Gestos Maternais Atendendo gestantes adolescentes em situação de abrigo.



Gestos Maternais


Pablo PicassoGestos
Maternais

Atendendo gestantes adolescentes
em situação de abrigo.

Cena
1:

Ana,
Cláudia, Jussara, Maria e Evanilde estão participando de uma sessão
de grupo para adolescentes grávidas. Diante da proposta de que poderiam
fazer qualquer pergunta e expressar seus sentimentos e dúvidas, faz-se
silêncio absoluto e nenhuma delas se manifesta durante toda a sessão.

O
Grupo de Gestantes, moradoras do Abrigo, precisava de um método facilitador
de sua expressão, criamos então um jogo projetivo de palavras com o
qual pudessem jogar e assim se expressar. Falar e ser ouvida tornou-se
importante para cada uma delas!

Cena
2:

Janete
está deitada em sua cama , sem forças para falar ou sequer levantar
os braços para receber sua terapeuta que veio visitá-la. Ela está grávida
de 5 meses, mora em uma casa abrigo e está com hiperemese desde que
soube que seu bebê era uma menina. "Tenho medo que ela cresça e
fique grávida aos 13 anos, como eu"

A
terapeuta de Janete realiza as sessões em sua casa, leva-lhe frutas
e procura falar com ela ao telefone todos os dias em que não há sessão.
Janete já saiu da cama, está se alimentando e não apresenta mais o quadro
de hiperemese. Ela precisava de alguém que se preocupasse realmente
com ela, que saísse do lugar de especialista, pois em sua pequena trajetória
de vida já havia sido abandonada aos três anos pela mãe biológica e
aos onze pela adotiva. Esta é a melhor terapia para que Janete possa
passar por esta experiência tão difícil e continuar vivendo, sonhando
e adolescendo!

Janete,
Ana, Cláudia, Jussara, Maria e Evanilde são adolescentes grávidas moradoras
de casas abrigo, foram abandonadas muito cedo por seus pais e vivem
a difícil história da intersecção entre a maternidade , a adolescência
e o abandono. Os nomes são fictícios, as histórias não. Adolescer quer
dizer transformar, florecer, amadurecer, e conjugar este verbo juntamente
com o gestar, faz desta parceria uma conjugação de difícil declinação.
Gestar adolescendo ou adolescer gestando, é o que podemos chamar de
uma situação com dose dupla de crise, que se torna intensificada pela
situação de abandono.

Todos
os anos um milhão de adolescentes dão à luz no Brasil, o que significa
que 20% dos bebês que nascem são filhos de adolescentes, e uma boa parte
delas, com história de abandono. E foi à partir do contato com algumas
destas meninas, que pude redimensionar o atendimento à gestantes, para
melhor atender suas necessidades, algumas semelhantes a de todas as
mulheres grávidas, outras muito diferentes, o que exigia novos dispositivos.
Ao invés de abordarmos a gestante adolescente a partir de modelos de
atendimento e técnicas pré estabelecidas, o método e as técnicas são
"criados", recriados ou transformados a partir das impressões
com as quais nos deparamos.

CorrègeO
Grupo de Gestantes tem como objetivo criar um espaço acolhedor para
a expressão das ansiedades, medos e trocas entre as participantes, assim
como propor trabalhos corporais que respondam às necessidades que o
grupo expõe, preparar para o parto e para o exercício da maternidade.
O Grupo de gestantes adolescentes do Abrigo assume características especiais
na medida em que elas estão vivenciando a não aceitação do estado grávido
e a impossibilidade de chorar, pedir e expressar, que lhes foi imposta
desde cedo. Novos dispositivos são criados em função da escuta, que
se dá através das entrevistas individuais, das falas "ou do silêncio"que
o grupo assume no princípio das sessões.

O
Grupo de Gestantes adolescentes, em situação de abrigo, foi criado para
responder às necessidades específicas destas meninas, para que elas
pudessem trocar experiências comuns, maternar umas às outras e para
que pudessemos materná-las com dispositivos especiais, possibilitando
a "fala" para quem nunca pôde falar!

A
gestação coloca a mulher em um estado regredido, num estado de dupla
identificação, da grávida com o feto, e com sua própria mãe. Todas as
gestantes revivem o vínculo primitivo com sua mãe, têm que lidar com
a imagem materna internalizada, sentimentos infantis, representações
culturais acerca do papel de mãe e de mulher.

Atendimentos
individuais, oferecidos paralelamente ao Grupo, são essenciais para
que cada menina possa ter seu "terapeuta-mãe" disponível,
possibilitando a reedição do vínculo primitivo, onde a maternagem permeia
todos os gestos.

O
terapeuta se transforma, ao longo do processo, em depositário da transferência
materna em recortes positivos e negativos. A intenção não é fomentar
o vínculo mãe-bebê, mas fornecer o setting necessário para que aconteça
o que é possível, no sentido do bem estar e da vida. Pode ser que aquela
menina de 13 anos, não tenha possibilidades de aceitar a gravidez e
formar um vínculo com seu filho; mas que ela possa superar a ameaça
de morte que está revivendo, ao "dialogar"com a mãe má internalizada.

Em
sua maioria, as adolescentes, com história de abandono, desenvolvem
uma desconfiança absoluta diante de qualquer pessoa que expresse o desejo
de ajudar, pois a capacidade de criar vínculos foi prejudicada e se
encontram diante de um conflito enlouquecedor, onde as forças biológicas
a colocam frente à relação mais íntima que existe: um dentro do outro.
A possibilidade de estabelecer um vínculo de confiança com o terapeuta
é o que pode permitir que ela reedite sua história com seu filho e para
isto o terapeuta deve fazer o que é necessário no momento, redimensionando
o setting terapeutico.

Para
cada história da qual fiz parte, como terapeuta ou supervisora, manter
o olhar curioso e a postura de estranhamento, tornou-se imprescindível
para que pudesse perceber a necessidade destas adolescentes e prescindir
dos modelos, adaptá-los ou transformá-los. 

por
Eliana L. Pommé

psicoterapeuta, coordenadora do Serviço de
Atendimento a Gestantes e Puérperas da
Clínica do Instituto Sedes Sapientiae, docente
convidada para os cursos de Graduação e
Especialização da Escola de Enfermagem -USP

Consultório
particular – fone: (011) 572 69 50
E-mail: pomme.f.silva@uol.com.br


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