Caso clínico de um excepcional: autonomia e capacidade

 

Apresentarei
o caso clínico de um excepcional atendido por mim durante o ano
de 2001 na APAE/SP, unidade Dona Paulina de Souza, através do
Projeto Inclusão.
O projeto é uma prestação de serviços que
se situam na interface da psicologia clínica e social.
Os serviços prestados são:

1) Psicoterapia de orientação psicanalítica realizada
na instituição especializada.
2) Grupos de reflexão com as equipes de suporte e técnicas
da instituição.
3) Encontros com os pais ou responsáveis pelo paciente em atendimento
psicoterapêutico.

 

Procurei
o Projeto Inclusão por julgar que aprenderia muito com ele, já
que na época estava no quarto ano de psicologia da PUC-SP, além
de me interessar pela proposta e pelo público alvo. Já
havia estagiado em uma instituição que lidava com crianças
autistas e psicóticas. Entretanto a proposta era completamente
diferente, já que se tratava de um trabalho de A.T. (Acompanhante
Terapêutico) e de A.V.D. (Atividades da Vida Diária). No
Projeto Inclusão eu faria o meu primeiro atendimento individual
psicoterapêutico.
No projeto, a indicação de qual criança deveria
ir à psicoterapia fica sob a responsabilidade da APAE. Foi designado
a mim o paciente R.
R. tem 12 anos, mora com a mãe, auxiliar de enfermagem, o pai,
zelador e o irmão mais velho, de 19 anos. R, segundo a APAE,
tem síndrome de Down leve. A queixa da instituição
é de que R não se relacionava com os outros alunos, não
se deixava tocar e não falava. Antes de atendê-lo, fiz
uma entrevista com a mãe, que se queixou também de que
R não tinha "amiguinhos", porém ela disse que
entendia tudo o que R dizia. Houve, então, uma contradição
entre a queixa da mãe e a da instituição em relação
à fala, mas eu esperei atender R para perceber o porquê
dessa controvérsia.
Logo no primeiro atendimento pude notar uma certa passividade de R.
Ele esperava que eu fizesse tudo para ele; costumava apontar quando
queria qualquer coisa. Essa atitude foi observada também fora
da sala, em relação a profissionais da instituição.
Tudo lhe era dado sem que ele precisasse fazer o mínimo esforço.
As pessoas adivinhavam o que ele queria. Acreditei que isso fosse decorrência
da sua educação, pois a mãe, na entrevista inicial,
demonstrou sinais de superproteção.
Penso que, com uma criança dita "normal" isso também
ocorreria. Foi por acreditar nisso e acreditar que a deficiência
de R não era a causa de sua passividade, que passei a trabalhar
sua autonomia, fazendo-o sentir que tinha capacidade. Sempre valorizava
qualquer coisa que ele fizesse sozinho e, se não conseguisse,
esperava que o pedido de ajuda partisse dele. A escolha tinha que vir
dele. Um exemplo disso é que, quando R tentava abrir a tampa
da caixa lúdica, eu sempre o deixava tentar sozinho, mas quando
ele estava tendo dificuldade, solicitava auxílio dizendo "juda".
Como já disse anteriormente, só foi possível trabalhar
sua autonomia graças à minha crença nela, o que
proporcionou a R poder acreditar em si.
Ouvi vários comentários de colegas meus sobre a dificuldade
de trabalhar com excepcionais já que, segundo eles, essas crianças
têm poucos ganhos.
Entretanto, a respeito disso, penso sempre: poucos ganhos para quem?
Para nós, pessoas "normais".
Percebi, durante o atendimento, o quanto é significativo para
um excepcional, qualquer ganho que tenham. Cada conquista, por menor
que possa parecer é para eles, como foi para R, um grande passo
na direção de ser reconhecido como uma pessoa capaz, com
suas limitações, como qualquer outra.
Portanto, além de acreditarmos em sua potencialidade, é
importante valorizarmos seus ganhos, sejam eles quais forem. Percebi
isso com R, após uma sessão em que ele brincando com a
família de bonecos de pano, pegou o bebê e disse: "é
