A Pele Relação ou Barreira – A percepção de nossa pele como superfície da projeção do psiquismo






photo by Robert CroglePsicossoma

por Mário L. Quilici


A psicossomática, uma ciência relativamente moderna, vem se mostrando a cada dia imprescindível no trato com o paciente, não só na área médica como também na área de psicologia. Dessa forma resolvemos criar um espaço onde o tema fosse tratado com leveza e seriedade, objetivando assim relativizar a dicotomia tão bem estabelecida entre as ciências da mente e do corpo. Nos tempos atuais já não se pode pensar separadamente nessas duas entidades quando tratamos do homem pois este é, antes, uma integração psicofisica. Assim, creio que não há nenhuma razão para adiarmos a inclusão dos conhecimentos da psicossomática na praxis clinica, seja ela em que área ocorrer. A inclusão desse conhecimento na prática eliminaria as polaridades que sempre acabam por prejudicar o paciente.


Poderíamos gastar horas tratando do assunto, já que há uma infinidade de trabalhos publicados e que provam e comprovam os postulados de que a mente afeta indiscutivelmente o funcionamento dos órgãos e é por eles afetada. Milhares de livros são publicados todos os anos no mundo inteiro tratando do assunto mas poucos são os profissionais que inserem esse conhecimento na sua prática diária. O paciente, que poderia ser chamado de o grande prejudicado também concorda com essa dicotomia e busca no médico aquele que pode, com um remédio, suavizar sua dor, em vez de pensar nos problemas que de alguma forma induziram-no àquele estado. Medicamento mais reflexão é a mais explosiva combinação contra fracassos terapêuticos. É o contemporâneo com sua urgência intransigente que não permite ao homem saber de si mesmo mais que aquilo que é necessário para produzir, consumir, procriar e então, morrer.


A PeleIlustração: Keith Hering


Nesse primeiro número da revista gostaria de discutir a pele, essa grande superfície de projeção de nossos órgãos internos e do nosso psiquismo. Futuramente, falaremos do trabalho pioneiro de Hans Selye, o médico cientista que considero o pai da psicossomática e que pesquisou na área biológica, bem como Georg Groddeck, também um pioneiro da psicossomática, o qual dirigiu seus esforços mais para a área psicológica.


Antes de falar da pele propriamente poderíamos pensar nas pessoas que vivem isoladas demais e apresentam dificuldades de fazer contatos. Indivíduos que apesar de desejarem, não se entregam. Pessoas que tem atitudes defensivas que as impedem de se aperceberem do seu desejo de serem tocadas e de obter intimidades com àqueles a quem amam. Muitas emoções estão presentes na mente dessas pessoas sem no entanto, conseguirem ultrapassar os limites da pele ( e das defesas). São estas as pessoas que, mais comunmente sofrem das doenças de pele.


Estamos falando de que? Estamos falando de uma evidencia clara no trabalho dos dermatologistas, psiquiatras e psicólogos, principalmente aqueles que lidam com crianças. Sabe-se há muito que as emoções desempenham importante papel no surgimento dos distúrbios de pele. Na criança que tem menos defesas emocionais que os adultos a falta de contato com os pais denuncia-se através do amplo espectro de doenças dermatológicas que elas apresentam. O Dr. René Spitz, num estudo com recém nascidos, acometidos de eczema observou que estes tinham uma necessidade intensa de contato físico. A superfície da pele adoecia como que clamando por estimulação e gratificação. photo by Steve PrezantSpitz notou ao mesmo tempo que as mães daquelas crianças eram mulheres que não gostavam de toca-las ou dispensar-lhes cuidados, privando-as assim do contato que tanto necessitavam. Os problemas emocionais que impedem o indivíduo de romper com sua solidão e buscar o contato físico necessário denunciam-se na pele, através de espinhas, eczemas, dermatites de contato, psoríase etc. A pele é nossa fronteira com o mundo, é ela que delimita o ego e protege os órgãos internos mas é também através dela que fazemos contato com nosso meio ambiente e trocamos afetividade com nossos semelhantes.


