Trabalho de até duas horas não afeta desempenho escolar

Alunos que trabalham mais de 7 horas por dia e em dupla jornada apresentam grande perda de aprendizado. Análise teve como base o Sistema de Avaliação da Educação Brasileira, com dados de 6720 escolas e cerca de 300 mil estudantes.
Alunos que trabalham mais de 7 horas por dia e em dupla jornada apresentam grande perda de aprendizado. Análise teve como base o Sistema de Avaliação da Educação Brasileira, com dados de 6720 escolas e cerca de 300 mil estudantes.
Crianças e adolescentes que trabalham até duas horas por dia não apresentam redução significativa em seu desempenho escolar. Entretanto, cada hora diária a mais de trabalho implica em uma diminuição no rendimento. Com base nos dados do Sistema de Avaliação da Educação Brasileira (SAEB), do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), o economista Márcio Eduardo Garcia Bezerra procurou avaliar como o trabalho infantil afeta a atuação destes alunos, comparando-a entre os que trabalham e os que não trabalham.

As informações do SAEB referem-se aos estudantes das 4ª e 8ª séries do ensino fundamental, e do 3º ano do ensino médio, nas disciplinas de português e matemática. “Ao todo, o sistema avaliou 6.720 escolas e cerca de 300 mil alunos”, conta Bezerra.

Nas três séries avaliadas, os estudantes que trabalham dentro do domicílio sofrem muito menos do que aqueles que trabalham fora. “Em casa, as atividades são mais leves e mais fiscalizadas pelos pais. No ambiente externo, elas podem ser mais insalubres”, explica o economista. Aqueles que trabalham nos dois ambientes têm um prejuízo ainda maior, devido à dupla jornada, com maior esforço, e menor tempo para se dedicarem aos estudos.

Os efeitos negativos do trabalho no desempenho escolar, tanto em matemática como em português, foram maiores para os meninos do que para as meninas em todas as séries, exceto em matemática na 3ª série do ensino médio. “Os efeitos do trabalho domiciliar são mais sentidos pelas meninas numa faixa etária mais elevada, na qual é habitual cuidar dos irmãos mais novos e dos afazeres domésticos” explica Bezerra.

As atividades que duram até duas horas têm um efeito pequeno, algumas vezes até nulo, no desempenho dos alunos, dependendo da disciplina e da série. Para o economista, “isso pode ocorrer porque o tempo destinado ao trabalho não compete com o do estudo. Ou então, a atividade tem o objetivo de disciplinar a criança, como por exemplo, dedicar algumas horas a arrumar e pôr seus pertences em ordem. Cada hora a mais de trabalho, por dia, implica em uma diminuição do desempenho escolar dos estudantes”.

Os mais prejudicados foram aqueles que trabalhavam entre sete horas ou mais por dia, com uma diminuição média de 18 pontos ao trabalhar nos dois ambientes. Os que exercem atividades somente em casa, têm perda de seis a nove pontos; e os que trabalham fora do domicílio, 12 pontos. “As perdas são parecidas na 4ª e 8ª séries do ensino fundamental, mas superiores na 3ª série do ensino médio, que sofreu mais os efeitos negativos do aumento do número de horas sobre o desempenho escolar, dada uma porcentagem maior de alunos trabalhando mais horas”.

O atraso escolar (causado pela repetição de séries, por exemplo), freqüente em boa parte dos alunos avaliados, tem um efeito igual e às vezes até maior que o trabalho infantil no desempenho. Elas tendem a desistir de estudar, e a ingressarem mais cedo no mercado de trabalho, pois encontram perspectivas melhores. “Muitas vezes a família quer mantê-las na escola, mas é necessário que essa troca do trabalho pelo estude compense, com o oferecimento de uma boa educação e estrutura”, explica Bezerra.

Diante disso, o economista explica que “não basta apenas uma política que incentive o acesso de crianças e adolescentes trabalhadoras aos bancos escolares. É necessária uma política que também facilite esse ingresso com métodos e alternativas de aprendizagem direcionadas a este grupo de estudantes, e que permita sua retirada do trabalho sem comprometimento de sua sobrevivência”.

O economista apresentou seu estudo de mestrado no Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, em conjunto com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA), sob a orientação da professora Ana Lúcia Kassouf.

Fonte: [url=http://www.usp.br/agen/repgs/2006/pags/103.htm]http://www.usp.br[/url]

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