Irmã Laura Fraga de Almeida Sampaio do Inst. Sedes Sapientiae



ENTREVISTA – Irmã Laura Fraga de Almeida Sampaio

Irmã LauraIrmã
Laura Fraga de Almeida Sampaio

Doutora em Filosofia pela Universidade de Louvain-Bélgica
Diretora do Instituto Sedes Sapientiae
Coordenadora do Centro de Filosofia do Instituto Sedes Sapientiae de
São Paulo
e-mail: cefis@sedes.com.br

RedePsi:
Durante quase vinte anos Madre Cristina esteve à frente do Instituto
Sedes Sapientiae. A atuação dela junto ao Sedes foi de tal importância
a ponto de a psicanalista Maria Auxiliadora de Almeida Arantes escrever:
“Há pessoas que se confundem com a causa que abraçam; há pessoas
que se confundem com a instituição a que pertencem. Madre Cristina criou
o Instituto Sedes Sapientiae em 1977 e desde então marca indelével distingue
esta Instituição: o respeito à diferença eo compromisso com a justiça.”
(Histórias e memórias 1998 in Instituto sedes Sapientiae 1977-1997).Hoje
é a Sra. que se encontra à frente deste Instituto. Como foi sua chegada
aqui?

Irmã Laura: Estou no Sedes desde a fundação. Comecei a trabalhar na
Puc há mais ou menos 15 anos na então Faculdade Sedes Sapientiae. Isso
ocorreu logo depois de ter feito meu doutorado em Louvain na Bélgica,
em 1959. Entrei na PUC como professora do Dpto de Filosofia.

Prossegui
na PUC e então houve a integração da Faculdade de Filosofia Sedes Sapientiae
com a Faculdade de Filosofia São Bento, que resultou na Faculdade de
Comunicação e Filosofia da PUC (1972/1973).

Em
1977, com a abertura do Instituto Sedes Sapientiae pela Madre Cristina,
fui chamada para participar do Centro de Filosofia onde assumi a Coordenação.
O Instituto Sedes foi concebido tendo como base a Clínica, o Centro
de Educação Popular (CEPIS), o Centro de Filosofia, e o Departamento
de Cursos de Psicologia. Todos foram pensados no sentido de ter cursos
como especialização, aperfeiçoamento e extensão , o que é diferente
de um curso de graduação. Então estou praticamente desde o início deste
Centro de Filosofia.

Assumi
a coordenação do Centro de Filosofia com 3 ex-alunos da graduação da
Puc que estavam iniciando o pós graduação (Osvaldo Giacóia, Regina e
Urias Arantes). Desde essa época eu já participava da diretoria do Instituto
como uma das representantes da Congregação ( a diretoria do Sedes é
composta por 3 pessoas indicadas pela congregação e mais três pessoas
eleitas pelo Instituto). O Instituto não tinha na época a complexidade
atual e isto permitia que meu maior compromisso fosse para com o Centro
de Filosofia.

RedePsi:
Quer dizer que a senhora já trabalhava muito mas não aparecia tanto?
(Risos)

Irmã Laura: Até hoje no Centro de Filosofia promovemos cursos de extensão
e alguns eventos. O Centro de Filosofia criou um projeto que não tinha
pretensão de formar filósofos nem de ser exclusivamente direcionado
aos filósofos. No Sedes todos os cursos são cursos livres independentes
do MEC. Em 1977 estávamos em plena ditadura e repressão e então
uma opção da Madre e da direção foi fazer os cursos livres, com os currículos
que quiséssemos. O Centro de Filosofia havia decidido que não seríamos
mais um espaço de formação formal se já existia a Puc e a USP. Pelo
menos eram os dois mais reconhecidos.

Nós
desejávamos justamente ser um centro que abrisse o trabalho com a reflexão
filosófica para universitários, pessoas dos movimentos populares da
época e como uma ferramenta a mais na formação dos profissionais de
outras áreas, implicados no trabalho de transformação da realidade.
Então foi interessante que nós iniciassemos um trabalho mais próximo
do acadêmico, com os colegas que mencionei acima mas que já era abertos
para universitários em geral.

