Mandando o Lima



Mandando o Lima

Mandando
o Lima

por
Luiz Celso Toledo de Castro

Conheci
a expressão acima através de um amigo de São Paulo. Ela surgiu, segundo
ele, de uma desculpa utilizada pelos músicos para justificar faltas
em shows ou ensaios. A história é a seguinte: o músico não aparece para
tocar por um motivo qualquer (gripe, sono, dor de barriga, arrumou um
trabalho que pagava melhor, namorada nova, jogo do Brasil, etc) e, quando
perguntam o porquê da falta, ele responde:


Faltei, é verdade. Mas mandei o Lima para tocar no meu lugar, cobrindo
a minha falta, ele não apareceu?
– Não.
– O Lima me paga!

Ou
seja, o músico inventa que mandou alguém, chamado Lima, para substituí-lo
e que o sujeito não foi. A responsabilidade pela falta passa a ser do
Lima, que, além de não ir, não avisou. Cabe dizer que o Lima não existe,
ao menos até onde sei, mas a história costuma ser aceita assim mesmo,
talvez por força do hábito, por tratar-se de uma desculpa que, de tão
usada, se tornou clássica no meio. O Lima já está se tornando parte
do senso comum, sendo usado, para fins parecidos com os dos músicos,
por outras pessoas:


Alô, doutor Roberto?
– Sou eu mesmo. O que deseja?
– Eu sou a secretária do seu dentista, o senhor tinha uma consulta marcada
para ontem à tarde…
– O Lima não foi?
– Que Lima?
– Eu não pude ir, tive uma crise alérgica, e mandei o Lima no meu lugar.
O irresponsável não foi? Que vexame! Vou ligar para ele agora mesmo.

O
leitor já atentou para as inúmeras possibilidades que essa desculpa
oferece ao seu usuário? Imaginemos por um momento que o Lima não é uma
ficção. Ele seria um abnegado profissional, capaz de enfrentar as missões
mais difíceis em seu lugar, e ainda levar a culpa por eventuais fracassos.

Quando
criança, você poderia ter mandado o Lima comer aquelas horríveis sopas
de espinafre que sua mãe insistia em preparar para o seu jantar, liberando-se
da árdua obrigação. O Lima poderia ter encarado as brigas com coleguinhas
mais fortes na saída do colégio, poupando-lhe dos arranhões, roxos e
das reprimendas da diretoria da escola. Você poderia ter enviado o Lima
para encontrar-se, antes de sua chegada, com aqueles parentes que insistiam
em apertar as suas bochechas como se elas fossem as buzinas do Chacrinha.
Ele teria sido alvo dos apertões.

O
nosso amigo poderia ter ficado em casa decorando a tabuada, enquanto
você andava de bicicleta despreocupadamente pela vizinhança. Já na adolescência
teria designado o Lima para fazer as provas de Química e Física no seu
lugar, talvez até as de Matemática. Já imaginou que maravilha? O Lima
poderia ter pedido aquela linda menininha loira em namoro, coisa que
você não teve coragem de fazer, declamando poemas ou fazendo uma serenata.
Se não desse certo, você não teria feito o papel ridículo e sairia incólume
do fora. O mesmo Lima se encarregaria de terminar o namoro quando você
não estivesse mais afim- "Sabe como é, ele esteve pensando muito
e acha que não seria justo continuar, ele gosta muito de você mas tem
umas dúvidas sobre o relacionamento"- O Lima teria tido as espinhas.

Mandaríamos
o Lima ao prostíbulo, em seu lugar, para perder a virgindade, que sexo
é coisa séria e não admite amadorismos. Assim, você teria mais tempo
para se preparar com calma para o Dia D, perdendo a virgindade com uma
namorada, sem pressões desnecessárias e sem o risco de falhar logo na
estréia.

No
final da adolescência você não precisaria ter feito o serviço militar
obrigatório e, no vestibular, só precisaria ter escolhido a carreira.
O Lima teria batido continência, acordado às cinco da manhã o ano todo
e ainda encontraria tempo para estudar, conseguindo vagas nas melhores
Universidades do país.

