As novas regras do jogo familiar

Davi Wood*
http://janeladeskinner.blogspot.com

O que se chama cotidianamente de família já foi um jogo de peças distintas, onde cada uma tinha suas funções, valores e movimentos bem definidos. Atualmente as regras são outras, mas os objetivos, (ainda) os mesmos. Este texto visa apresentar de forma idiossincrática as novas regras do jogo familiar, bem como o que os humanos podem ganhar e perder com elas.

Em “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque de Holanda, podemos nos recordar dos tempos pré-feministas, em que as mulheres viviam exclusivamente para seus maridos. Tempo em que as mulheres eram apenas a terra passiva a espera de uma semente masculina. Hoje, certamente nem as atenienses vivem assim.

Mas por que as coisas mudaram? Alguns afirmam que tal mudança deve ser creditada ao mercado, ou seja, que as necessidades de produção e consumo de bens e serviços, obrigaram as mulheres a ampliarem suas ‘prendas domésticas’ ingressando no mercado de trabalho, ocasionando assim a famigerada dupla jornada. Afirmo ser o ingresso das mulheres no mercado de trabalho uma ampliação de suas ‘prendas’, pelo fato do mesmo ainda sofrer preconceitos, como quando há uma remuneração desigual pelo mesmo trabalho entre homens e mulheres. Isto mostra que uma mulher em uma linha de produção de conhecimento, ainda é, em parte, um tabu. O reitor de Harvard que o diga…

Assim, mesmo ainda rodeado de preconceito, o trabalho feminino alterou a função econômica da família primária. Outra condição que explica as mudanças sofridas pela família nuclear, estereotipada no desenho animado Os Simpsons, está inegavelmente no avanço tecnológico como a invenção da pílula, a qual dissociou as funções sexual e reprodutiva da família. Com ela tornou-se possível, para homens e mulheres, se relacionarem sexualmente, sem que isso implicasse na formação de uma família (filhos). Entretanto, essa separação entre sexo e reprodução, ocasionada pela tecnologia, sempre existiu em casais homossexuais, os quais passaram a adotar crianças, dando origem a um novo formato de família.

Como se vê, os fatores envolvidos na transformação da família são vários, e ainda estão em andamento. Mesmo assim, fica claro que se a família se alterar, em suas respectivas funções e valores sociais, sempre estaremos lidando com duas ou mais pessoas, e com as relações de aprendizagem estabelecidas entre elas. E aqui cabe a afirmativa de que a instituição família como nós a conhecemos está desaparecendo. Isso equivale a dizer que seu valor de sobrevivência para o Homem diminuiu, e que agora cabe ao próprio Homem criar as condições necessárias para a seleção de uma organização social substitutiva, e por que não, melhor. A canção “Pais e Filhos”, de Renato Russo, expõem bem a dinâmica da família tradicional, assim como propõe uma solução para os seus problemas, no refrão.

Concluindo, perante a dissolução iminente da família tradicional, o Homem deveria ampliar, por meio de uma tecnologia comportamental adequada, o que até então foi chamado de ‘amor parental’, para todos os homens. Pode soar utópico, e ainda é, já que poucos deram início à tarefa, mas como disse Skinner, até lá o sonho ainda pode ser sonhado.

* Ex- Monitor de Análise do Comportamento e mantenedor de uma página sobre o mesmo assunto.

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