres, nos homens parecem ter sobrado do estágio inicial de desenvolvimento embriônico.

O orgasmo feminino, disse ela, “é para divertir”.

Lloyd disse que os cientistas insistem em encontrar uma função evolucionária para o orgasmo feminino porque querem acreditar que a sexualidade feminina é exatamente paralela a dos homens, ou porque estão convencidos que todas as características devem ser “adaptações”, ou seja, devem servir uma função evolucionária.

As teorias do orgasmo feminino são importantes, porque “as expectativas dos homens em relação à sexualidade normal da mulher, sobre como deve ser seu desempenho, são construídas em torno dessa noção”, disse Lloyd.

“E são os homens que refletem para a mulher se é ou não sexualmente adequada”, continuou.

Um ponto central de sua tese é a questão da freqüência com que as mulheres têm orgasmos nas relações sexuais. Ela analisou 32 estudos da freqüência do orgasmo feminino durante o sexo, conduzidos no curso de 74 anos. Quando a relação não era acompanhada da estimulação do clitóris, somente um quarto das mulheres estudadas tinha orgasmos freqüentemente ou muito freqüentemente durante o sexo, concluiu.

De 5 a 10% nunca tinham orgasmos.

Mesmo assim, muitas mulheres engravidaram.

Os números de Lloyd são menores do que os apresentados pelo Dr. Alfred A. Kinsey, em seu livro de 1953 “Sexual Behavior in the Human Female” (Comportamento Sexual da Mulher). Nos estudos de Kinsey, de 39 a 47% das mulheres disseram que sempre ou quase sempre tinham orgasmos durante o sexo.

Lloyd, entretanto, diz que Kinsey incluiu orgasmos com estímulos clitoridianos.

Ela acredita que o clitóris é uma adaptação evolucionária, selecionada para criar excitamento, levando ao sexo e à reprodução.

No entanto, “o orgasmo não pode ser uma adaptação, pois não tem uma ligação com a fertilidade ou com a reprodução”, disse ela.

Nem todos concordam. Por exemplo, o Dr. John Alcock, professor de biologia na Universidade Estadual do Arizona, criticou uma versão anterior da tese de Lloyd, apresentada em 1987, quando apareceu em um artigo de Stephen Jay Gould na revista “Natural History”.

Em entrevista telefônica, Alcock disse que não tinha lido o novo livro da estudiosa, mas que ainda acreditava que o fato de “o orgasmo não ocorrer toda vez que a mulher tem uma relação sexual não serve como prova de que não é uma adaptação”.

“Fico pasmado com a sugestão de que o orgasmo tem que ocorrer sempre para ser uma adaptação”, acrescentou.

Para Alcock, a fêmea pode usar o orgasmo como “uma forma inconsciente de avaliar a qualidade do macho”, sua aptidão genética e se é adequado para ser pai de seus filhos.

“Assim, é natural que não ocorra todas as vezes”, disse Alcock.

Entre as teorias que Lloyd aborda em seu livro está uma de 1993 proposta pelos Drs. R. Robin Baker e Mark A. Bellis, da Universidade de Manchester. Em dois artigos publicados pela revista “Animal Behaviour” eles argumentam que o orgasmo feminino é uma forma de manipular a retenção de esperma, criando uma sucção no útero. Quando a mulher tem um orgasmo entre um minuto antes do homem ejacular até 45 minutos depois, ela retém mais esperma, disseram.

Além disso, quando uma mulher tem uma relação com um homem diferente de seu parceiro sexual, ela tem maior probabilidade de ter um orgasmo naquele espaço de tempo e assim reter mais esperma, presumivelmente facilitando a concepção. Eles postularam que as mulheres buscam outros parceiros para obter genes melhores para seus filhos.

Lloyd disse que o argumento de Baker e Bellis era “fatalmente falho porque sua amostra era muito pequena”.

“Em uma das tabelas”, disse ela, “73% dos dados se baseiam na experiência de uma pessoa.”

Em uma mensagem eletrônica recente, Baker escreveu que seu artigo e o de Bellis tinham sofrido “intensa revisão e elogio dos colegas” antes de serem publicados. Entre os revisores havia estatísticos que observaram que algumas das amostras eram pequenas, “mas consideraram que nenhuma era fatal ao artigo”.

Lloyd disse que há dados que põem em dúvida a lógica dessas teorias.

