Herança cultural influencia comportamento coorporativo

Executivos de Portugal, Brasil, Macau, Espanha, Argentina e México responderam a um questionário em que avaliavam estratégias de ascensão empresarial que consideram aceitáveis. Os resultados mostraram valores influenciados pela colonização.
Executivos de Portugal, Brasil, Macau, Espanha, Argentina e México responderam a um questionário em que avaliavam estratégias de ascensão empresarial que consideram aceitáveis. Os resultados mostraram valores influenciados pela colonização.
A herança cultural deixada pelos países colonizadores ainda tem presença marcante no ambiente empresarial. Executivos de Portugal, Brasil e Macau apresentam estratégias semelhantes de ascensão na carreira. O mesmo acontece com profissionais de Espanha, México e Argentina. Essa constatação é feita numa pesquisa em que foram identificados os valores profissionais de 1.350 executivos desses países.

O relatório Iberoamerican Academy 2005 – Valores Ancestrais foi realizado pelo grupo The University Fellows International Research Consortium (UFRIC) – composto por pesquisadores e professores de quase 40 países que estudam fatores relacionados a carreiras e comportamento organizacional.

De acordo com a representante brasileira, a professora Tania Casado, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, os executivos de uma mesma empresa que atuam em diferentes países podem assumir diferentes comportamentos na luta pela ascensão profissional. E isso não se relaciona primordialmente com o nível de desenvolvimento econômico ou a região em que está localizada a nação. “Essas estratégias estão ligadas aos valores sociais. Por isso foram formuladas hipóteses sobre a convergência de atitudes mais praticadas em países de mesma colonização.”

Os executivos responderam, entre 2002 e 2005, a um questionário padrão em que precisavam indicar os níveis de aceitabilidade, por parte de seus colegas de trabalho, de comportamentos que se enquadravam em três tipos: auto-indulgentes, organizacionalmente benéficos e destrutivos.

Foi em relação às estratégias destrutivas que os executivos analisados mais destoaram. Este tipo de comportamento é egoísta e pode beirar a ilegalidade: falsificar informações no currículo profissional, disseminar informações falsas, ameaçar e chantagear pessoas, roubar documentos ou idéias, usar equipamentos de escuta, e agredir alguém física ou moralmente. “Notou-se que o grupo formado por Portugal e os países por ele colonizados tinha menor aceitabilidade a esse tipo de prática que Espanha e suas ex-colônias”, relata Tania.

Segundo a professora, essa diferença tem raízes históricas. Embora ambas as colonizações tenham sido de exploração, a Espanha realizou suas conquistas de maneira mais assertiva e agressiva, com maior participação de militares. “Até hoje os heróis nacionais no México e na Argentina são militares ligados à imagem da guerra”, conta Tania.

Portugal também fez uma colonização nociva, mas usou meios mais indiretos, como o comércio e outras estratégias em que a flexibilidade avançou mais do que o confronto direto. “Tanto em Macau como no Brasil, os portugueses se estabeleceram com a ajuda do clero. Padres jesuítas tiveram papel relevante na colonização, disseminando a religião.”

O trabalho surgiu de um banco de dados criado pelo The University Fellows International Research Consortium, em que foram analisados os valores de executivos de 40 países, dando origem a várias pesquisas com diferentes enfoques. Com os dados mais abrangentes foi possível constatar que países de cultura anglo-germânica e europeus de cultura latina são os que mais praticam os comportamentos benéficos: focados na entrega à organização.Os exemplos são trabalho árduo, participação em programas de voluntariado empresarial, desenvolvimento de boas relações de trabalho ou disponibilidade para realizar horas extras.

“Os comportamentos auto-indulgentes são estratégias favoráveis à própria pessoa, que podem ou não prejudicar a organização. Não são nocivos como os destrutivos”, diz a pesquisadora. Exemplos desse tipo de atitude são reforçar as idéias de pessoas poderosas, atribuir culpa aos demais por erros próprios, levar o crédito por trabalhos alheios e controlar informações. O estudo mostra que essas estratégias têm maior incidência em países latinos do que naqueles de cultura anglo-germânica. “O jeitinho brasileiro é uma das formas da expressão dessa categoria”, comenta.

Para a professora, as informações do Iberoamerican Academy 2005 – Valores Ancestrais são muito importantes numa época em que as organizações globais estão instaladas em todos os lugares do mundo e “é necessário conhecer os traços particulares e a herança cultural de cada país para gerenciar as peculiaridades e os contrastes entre valores”.

Fonte: [url=http://www.usp.br/agen/repgs/2006/pags/101.htm]www.usp.br[/url]

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