Mais
tarde a nossa ligação com o Centro de Educação Popular (Cepis) tornou-se
maior e além disso as pessoas também mudaram. Os três que eu mencionei
saíram do Brasil para fazer formação no exterior. O Giacóia foi para
a Alemanha e os outros para a França. Então surgiram a Yara e o Márcio
e através desta ligação com o Cepis nós começamos a receber outro tipo
de público para os cursos. Recordo-me que os participantes dos movimentos
sociais da época queriam um aprofundamento do tipo: “o que é Socialismo”,
o que é Marxismo”, etc.

Rede
Psi: Era então um trabalho de formação de lideranças dos movimentos
sociais ? Os cursos passaram a dar subsídios de reflexão filosófica
para essas lideranças?

Irmã Laura: De reflexão para os movimentos. Chegamos até a fazer assessoria
fora, por ex., existia um movimento de jovens na zona leste de São Paulo
que administravam uma casa para adolescentes da periferia. Eles estavam
preocupados em participar dos movimentos e ao mesmo tempo ter um lugar
onde aqueles jovens pudessem ter alguns subsídio para a sua reflexão
e para os trabalhos nos grupos. Então nós saíamos aos domingos e íamos
visitá-los em suas casa e eu me recordo que eles colocaram a questão
de subsídios para a ética dos movimentos. Saíamos cedo (não tinha nem
metrô naquela época), trabalhávamos com eles toda a manhã e depois ficávamos
conhecendo os trabalhos que eles faziam.

Enquanto
isso, aqui no Sedes, nós continuávamos a fazer cursos. Um dos cursos
de que me lembro, foi “Do Socialismo Utópico à Utopia Socialista
(risos) e então chamamos o Paul Singer. Esses eventos eram abertos a
todas as pessoas.. Passamos a ter a demanda de uma população diferente
que já não eram alunos ou ex-alunos de filosofia ou da universidade.
Chamávamos a Marilena Chauí que ainda não era a estrela que é agora,
a qual fazia uns cursos aqui sobre democracia.


naquela época tínhamos uma certa concepção filosófica, já pensávamos
o que fazer com a filosofia, vamos dizer, já pensávamos para que fazer
filosofia. Nós achamos que a filosofia vai brotando deste chão
da vida, das questões contemporâneas, das questões de hoje, e que ela
deve de alguma forma fornecer subsídios, ser uma ferramenta que vá também
depois possibilitar uma repercussão desta reflexão filosófica, nos trabalhos
ou no exercício da profissão, seja aonde for. É diferente de alguns
filósofos ou professores de filosofia que acham que a filosofia não
tem nada a ver com esse dia-a-dia do trabalho, da profissão.

RedePsi:
Irmã Laura, então talvez por aí a gente possa fazer um gancho com a
questão da Psicologia e com a Clínica do Sedes. A psicologia no Sedes
sempre foi um pilastra como a Filosofia e a Educação. Neste sentido,
nos últimos 3 anos foi se construindo toda uma proposta de mudança da
Psicologia, principalmente na clínica. Também a psicologia aqui sempre
teve uma pluralidade muito grande. São 22 cursos de formação. O Sedes
tem também essa característica plural, muito importante porque dá um
tom democrático para a entidade que tem que conviver e se haver o tempo
todo com essas diferenças. De alguma maneira eu tendo a ver com esse
movimento da clínica, até como um movimento de ponta de lança no conjunto
das psicologias aqui no Sedes, talvez até acho que a clínica traz consigo
essa questão do chão que a senhora falou, do dia a dia. É preciso dar
uma resposta à demanda que chega ao Sedes…