É então no anseio pelo outro, pelo companheirismo e amor do outro que os problemas de pele tornam-se mais evidentes. O ser humano por sua própria natureza precisa do outro, aquilo que lhe falta, para ficar inteiro. Para conseguir isso precisa estar “bem dentro de sua própria pele”. Com uma auto estima rebaixada é impossível sentir que o outro nos deseja. O amor do outro só faz sentido quando encontra ressonância auto amorosa em nós. Se não consegue fazer esse contato, surgem os conflitos e muito provavelmente um incremento na diminuição da auto estima. A pele é uma delimitação do Eu que precisa ser superada a fim de que possamos descobrir o outro. É através da pele que se pode entrar em contato , é onde as pessoas nos tocam e nos acariciam.


Essa necessidade do outro gera uma angustia que nos impele a buscar o que nos falta. A presença do outro, complementa e cria condições de expressão que nunca seriam obtidas na solidão. Uma inibição pode transformar-se numa doença de pele que impede a manifestação dessa necessidade. A doença de pele, por sua característica evidente, dificulta os contatos, impede as intimidades. A acne, é um exemplo simples, já que aparece exclusivamente no rosto. As outras partes da pele ficam intactas. A vergonha que se sente do Ego, transfere-se para as erupções (O que se falou sobre a acne, vale, em traços gerais para quase todas as afecções da pele). Pessoas que têm peles muito sensíveis ao sol revelam aí sua dificuldade de contato afetivo. O sol que derrama seu calor sobre o corpo representa, simbolicamente, o calor de outro corpo humano, pelo qual o homem tanto anseia e do qual tem tanto medo.


Se concluímos que as doenças de pele são uma defesa, falamos então do medo de ser ferido, da nossa ferida narcísica. Contudo a tentativa de proteger a vulnerabilidade da alma com o afastamento que as afecções da pele trazem, implica também dizer que há uma prevenção contra o amor. Justamente porque amar, significa abrir-se, deixar-se envolver. Se não se consegue isto, nossa alma fica isolada do contato com a vida pois para viver é necessário estar vulnerável. Dessa forma se as afecções da pele, por um lado, explicitam os nossos conflitos mais gritantes, há, por outro lado uma tentativa do corpo em chamar nossa atenção para uma ação que busque solucionar esse mesmo conflito. Normalmente as doenças de pele implicam em algum dano à essa barreira que protege nosso corpo dos agentes externos como vírus bactérias fungos etc. Dessa forma podem facilitar infecções cutâneas ou mesmo nos órgãos internos. Não seria essa uma forma de buscar a vulnerabilidade e expressar o desejo de ser tocado por alguma coisa? Não é quando ficamos doentes que recebemos o carinho e a atenção daqueles a quem amamos ou mesmo de estranhos?


Considerando o que acabamos de falar, seria interessante que diante de um paciente que apresente afecções de pele, não deixássemos de pesquisar (e observar) sua capacidade de envolvimento afetivo, sua dificuldade de aproximação e a intensidade de suas necessidades no campo emocional. É a área de maior urgência, já que o conflito principal começou a atuar no corpo (soma) em vez de seguir o caminho mais coerente que seria a mente. Eu chamaria essa pesquisa de “serviço de pronto socorro” visto que pode ajudar o paciente a conscientizar-se de suas limitações e a partir daí, ampliar o que é tão pequeno nele. Dessa forma, poderá começar a descobrir suas forças insuspeitas como a paixão, a satisfação e mesmo a raiva e a dor. Assim, tendo entrado no fluxo da vida, a busca por novas descobertas e melhoras, far-se-á automaticamente.


Bibliografia:
“A DOENÇA COMO CAMINHO”
Dethlefsen Thorwald & Dahlke Rudger
Editora Cultrix – SP – 1998

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