A Finitude e o Desejo da Sedução Milagrosa, Será possível?

Em uma propaganda de uma rádio local era divulgado de forma sedutora e alarmante um objetivo propagado e baseado no ideal da imagem do corpo. Divulgava a rádio em seu horário de propaganda "Você usa óculos? Experimente nossa cirurgia a laser, mude sua imagem, levante sua auto-estima com nossa cirurgia rápida e indolor".

A proposta que é apresentada de forma sedutora e mágica não é um fato distante da realidade cotidiana do sujeito da modernidade. O sujeito moderno vive uma vasta oferta de intervenções e fórmulas mágicas que parecem terem sido concebidas a partir de uma concepção de um personagem mítico.

A questão imposta pela sedução da imagem do corpo que de forma pretensiosa seduz o sujeito a partir de propagandas milagrosas, não trata-se, do cuidado com a saúde baseado no ideal da vida saudável, de fato, o que se vende é; Cuide do seu corpo, cuide da sua imagem, o que seria de você caso se transforme em um anomalia que desvia dos padrões da imagem perfeita? Não importa a dor, não importa se o resultado pós cirúrgico for insatisfatório, o que esta em conta não é o amanhã, mas, o hoje, uma vez que esse hoje, esse presente é possivelmente a fonte de uma "desonra" ao ideal do corpo perfeito.

Palavras como angústia, perda e irreversibilidade não fazem parte do vocabulário do sujeito seduzido pela mágica proposta do prazer a partir da imagem do corpo. Aliás, de fato, existe um prazer baseado na imagem do corpo, mas, o mesmo, não limita-se apenas na imagem do corpo, uma vez que, esse busca realizar-se em qualquer fonte que sirva de elemento sedutor social. De uma certa maneira, as propostas sedutoras são vastas; cirurgias plásticas, cirurgias a laser, receitas farmacológicas milagrosas, além de uma vasta possibilidade de exercícios físicos oferecidos pelas academias onde algumas funcionam 24 horas.

Há algum tempo atrás todos nos assistimos alarmados os números crescentes de casos de cirurgias plásticas que o resultado foi essencialmente negativo. Tornando-se comuns manchetes como "Entrou em coma logo a pós a cirurgia" a proposta é sedutora, o ideal propagado e iludido por essas técnicas é; evite a dor, cirurgias rápidas e eficazes. A proposta sedutora ataca nos maiores medos do sujeito moderno, solidão, tempo, perda e desprazer, mas, então o que fazer? No filme do diretor François Truffaut "Firenheit 451" de 1966 o personagem Montag vive um dilema paradoxal, na verdade, o bombeiro Montag vive a angústia da descoberta do não viver de acordo com sua finitude, um certo dia Montag é questionado pela professora que o acompanhava em seu percurso de volta para casa "E você Montag, você é feliz?" sem resposta para tal discurso Montag não permitia-se pensar além das fronteiras do moralismo imposto pelo sistema do qual o mesmo fazia parte, não existia ética, apenas, moralismo puro e radical. O sistema imposto pela sociedade de "Firenheit" até então é inquestionável e perfeito diante das ações e concepções de Montag, a partir do ocorrido com sua esposa, o mesmo, percebe o falso ideal baseado em um possível "bem" existente em sua sociedade.

Imediatamente ao chegar em casa Montag encontra Linda sua esposa em um estado preocupante, o mesmo, telefona para um serviço típico de saúde e de forma desesperada, angustiada pergunta que procedimento devia tomar em relação a Linda, respondi esse alguém a Montag; "Pílula vermelha em caso X, Pílula Azul em casa Y". Moral da história, Montag desiste do atendimento via telefone, percebe-se fragmentado diante de suas finitudes e desejos. Optando em abrir mão da sociedade de "Firenheit" e buscando viver diante de suas "verdadeiras" identificações, onde essas permitiam a Montag a aquisição e legitimação de uma nova identidade, diante de um mundo que condena o prazer a partir da finitude de cada sujeito, sua saída foi torna-se um homem livro. Uma vez que Montag se identificava infinitamente mais com o livro por ele adotado, do que com o ideal moralista da sociedade que antes fazia parte.

Finalmente será que vivemos realmente de acordo com aquilo que desejamos? Existe essa possibilidade para expor nossa finitude diante da sociedade moderna? E qual seria o resultado de uma sociedade que vive o ideal utópico do corpo e da imagem perfeita? Talvez o titulo do livro do Psicanalista Jorge Forbes sirva para ilustrar nosso questionamento "Você Quer O Que Deseja?" (Forbes,Jorge 2003). Entre desejos, finitudes e seduções milagrosas, a única certeza que permanece é da incerteza que a vida continua mesmo fechada diante da sedução milagrosa.

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