Pesquisas do Dr. Ludwig Wildt e seus colegas na Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, em 1998, por exemplo, concluíram que o útero de uma mulher saudável sofre contrações peristálticas durante o dia na ausência de relação sexual ou de orgasmo. Isso lança dúvidas, argumenta Lloyd, sobre a idéia de que as contrações do orgasmo de alguma forma afetam a retenção do esperma.

Outra hipótese, proposta em 1995 pelo Dr. Randy Thornhill, professor de biologia da Universidade do Novo México, e dois colegas, sustenta que as mulheres têm maior probabilidade de ter orgasmos durante uma relação sexual com homens com características físicas simétricas. Com base nos estudos anteriores de atração física, Thornhill argumentou que a simetria pode ser indicadora de aptidão genética.

Lloyd, entretanto, disse que essas conclusões não são viáveis porque “cobrem apenas uma minoria de mulheres, 45%, as que dizem que algumas têm orgasmo e outras vezes não.”

“Isso exclui as mulheres dos dois lados do espectro”, disse ela. “Os 25% que dizem que quase sempre têm orgasmo durante o sexo e os 30% que dizem que raramente ou nunca. E esses últimos 30% incluem 10% que nunca têm orgasmo sob quaisquer circunstâncias.”

Em entrevista telefônica, Thornhill disse que não tinha lido o livro de Lloyd, mas que o fato de nem todas as mulheres terem orgasmos durante a relação sexual reforça sua teoria.

“Os padrões de orgasmo devem variar com os homens”, disse ele.

Lloyd também criticou o trabalho de Sarah Blaffer Hrdy, professora emérita de antropologia da Universidade da Califórnia em Davis, que estuda o comportamento dos primatas e estratégias reprodutivas femininas.

Já foi documentado o orgasmo em algumas espécies de primatas; a questão continua sem resposta no caso de outros mamíferos.

No livro de 1981 “The Woman That Never Evolved” (A Mulher que Nunca Evoluiu) e em seu outro livro, Hrdy argumenta que o orgasmo evoluiu em primatas não humanos como forma de as fêmeas protegerem sua cria da depredação dos machos.

Ela salienta que macacos langur têm alta taxa de mortalidade infantil –30% das mortes dos filhotes são causadas por machos diferentes dos pais. O langur, porém, não mata os filhotes das fêmeas com quem acasalou.

Em macacos e chimpanzés, disse ela, as fêmeas são condicionadas pelas sensações prazerosas de estímulo clitoridiano a continuar copulando com vários parceiros, até terem um orgasmo. Assim, os machos não sabem quais bebês são seus e quais não são e não os atacam.

Hrdy também rejeita a idéia de o orgasmo feminino ser um artefato do desenvolvimento embrionário.

“Estou convencida de que a seleção do clitóris é bem separada da do pênis nos machos”, disse ela.

Ao criticar a opinião de Hrdy, Lloyd nega a idéia de que períodos mais longos de relação sexual levem a maior incidência de orgasmo, algo que se for verdade, poderia fornecer um raciocínio evolucionário para o orgasmo feminino.

Hrdy disse que seu trabalho não fala da questão do orgasmo feminino em seres humanos. “Minha hipótese é silenciosa”, disse ela.

Uma possibilidade, disse Hrdy, é que o orgasmo nas mulheres tenha sido um traço adaptativo em nossos ancestrais pré-humanos. “Mas nos separamos de nossos ancestrais primatas comuns há cerca de 7 milhões de anos. Talvez o orgasmo esteja tão errático por estar sumindo”, disse Hrdy. “Nossos descendentes talvez se perguntem sobre o que era toda essa discussão.”

A cultura ocidental está cheia de imagens da sexualidade feminina, de mulheres tendo orgasmo e parecendo atingir raras alturas de prazer, talvez impossíveis para a maior parte das mulheres na vida diária.

“O nosso passado evolucionário nos diz como as várias partes do corpo deveriam funcionar”, disse Lloyd. Se disserem para as mulheres que é “natural” terem orgasmos toda vez que fazem sexo e que isso as ajuda a engravidar, talvez se sintam inadequadas, inferiores ou anormais quando não alcançam isso.

“Entender a história evolutiva tem conseqüências sociais e pessoais muito grandes para todas as mulheres”, disse Lloyd. “E indiretamente, para os homens também.”

Tradução: Deborah Weinberg
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