Crianças desmitificam os pais unidos para sempre.

O namorado da minha mãe. A avó do meu irmão. O filho do marido da minha mãe. O pai da minha irmã. A mulher do meu pai. A mulher do pai do meu irmão. Personagens como esses estão cada vez mais presentes na narrativa cotidiana das crianças. E, embora às vezes até soe complicado para quem as ouve, elas falam sobre eles com uma naturalidade evidente.
O namorado da minha mãe. A avó do meu irmão. O filho do marido da minha mãe. O pai da minha irmã. A mulher do meu pai. A mulher do pai do meu irmão. Personagens como esses estão cada vez mais presentes na narrativa cotidiana das crianças. E, embora às vezes até soe complicado para quem as ouve, elas falam sobre eles com uma naturalidade evidente.
Em um universo no qual o formato tradicional de família –aquela formada por marido, mulher e filhos– coexiste com uma variedade cada vez mais complexa de arranjos não-nucleares, especialistas começam a se debruçar sobre como as crianças estão encarando, hoje, a família e o amor.

O assunto é o ponto de partida do recém-lançado “Amor, Casamento, Família, Divórcio… e Depois, Segundo as Crianças”, de Rosane Mantilla de Souza e Vera Regina Ramires.

“Não é um livro de orientação para pais separados. É muito mais uma publicação voltada para aqueles profissionais que precisam acompanhar essas crianças que são filhas de famílias redesenhadas”, afirma Souza. “É uma tentativa de introduzir a ótica infantil e permitir pensar como elas na hora de tomar decisões e também de ajudar professores, juízes, advogados, psicólogos, assistentes sociais e jornalistas a perceberem como a criança está assimilando isso tudo”, completa.

O livro reúne constatações relevantes e que até então tinham recebido pouca atenção. A primeira delas é justamente o fato de que as crianças passaram a estender sua percepção de “familiar” a vários outros atores que não são o pai, a mãe e os irmãos.

São capazes, por exemplo, de reconhecer como cuidador um adulto com quem elas não têm nenhum laço biológico, como o novo companheiro do pai ou da mãe ou um amigo que veio morar na mesma casa, após a separação dos pais.

“Como se orientam pelos vínculos objetivos, as crianças e os adolescentes são quem melhor desenvolvem a compreensão dessa aparente ‘bagunça'”, explica Souza.

Em uma tese de mestrado defendida pelo departamento de psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Souza acompanhou 80 crianças –todas de escolas particulares da capital paulista, com idades entre cinco e 11 anos–, observando quais eram as pessoas que elas identificavam como parte da família.

“Depois de um divórcio, uma família tem de recriar a si mesma, tem de gerir-se, e a criança é receptiva a uma variedade enorme de arranjos. É ela que acaba dizendo que quer ir brincar com o filho do ex-namorado da mãe, que até ontem era quase irmão na configuração familiar, mesmo depois de a mãe ter terminado o namoro”, observa.

Na opinião de Souza, as famílias não-nucleares sempre foram avaliadas como “instáveis”, mas não se leva em consideração a inconstância que existe dentro de muitos casamentos.

“Uma família divorciada é instável? Sim, mas a vida é instável. Essa estabilidade muitas vezes não existe no casamento –e ninguém cobra. No Brasil, a idéia predominante ainda é a de que, depois de uma separação, ‘a pobrezinha da criança vai ficar louquinha’. Não é assim.”

Ela explica que as separações mais danosas às crianças são aquelas em que os pais não se libertam emocionalmente um do outro e seguem se atacando por longos períodos.

“Internamente, esses pais não conseguem perceber que não fazem mais parte da vida do outro. E seguem se atacando, falando mal na frente da criança, pedindo mil revisões do valor da pensão. Na verdade, estão ligados e prisioneiros da raiva, do dissabor e do ressentimento. E a raiva é um sentimento que aprisiona muito mais do que o amor. Nesses casos, é fundamental procurar ajuda profissional”, comenta.

“Até que a morte os separe.” A conclusão do casamento católico não faz mais tanto sentido para as crianças. Em uma tese de mestrado defendida na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (RS), a psicóloga Vera Ramires acompanhou 85 crianças com idades entre cinco e 15 anos, pesquisando o que é o amor.

Segundo o estudo, as crianças não acreditam mais no amor “para sempre” e consideram o fim das relações conjugais algo previsível. “Para elas, os adultos casam porque se amam e se separam porque o amor acaba. O amor conjugal aparece como algo reversível e até mesmo frágil, se comparado com o amor entre pais e filhos e entre amigos. Dos últimos, esperam que resista a obstáculos, como conflitos e distância. Do conjugal, não”, conclui.

Fonte: [url=http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u4112.shtml]www.folha.uol.com.br[/url]

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