Emoções exageradas durante jogos podem afetar a saúde

São noventa minutos de jogo torcendo com o corpo inteiro. A cada movimento dos jogadores da seleção brasileira na Copa do Mundo, milhões de corações têm seus batimentos acelerados. Um drible bem dado, e estômagos recebem golpes de “frio”. Um passe bem-feito, e respirações se tornam curtas e ofegantes. Um chute na trave, e veias, artérias, músculos e tendões se contraem. E, se possível, que chegue a grande descarga de endorfina, que traz euforia e prazer com o grito que ecoa nos tímpanos: gol.
São noventa minutos de jogo torcendo com o corpo inteiro. A cada movimento dos jogadores da seleção brasileira na Copa do Mundo, milhões de corações têm seus batimentos acelerados. Um drible bem dado, e estômagos recebem golpes de “frio”. Um passe bem-feito, e respirações se tornam curtas e ofegantes. Um chute na trave, e veias, artérias, músculos e tendões se contraem. E, se possível, que chegue a grande descarga de endorfina, que traz euforia e prazer com o grito que ecoa nos tímpanos: gol.
Foi assim até no Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, na terça-feira passada, durante a estréia brasileira na Alemanha. Em frente ao telão, pacientes dividiam os assentos com visitantes e médicos. “Eu me sinto bem”, dizia o motorista Nassir Antonio Luiz, 53, que sofreu uma isquemia há uma semana. “Não há nenhum problema em pular ou gritar nos gols”, completava Josué Hoth, 15, transplantado do coração desde os dois anos.

Carlos Alberto Pastore, cardiologista do Incor, diz que os jogos não são contra-indicados para esses pacientes. “O perigo está em negligenciar os cuidados, não tomar os remédios e cometer exageros como o abuso do álcool”, afirma.

Do lado de cá da TV, enquanto os olhos se mantêm fixos na bola, o corpo sofre diversas alterações. No comando delas está o sistema límbico, parte do cérebro considerada o centro das emoções. É ele que dispara sensações como ansiedade, medo, desespero, ira ou felicidade ao ver a rede balançar –de um lado ou de outro.

Minuto a minuto durante a partida, a mente do espectador é continuamente estressada. Hiperativado pelo estresse, o sistema nervoso simpático desencadeia uma série de reações fisiológicas. A pressão arterial sobe, o coração passa a consumir mais oxigênio, e há um aumento da instabilidade elétrica cardíaca. O resultado são arritmias que, nas pessoas mais suscetíveis, podem até levar a infarto do miocárdio.

Não há exagero na fala daqueles que dizem “se transformar” enquanto assistem a um jogo da seleção. O hormônio-chave de toda essa “metamorfose” é a adrenalina, liberada pela glândula supra-renal (ou adrenal), localizada no pólo superior do rim. “A adrenalina não é uma substância prejudicial, ela é fisiologicamente necessária. Porém, a exposição intensa pode ser danosa”, comenta Almiro Cardoso Ramos, gastroenterologista do Hospital 9 de Julho, em São Paulo.

Some-se às descargas adrenérgicas o fato de o nervo vago, que parte do sistema nervoso central, espalhar ramificações pelo coração, esôfago, estômago e intestino. Diante de uma emoção forte, sente-se um reflexo vagal, ou seja, uma reação involuntária ao estímulo experimentado, que pode se manifestar de modo mais acentuado em qualquer um desses órgãos.

Decisões por pênalti representam o sofrimento máximo. Em um estudo conduzido em 1998, pesquisadores das universidades de Birmingham e Bristol (Inglaterra) apontaram um aumento de 25% na incidência de infartos entre 30 de junho e 2 de julho daquele ano. No dia 30, a Argentina eliminou a Inglaterra da Copa fazendo 4 x 3 na disputa de pênaltis.

No Brasil, não há estudos sobre problemas de saúde decorrentes das disputas em campo. Mas não faltam histórias de quem sente no corpo o impacto da torcida –de dores no estômago a isquemias.

O publicitário Dude Campolini, 25, ainda não se esqueceu da sensação de assistir Brasil e Holanda (5 x 3, nos pênaltis) na semifinal de Copa de 1998. “Quando o jogo foi prorrogado, fiquei pálido, comecei a suar e tive taquicardia. Um tio, que é médico, proibiu-me de ver o resto da partida na televisão, tive que ouvir pelo rádio”, conta.

O mesmo Brasil x Holanda que Dude teve de ouvir pelo rádio, Sueli Trolesi, 48, acompanhou nervosa diante da TV, em São Paulo. Quando Taffarel agarrou o pênalti que definiu a partida, ela saiu pela rua para comemorar com os vizinhos. Ganhou um machucado digno de jogador de futebol: rompeu o tendão-de-aquiles e levou seis meses para se recuperar.

Moisés Cohen, chefe do centro de traumatologia do esporte da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica que a tensão provoca contração muscular. “Se o torcedor passa da contração a movimentos bruscos, como nas comemorações, podem ocorrer lesões, distensões e contraturas.”

Para amenizar o risco, o especialista recomenda não ficar sentado durante toda a partida e fazer alongamentos para relaxar a musculatura.

Fonte: [url=http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u4141.shtml]www.folha.com.br[/url]

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