Depois
dos quarenta você iria precisar muito do Lima, só que agora para missões
mais difíceis e arriscadas, realizáveis apenas por um homem acima da
média, um fora de série como ele. Por exemplo: ele levaria os seus filhos
ao Playcenter em seu lugar, poupando-o do trem fantasma, da montanha
russa e das filas, sem falar no engarrafamento da saída e no teleférico.
Mas isso não seria nada se comparado ao dia em que ele levaria as crianças
ao show da Xuxa, daquele dia em diante você teria certeza de que se
tratava de um santo.

É
claro que nessa época o Lima já estaria muito mais ocupado do que antes.
Teria se tornado famoso e estaria trabalhando, no mundo todo, para clientes
ricos e importantes. As grandes editoras lutariam entre si para decidir
quem lançaria a tão aguardada biografia do Lima. Circulariam boatos
de que teria sido ele, enviado por Michael Jackson, que teria engravidado
a mulher do cantor. Seria o maior responsável pela conquista brasileira
da Copa de 94. Teria distraído o Baggio e o Baresi naqueles pênaltis,
fazendo-os errar. Conta a lenda que ele estava fantasiado de mulata
atrás do gol e que fazia sinais sexualmente convidativos para os italianos,
que não resistiram ao charme e aos seios postiços do Lima e cobraram
do jeito que se viu, nos presenteando com o Tetra. Dizem que só ele
tem a solução na ponta da língua para o tão falado Bug do milênio, que
irá reduzir nossos computadores a pó de traque. Nosso amigo não nega
nem confirma os boatos, mas continua trabalhando nas sombras e diz que
tudo será revelado em detalhes depois de sua morte, quando forem abertos
os seus arquivos.

A
fama e o dinheiro não subirão à cabeça do Lima, que ainda trabalhará
para você em nome da velha amizade. Será ele, e não você, que irá para
a mesa de operações fazer a vasectomia. Ele fará os abdominais e correrá
no parque, quando o seu médico lhe impuser o sacrifício. Deixará de
fumar e beber em seu lugar, escreverá sua tese de mestrado, visitará
parentes chatos no Natal, irá às reuniões de sexta feira à tarde com
o seu chefe, cobrará dos seus devedores, lavará as panelas depois dos
almoços de família e lerá todos os livros que você não teve tempo de
ler.

Até
que chegará um dia em que você pedirá a ele o impossível, dirá que é
a derradeira missão desse homem que lhe acompanhou por toda a vida e
lhe ajudou como ninguém mais.


Nunca pensei que você pudesse me pedir isso.
– Prometo que será a última vez, pagarei dobrado. Não me deixe na mão,
Lima.
– Você sabe que não trabalho mais por dinheiro, não se trata disso.
– Me desculpe. Estou muito nervoso.
– Um homem precisa conhecer os seus limites, saber dizer não. Talvez
a minha hora tenha chegado. Estou ficando velho para esse trabalho.
– Eu só conto com você, meu amigo. Por favor!

Os
olhos do Lima se umedecerão, coisa que você nunca imaginou que fosse
presenciar. Ele lhe dará um abraço apertado, como um soldado que parte
para a guerra, dirá adeus e sorrirá. Aceitará o seu pedido, mas vocês
nunca mais se encontrarão. Então irá embora, deixando você emocionado
e agradecido. Sua silhueta se perderá no final da rua, confundindo-se
com as sombras que as árvores projetam no chão quando finda a tarde.
Ele estará a caminho do urologista, para fazer o exame de próstata em
seu lugar. Grande Lima.

Luiz
Celso Toledo de Castro

é psicólogo e mestrando em Psicologia Social pela
USP
Também colabora com as Revistas Expressão e
Plante Ribeirão, ambas em Ribeirão Preto.
lcctoledo@uol.com.br

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