A Cidade dos Anjos

Há alguns meses, alguns pacientes começaram a falar de um filme: "A cidade dos Anjos". Pensei nos comentários que eles traziam como sendo basicamente material de análise.

Na ocasião não me interessei por ver o filme. Alguns meses se passaram e eis que um dia, me encontro numa locadora de vídeos à me perguntar: O que escolher para ver? Dei de cara com o cartaz do filme. Peguei-o Num dia frio e preguiçoso coloquei o filme no vídeo. Aos poucos fui me envolvendo com cada cena que ia surgindo. Leve, agradável e sensual o filme cativava. O tema não podia estar menos em voga:- "anjos". Homens invisíveis, vestidos de negro e que caminham silenciosos sobre a terra circulando entre os humanos. Levam os espíritos daqueles que morrem e tentam apaziguar aqueles que ficam com a vida dolorida e complicada desse viver insólito. Homens jovens de todas as etnias que nada sentem, com nada se envolvem e nada pretendem à não ser levar à cabo sua eterna missão. Homens apenas na aparência pois longe estão de se parecerem com seres humanos.

Então, um deles – Seth -, que já de início demonstra uma natureza inquieta, encanta-se por uma jovem e linda médica. Apaixonado quer sentir coisas, as coisas que ela sente; as coisas que ela eventualmente poderia fazê-lo sentir. Ele não sabe o que são essas coisas. Tenta imaginá-las, não consegue. Como imaginar algo que é sentido pelo outro? Então lê E. Hemingway e delicia-se com as descrições que esse autor faz dos sabores, das cores e das estações. Lê "Primavera em Paris".

Mas como fazer para sentir? Como um anjo pode sentir? Como mudar? É então que, dentre os pacientes de sua médica predileta, ele encontra alguém que consegue perceber-lhe a presença sem que ele o autorize. Conversam e o paciente revela-se um anjo caído. Quer dizer, um anjo que desistiu de sua condição de ser intocável, invisível e eterno para tornar-se humano e com direito a viver todas as coisas que os humanos vivem, inclusive o amor, a dor e a morte.

Agora ele sabe o caminho. Seth fica em angústia quando se trata de escolher entre continuar a ser anjo imortal ou tornar-se humano. Toda a dúvida acaba quando seu amor o procura e diz: -Vou me casar amanhã com um colega médico. Preciso de alguém que possa sentir o carinho que eu faço e o beijo que eu dou. Seth, à despeito de qualquer dúvida, sobe ao alto de um grande edifício e joga-se. Era essa a forma de tornar-se humano: O anjo tinha que cair. Depois da queda, surpreso, descobre-se humano e feliz. Descobre o humano desumano diante dele e ainda assim fica feliz. Reencontra seu amor e aí também é feliz. E mesmo quando perde o amor, ainda que revoltado, o ex-anjo ainda é feliz. Diz à outro anjo: "Valeu à pena ter esperado uma eternidade para poder sentir o que eu senti".

Quando termina o filme, fico com uma sensação estranha e agradável que não sei explicar. É bom e isto é tudo. Num dado momento me dou conta de uma coisa curiosa. Aquele anjo, o que cai, Seth, revela, aos poucos, algo de nós. Lembro o paciente que fui e penso nos inúmeros pacientes que tive e tenho. Nas descobertas que fazemos sobre aquela humanidade tão grandiosa e assustadora dentro de nós, à que nos recusamos e que negamos com onipotência. Lembro-me que cada um deles, assim como eu um dia, chega ao consultório pretendendo ser anjo. Lembro-me dos conflitos e sofrimentos antes de podermos cair, de entregar-nos à vida.

Seja lá porque razão for, muitas vezes as pessoas se tornam adultas e em muito se assemelham àqueles anjos. Passam pela vida intocáveis. Não sabem e nem querem saber o que é sentir. Como se por uma ilusão necessária, acreditam ter uma missão a cumprir. Karma, dizem alguns. Não sei. Dedicam-se ao trabalho, escravizam-se, perdem-se dos demais e do prazer que a presença do outro pode representar. Chegam mesmo a ficar escandalizados diante das demonstrações afetivas daqueles que às vezes tão "estranhamente" sabem sentir. Muitas vezes seu preconceito lhes serve de capa protetora. E, mesmo fisicamente, recusam-se às sensações. Ficam como os anjos: solitários, errando pela eternidade que lhes couber.

Mas em alguns de nós, há um Seth que se recusa à morte na vida. Há um Seth que não aceita o conformismo do Karma, sempre credita num caminho melhor. Há um self verdadeiro que tem força bastante para tentar sobrepujar a forma esquizóide de vida. Há um Seth que sabe que a vida não é senão as sensações que nos trazem o olfato, a visão, o tato, a audição e o paladar. Que é necessário sentir dor para compreender o significado do prazer. Que o paraíso onde vivem os anjos é uma ilusão criada pelos homens que não suportam a única verdade da vida: a sua incessante turbulência. Seth quer viver todos os paradoxos, quer ferir-se e sangrar para compreender o que significa sarar e com isso aprender a esperança. Quer, enfim, ser um simples e delicioso ser humano. E quando consegue, que prazer inusitado, fantástico e maravilhoso! Nada se compara àquilo. Nem mesmo a divina música dos amanheceres e entardeceres que os anjos ouviam é tão grandiosa como a vida que ele descobre nas ondas do mar.

Na medida em que concluo fico um pouco triste. São tão poucos os Seths que encontramos pela vida. E é tão pouca a vida sem os Seths. Mas há uma cena no filme que, assim como na vida, nos dá alguma esperança. Os Seths acabam tendo alguma capacidade de despertar nos demais anjos alguma curiosidade pela humanidade. Eles que certamente tiveram algum contato com a vida em algum momento de sua existência, antes que a dor pudesse transformá-los em anjos, podem sentir o desejo de retomar essa humanidade. Se assim for vai ser animador. Ao contrário do que possa parecer, é necessário que tenhamos mais homens humanos na terra do que anjos.

Mário Quilici

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