Biologia x Psicologia Polêmica Narcisista alimenta a Fogueira das Vaidades no mundo Psi







Biologia x Psicologia
Polêmica Narcisista alimenta a Fogueira
das Vaidades no mundo Psi


por Rafael Tassinari


Sou obrigado a concordar com Glen Gabbard quando ele afirma que “um dos acontecimentos mais lamentáveis na evolução da clínica psi contemporânea é a polarização entre os profissionais psi biologicamente orientados e os profissionais psi dinamicamente orientados”. Aponta ainda, que a raiz desse conflito reside no antigo dualismo corpo-mente.


O raciocínio de Gabbard nos alerta para o fato do quanto o sistema expresso por Descartes ainda continua nos afetando e produzindo categorizações binomiais com pleno vigor. Assim é que o tempo todo estamos incorrendo numa polarização do tipo ou é assim ou é assado. Ou é bom ou é mau. Ou é biológico ou é psicológico. Quando, na verdade não se trata de uma situação de isso ou aquilo, mas sim de um isso e um aquilo.


Quando, de maneira reducionista nos apegamos à categorias binomiais (e as utilizamos de modo excludente) como por exemplo, individual ou social, cognitivo ou psicodinâmico, deixamos de ver o paciente que está junto de nós para darmos passagem à nossa produção narcisista mais banal, mais banalizante e por isso mesmo, muitas vezes mortífera.


Não se trata de desqualificar o mundo das categorias. Elas são cruciais na elaboração de nossas representações. Como nos ensina Francisco Daudt da Veiga, uma alternativa é tolerar a ambivalência e poder desenvolver categorias intermediárias como “mais ou menos”, “ainda não sei” e “talvez”. Essa é uma das possibilidades de evolução do pensamento para o plano do múltiplo.


Segundo Daudt da Vaiga “as categorias intermediárias se caracterizam por serem abertas, observadoras, curiosas, sem o descarte nem a adesão automáticas que os julgamentos sumários produzem. As categorias intermediárias são as categorias do ensaio. Possibilitam o pensamento, a reflexão ,não fecham, podem ser revistas, refeitas, não são absolutas, nem arrogantes. Não damos a elas a importância de dogmas, por isso elas é que nos servem, e não somos nós que temos que servir à elas. As categorias intermediárias nos deixam livres.”


Na cultura contemporânea, a cultura da voracidade e do consumo, as categorias intermediárias se perdem, porque é preciso decidir logo, fechar logo, aderir logo ou se descartar logo, … o que nos aprisiona no “ou isto ou aquilo”. Este é o preço que pagamos. Preço alto, não é?!


O debate dentro do “mundo psi”, a respeito do papel da biologia e da psicodinâmica na clínica, não escapa a essas vicissitudes da cultura. Assim, ainda ouvindo o analista carioca: “As discussões que poderiam chegar a um acordo pela tolerância com a incompletude, só fazem reafirmar as posições iniciais (ou tudo é bom ou tudo é mau). Aderidos ao “ou isso ou aquilo”, os debatedores não discutem com a finalidade de esclarecimento, mas para ganhar. Ganhar é mais importante. Neste caso, os “bons” vencem, mas não convencem (não “vencem” com o). Levam vantagens, mas não contribuem.” Ou seja, são narcisistas no sentido mais estreito.


Gabbard (1998) quando faz a discussão sobre mente e cérebro coloca de lado “a vasta literatura filosófica sobre a questão corpo-mente” e afirma que mesmo que nos limitemos estritamente ao “ponto de vista da ciência rigorosa” , qualquer tentativa de distinção e separação entre as enfermidades psiquiátricas orgânicas e as funcionais resulta artificial e falaciosa.


Cita como apoio às suas palavras, o trabalho de Kandel (1979/1983) pois este demonstrou que “as experiências do meio ambiente alteram a afetividade funcional das conexões sinápticas através da modulação do influxo de cálcio nos terminais pré sinápticos”. Kandel (1979) afirma nada menos que “é somente na medida em que nossas palavras produzem alterações nos cérebros dos outros indivíduos, que a intervenção psicoterapêutica produz alterações nas mentes dos pacientes.” E é a partir dessa perspectiva que é possível unir as abordagens biológicas e psicológicas.


No cérebro, as alterações neuroquímicas e neuroanatômicas podem estar causalmente relacionadas às influências psicossociais do meio ambiente e ao sentido atribuído a essas influências. Assim, as intervenções psicoterapêuticas podem resultar em alterações permanentes do funcionamento cerebral…O cérebro possui uma notável plasticidade estrutural.


Grande parte da polarização entre as perspectivas biológicas e psicodinâmicas advém do nosso olhar supérfluo, banalizante e imediatista que gera angústia e incompetência ao contatarmos as relações tão complexas entre os fatores neurofisiológicos e psicossociais na etiologia e patogenia dos transtornos psíquicos.


As psiquiatras que negligenciam o reino dos significados são estúpidas. E a recíproca é verdadeira, qualquer psicologia que desconsidere a biologia se torna idiota. Qualquer polarização reducionista dessa espécie é severamente cruel e reflete nossa estreiteza de pensamento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Glen O.Gabbard, M.D.
Vice Presidente for Adult Services, The Menninger Clinic
Director, C.F. Menninger Memorial Hospital
Training and Supervising Analyst, Topeka Institute for Psychoanalysis
Clinical Professor of Psychyatry, University of Kansas School of Medicine, Wichita
Livro: Psiquiatria Psicodinâmica
Em sua segunda edição, este livro proporciona ao leitor uma compreensão ampla, abrangente e psicanalíticamente embasada nos transtornos mentais.
Editora Artmed – Porto Alegre, 1998, 2ª edição


Francisco Daudt da Veiga
Nascido no Rio de Janeiro, em 1948, é médico e psicanalista. É autor também de “A Criação segundo Freud: o que queremos para nossos filhos” (1992).
Livro: O Aprendiz do Desejo – A Adolescência pela Vida Afora
Escrito em linguagem coloquial, este livro trata das dificuldades com a vida que começam na adolescência e não terminam nunca: nossa ambição de lidar com o trabalho, com o dinheiro e com os amores de uma maneira que tenha mais a ver com nossos desejos e menos com as obrigações que a cultura nos impõe.
Editora: Companhia das Letras – São Paulo, 1997, 1ª edição


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