Irmã Laura: Na realidade este processo pelo qual a clínica está passando
foi desencadeado pelas circunstâncias inerentes à própria entidade.
De uns anos para cá observamos no direcionamento da clínica
a necessidade de um maior empenho no Social.
Nossa idéia é
transformar a Clínica Escola (eu não gosto de usar muito essa expressão,
pode ser vista como uma conotação pejorativa que eu não gostaria que
tivesse), numa Clínica Social, uma clínica que objetive a prestação
de serviços para a sociedade. Na realidade sempre houve essa preocupação.
A Madre Cristina sempre dizia que o psicólogo tem que estar voltado
para o Social. Então surge essa constatação e desencadeia a necessidade
de repensar a clínica.

Houve
várias reuniões entre a diretoria e os representantes da clínica. Nessas
o objetivo sempre foi incentivar essas modificações. A idéia básica
é repensar a clínica como sendo uma prestação de serviço, algo mais
social do que apenas um atendimento individual àqueles que tenham algum
tipo de sofrimento ou necessitem algum tipo de terapia.

RedePsi:
De um lugar meramente assistencialista ou para servir simplesmente à
formação dos alunos em outro lugar de intervenção social mais ampla?

Irmã Laura: Exatamente. Então de onde veio o estreitamento dos laços
entre o Centro de Filosofia e a Clínica? Foi interessante porque nós
do CF, através da Utopia Socialista, fomos procurando e encontramos
Foucault. O nosso encontro com Foucault foi pela política, pela micropolítica
e não pela psicologi. Fomos pelo Foucault da “Microfísica do Poder”
e aí estudamos e passamos pela passagem mais difícil de estudar “As
palavras e as Coisas” que é uma obra realmente mais à questão epistemológica.
Depois de algum tempo já tínhamos vários cursos sobre Foucault que inclusive
era procurado por pessoas interessadas em repensar o trabalho da psicologia.

Além
dos cursos abertos sobre Foucault, um grupo de profissionais do Manicômio
Judiciário solicitou para repensar o que vinha da antipsiquiatria. Fizemos
um grupo fechado só para eles. Guattari e Baságlia tinham estado no
Sedes. Então tivemos este trabalho. Na gestão do PT havia uma coletiva
de psicólogos que trabalhava também já voltados para os Hospitais dia,
os trabalhos de rua, educadores de rua, etc…

RedePsi:A
Psicologia e a Clínica eram pensadas também como políticas públicas?

Irmã Laura: Certo. Daí surgiu a necessidade de repensar a clínica
mais como um clínica crítica e de prestação de serviços no social.

Nesse período a Clínica solicitou ao Depto. de Filosofia – que até aquele
momento era procurado justamente por gente de fora – (risos), para que
se fizesse uma palestra sobre Foucault, mais exatamente sobre “A
história da loucura”. Lembro-me que do primeiro encontro partimos
para o segundo e iniciou-se aí uma vinculação de trabalho, algo mais
próximo entre a Psicologia e a Filosofia aqui no Sedes. Depois de começarmos
o trabalho com Foucault surgiu um desafio: Foucault leva a Deleuze.
Deleuze completa e acrescenta Foulcault. Eu, particularmente, evitei
esse encontro por algum tempo porque Deleuze é difícil.


questão de 3 ou 4 anos houve o colóquio Deleuze no MIS. Participei desse
evento com a Cleuza Pavan que é a coordenadora da clinica do Sedes.
Na época ela estava desenvolvendo o atual Projeto da Clínica. Criamos
o grupo de estudos de Deleuze e a partir daí começou esse trabalho de
troca mais estreito entre o Centro de Filosofia e a Clinica do Sedes.
Não acredito que já seja um trabalho abrangente para todas as psicologias
e psicanálises do Sedes. Muitos professores continuam aprofundando suas
linhas mais específicas mas para nós essa troca e esse contato tem sido
muito rico e compensador. Tem sido um feliz encontro. Um bom encontro:
a clínica através de sua reformulação, nós através de Foucault. Parece
ser muito fecundo.

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