Carta ao Sr. Presidente da República



Carta ao Sr. Presidente da República


Carta
ao Sr. Presidente da República*

Rubem
Alves

Senhor
presidente: primeiro peço perdão por não estar familiarizado com as
etiquetas da corte.  Ilustríssimos,
excelentíssimos e magníficos tem, para mim, um cheiro misto de incenso
e humor.  A um moço que
o chamara de “bom“, Jesus disse: “Por que me chamas bom? 
Bom há um só, que é Deus”. 
Pois, entre nós, os homens de poder não se contentam em ser chamados
“bons”. “Muito bom” é pouco.  “Excelente”
não chega.  São “excelentíssimos”. 
Mas a verdade não cavalga reverencias. 
Assim, vou chamá-lo apenas de “senhor”. 
Imagino o seu sofrimento de sociólogo critico em meio a essas
palavras.Adaptação  de  uma caricatura de Paulo Caruso

Segundo,
quero demonstrar minha admiração por sua coragem em ser presidente duas
vezes.  Confesso minha total
incompetência nesse campo.  Várias
vezes amigos tentaram me seduzir a me candidatar a deputado.  Em momentos de insanidade cheguei a brincar com a idéia. 
Mas me curei depois que visitei o Congresso. 
Meu horror foi total.  Um
prédio sem janelas!  Acho
que Niemeyer., amigo do cimento, inimigo das arvores, deve Ter projetado
aquilo de propósito, para enlouquecer os políticos. 
A posição máxima a que eu me candidataria seria a de “bobo da
corte”.  A esse propósito
vale a pena ler o ensaio do filosofo Leszek Kolakowski, “O sacerdote
e o bufão”.

O
senhor, é certo, não se esqueceu 
das lições de Durkheim, sociólogo amaldiçoado pelos marxistas.  Disse ele: “Uma sociedade não é feita meramente com a massa
de indivíduos que a compõe, o espaço que 
ocupam, as coisas que usam, os movimentos que fazem: acima de
tudo está a idéia que ela forma de si mesma”. 
Agostinho já tinha dito o esmo: o que forma um povo é um objeto
comum de amor.  Os socialistas
utópicos e Mannheim deram o nome de utopia a esse objeto social de amor:
uma esperança bonita que une as pessoas e faz com que marchem juntas.

 
Temos um povo?  Eu
penso que a tarefa de um líder político é mais que administrar: é criar
um povo.  Um povo se faz com idéias que dão sentido à vida em comum. 
Um povo se alimenta de utopias. 
“Não só de pão viverá o homem, mas de palavras…” Não temos
um povo porque a nossa gente parou de sonhar. 
E, ao parar de sonhar, não tem razões para pensar. 
Em vez de pensamento, programas do Ratinho, do Silvio Santos,
do Gugu e da Hebe, que têm preferencia 
absoluta em relação às declarações dos políticos, inclusive as
suas.  As pessoas não se
interessam por duas razões: por não entender e por não acreditar no
pouco que entendem.

O
senhor já se imaginou como pedagogo-mor, o mestre que dá sonhos e pensamento
ao povo?  Bachelard dizia
– e a psicanálise confirma – que só se convence “despertando sonhos
fundamentais”.  Sonhos fundamentais
são aqueles que moram na alma das pessoas e que foram enterrados no
esquecimento por sua sucessivas frustração.

 
Um líder é uma pessoa que vê os sonhos das pessoas e os transforma
em palavras e gestos.  Nele
o povo vê os seus sonhos sob a forma de uma pessoa. 
Assim aconteceu com todos os grandes lideres políticos.  Gandhi, com sua marcha do sal e sua mansidão. 
Kenedy, com seus sonhos de um progresso solidário que transformaria
o mundo.  Martin Luther
King: lembra-se do seu discurso “I have a dream”? 
E Hitler (o Diabo também produz lideres), que mobilizou um povo
com três ideais maravilhosas: limpeza, saúde e beleza.

O
pensamento vivo está ligado à ação possível. 
Pensamos para poder agir. 
O que está alem da nossa possibilidade de ação não é pensado. 
E o campo das ações possíveis das pessoas comuns é o 
espaço do seu cotidiano, aquilo que está ao alcance de suas mãos,
na casa, na rua, no bairro, na cidade.

O
senhor, ao se dirigir ao povo, fala sobre coisas grandes, programas
de governo, acordos com o FMI, estabilidade monetária, combate à inflação,
novos empregos, coisas muito boas – mas abstratas. 
Sonhos não se fazem com abstrações. 
Abstrações pertencem ao discurso dos sociólogos, economistas
e administradores – não entram no imaginário das pessoas. 
Seria bom que o senhor convidasse, como assessores, alguns poetas. 
O Manuel de Barros e a Adélia Prado, por exemplo. 
Quando eles falam, todo mundo se comove, porque os poetas têm
o poder de dar vida às abstrações.

As pessoas ouvem o líder quando ele fala sobre coisas que compõem o
seu cotidiano: o medo da violência (é inútil falar sobre a construção
de novas penitenciarias ou a compra de novos carros para a policia)
e aquilo que as comunidades podem criativamente fazer, a insegurança
quanto ao futuro, as crianças abandonadas que enchem as ruas, a saúde,
as filas nos hospitais, a velhice desamparada, a ecologia, a natureza,
a sujeira, o lixo.

 
Há uma poluição estrutural-empresarial, como a que aconteceu
na baía de Guanabara.  Mas
há uma poluição que resulta do fato de as pessoas acharem normal a sujeira. 
Jogar garrafas de plástico nas praias e no mar, jogar latas de
cerveja nas matas são, para elas, gestos inocentes e normais. 
As empresas que usam garrafas plásticas e latinas de alumínio
bem que poderiam fazer algo para educar o povo. 
A mídia, especialmente a televisão, poderia fazer muito mais
para ensinar o povo a sonhar e pensar. 
Escrevi carta ao Sr. Roberto Marinho e ao ministro da Educação
sobre o assunto, que foram publicadas pela Folha. 
Mas eles não deram sinal de vida. 
Espero que o senhor dê.

 
Como administrador, o senhor poderá fazer muitas coisas importantes
– o Plano Real, por exemplo -, umas boas, outras más, 
Não é possível acertar sempre, 
Mas, como mestre e como interprete de sonhos, o senhor poderá
fazer o que é essencial: criar um povo. 
Bonito seria que seu próximo discurso começasse como o de Luther
King; “Eu tenho um sonho…”.

*Texto
publicado em 1ª edição na sessão Tendências e Debates do jornal Folha
de São Paulo , do dia 21/02/2000


Rubem Alves
Educador, escritor e psicanalista.
Professor emérito da Universidade Estadual de Campinas.



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