O sonho perde importância e presença na prática psicanalítica

O sonho, caminho privilegiado -segundo o pai da psicanálise, Sigmund Freud- para a lógica do inconsciente, está sumindo.
Enquanto dormimos, é verdade, ele continua o seu trabalho, mas surpreende cada vez menos os sonhadores, e seus relatos se tornam escassos sobre os divãs (embora esses também sejam cada vez mais raros).

Fonte: FOLHA mais!
O sonho, caminho privilegiado -segundo o pai da psicanálise, Sigmund Freud- para a lógica do inconsciente, está sumindo.
Enquanto dormimos, é verdade, ele continua o seu trabalho, mas surpreende cada vez menos os sonhadores, e seus relatos se tornam escassos sobre os divãs (embora esses também sejam cada vez mais raros).

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A crise dessa “via régia” para os desejos inconscientes -e para a “cura pela palavra” proposta pela psicanálise- faz parte de um conjunto de mudanças que vai muito além do consultório.
Segundo os psicanalistas Chaim Samuel Katz e Jurandir Freire Costa, que, a convite da Folha, debateram o sonho, sua diminuição de importância na “decifração” do sujeito tem a ver com mudanças na forma como as pessoas pensam suas próprias identidades e realizam s uas relações com os outros.
Ou seja, a crise do sonho é também a crise da sociedade, da religião, da arte, da política.
O sonho como “ponte” que religa o adulto a sua infância perdida, para ali encontrar as razões de sua “saúde” ou “doença”, sucumbe ante o fato de que o início da vida e a maturidade se encontram cada vez mais próximos culturalmente, tornando a criança um simulacro do adulto, e este, um projeto constante de eterna juventude.
Mais ainda, o sonhador não reconhece o outro que dê sentido ao seu sonhar, numa sociedade que, fundada sobre a condição de sacrifícios mútuos, assiste à emergência de sujeitos que atuam de maneira desmedida, ignorando a conseqüência de seus atos nos outros, ou como credores lamurientos de tudo e de todos.
Para Tales Ab’Sáber, autor de “O Sonhar Restaurado” (ed. 34), “uma noite ainda mais profunda” pode ter caído sobre o sujeito pensado pela psicanálise, que, sem o sentido do sonho, passa a habitar um mundo que é apenas “uma acumul ação de coisas” e que talvez já não conheça “nenhum valor que não passe pelas quantidades, pelo sonho radicalmente sem qualidades do dinheiro”.

São Paulo, domingo, 03 de julho de 2005 – FOLHA mais!

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