o bobo". Notei que ele, o caçula (bebê) da família
estava se vendo como "bobo". Esse fato foi muito forte para
ele, tanto que nessa sessão ele saiu da sala logo em seguida,
mesmo sem ter terminado o tempo. Na sessão seguinte, disse a
ele que havia observado, quando ele pegou o bebê, que ele se achava
bobo, que devia haver pessoas que provavelmente devia haver pessoas
que deveriam dizer que ele era bobo, mas que eu não achava, pois
uma pessoa boba não organizaria a caixa como ele fazia, nem pintaria
como ele, nem saberia o nome dos bichos como ele sabia (na caixa lúdica
há um saco com vários animais de plástico). Após
ouvir o que eu falei, R abraçou-me fortemente e começou
a brincar com os brinquedos da caixa.
R mostrou-me o quanto é importante o olhar que o terapeuta tem
do seu paciente e qual rumo que o processo terapêutico pode tomar
conforme esse olhar.
R foi ganhando autonomia conforme eu também fui me "soltando".
Era sempre um processo mútuo de transferência.
Encarei o Projeto Inclusão e meus atendimentos como um aprendizado,
disposto a aprender com R, mas também a contribuir com ganhos
que ele pudesse ter. Saí da posição de superior,
de detentor da sabedoria, do "normal" daquele espaço,
fui sem preconceitos.
Utilizei muito a afetividade com R, talvez por não dominar tanto
as técnicas de psicoterapia. Essa afetividade que depositei intensamente,
possibilitou que meu trabalho fosse feito através da transferência.
Isso foi percebido na volta das férias de julho (a instituição
fecha nesse período), quando R não quis entrar na sala.
Fiquei apreensivo, achei que era uma coisa minha, que era minha culpa.
Quando parei para pensar e discuti com minha supervisora, compreendi
que era parte do processo, que R precisava daquele tempo. Além
disso, R estava começando a fazer amizades e se enturmar e provavelmente
tinha receio de ir para a psicoterapia e perder seus amigos.
Quando ele voltou à sala, após algumas sessões,
pude então tranqüiliza-lo, dizendo lhe que o compreendia,
mas que seus amigos não deixariam de sê-lo por ele ir para
a psicoterapia.
Em relação a fala, percebi porque houve uma contradição
entre a queixa da mãe e a da instituição. R sabe
falar, mas tem uma dicção ruim. A mãe se acostumou
com isso, assim como eu fui me acostumando ao seu modo de falar. R atualmente
fala mais, porém com a mesma dificuldade do início. Essa
é uma característica da Síndrome de Down – a língua
tem uma posição mais frontal – e há necessidade
de tratamento fonoaudiológico.
Devido à sua dificuldade de fala, foi necessário que eu
encontrasse outras formas de entender R e de me comunicar com ele, como
o olhar, o toque. No processo psicoterapêutico é essencial
que nós, terapeutas, tentemos entender o paciente através
de outros modos que não o habitual – a fala.
Hoje R mostra mais independência e iniciativa. Sabe escolher o
instrumento que quer na aula de música, interage com as outras
crianças e com os profissionais da instituição,
permite o toque, cumprimenta falando e estendendo a mão aos homens
e dando beijos nas mulheres, além de conseguir distinguir seus
sentimentos.
Na entrevista devolutiva com a mãe orientei-a para que não
desse tudo logo a ele, que o incentivasse a falar, a mostrar claramente
o que queria. Foi recomendado uma consulta a um fonoaudiólogo.
A mãe, nessa entrevista, contou que R disse em casa que não
é mais um bebê, que é um rapaz.
Continuo o projeto em 2002, aprendendo muito ainda com R., que continua
tendo ganhos significativos, mesmo parecendo pequenos ou poucos.

Ricardo
Santoro – Estudante do quinto ano da Faculdade de Psicologia da PUC-SP
e Psicoterapeuta do "Projeto Inclusão" desde 2001.
E-mail: doricardosantoro@bol.com.br


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