Lacan e a sexualidade humana III – o feminino

O conceito permite alcançar ilusoriamente o objeto, pois mata o objeto real, e despresentifica o objeto da cena do visível. Os objetos podem ser e são mortos pelo conceito, daí que não vemos mais os objetos, mas apenas os símbolos que são utilizados para se relacionar com eles, as palavras. Não vemos mais os objetos elefantes, mas nos relacionamos apenas com o significante elefante que é utilizado para atingi-los, geralmente com um rifle.

A mulher não pode ser morta a não ser literalmente, mas é exatamente ai que ela não é morta. Ela não pode ser morta porque não há um conceito para circunscrever o que é a mulher. Daí que a mulher está condenada a existir fora do conceito para permitir ser tocada pelo homem, o que raramente acontece. A mulher não exerce o simbólico, não tem seu modo de existência determinado por uma instância prévia de inscrição e regulação a priori.

A mulher não podendo ser aprisionada dentro do conceito, dentro de algum significante, pois não há significante para circunscrever o feminino, funciona como causa do aparecimento da linguagem e das ações do homem e do campo masculino. Não existe linguagem que possa capturar a mulher, o que a mulher é, por que ela existe fora do conceito, fora do significante. As mulheres da cena do visível, cada uma delas, funcionam como causa da linguagem que o homem utiliza.

A mulher não pode ser pensada no conceito, pois não existe um conceito a partir do qual ela pudesse ser acessada ao pensamento. No campo do feminino, o Ser é ele mesmo, sem ter a necessidade de ser pensado para sê-lo. Heidegger diz: a linguagem é a casa do Ser, nesta habitação mora o homem. Pensadores e poetas são os guardas desta habitação. Lacan diria: a mulher é a causa do homem, só que ela como não existe em conceito, não pode ser tematizada em pensamento, mas deve ser tocada na ação. O ser da mulher deve ser tomado como corpo e não o é por uma incapacidade constitucional do masculino de estar aprisionado dentro dos muros da linguagem, pelo necessário atamento a priori ao registro do simbólico.

Na mulher, o corpo é o elemento que funciona como forma de acesso a saber-se de si, quando executado e tocado pelo homem. Quando a psicanálise de Lacan diz: A mulher não existe, isto quer dizer que não existe o significante da identidade feminina. A mulher deve ser tomada uma a uma, pois não há significante prévio que a funde como mulher, como acontece no habitante do campo masculino. Neste sentido, Don Juan é um sonho feminino, por ser um homem a quem não faltaria nada e que as tomaria uma a uma e cada uma de uma vez. (continua…)

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