Simbologias do mundo da bola

Se a Organização das Nações Unidas (ONU) rege, ou pelo menos tenta, a relação entre os Estados-Nação do mundo, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) – que inclusive tem mais membros – talvez tenha até mais domínio sobre as federações nacionais.
Se a Organização das Nações Unidas (ONU) rege, ou pelo menos tenta, a relação entre os Estados-Nação do mundo, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) – que inclusive tem mais membros – talvez tenha até mais domínio sobre as federações nacionais.
Se um país tem suas fronteiras delimitadas, pelo menos em tese, e uma capital definida, o estádio de futebol é uma área, no imaginário do torcedor, que lhe pertence. Se entre os povos a exacerbação do nacionalismo é algo presente, no mundo da bola o amor pelo clube gera o mesmo processo.

“Não tenho dúvidas de que o clubismo é o principal pilar do futebol no Brasil. Claro que existe um contexto histórico e cultural que também ajuda a explicar a adesão do brasileiro ao esporte trazido pelos ingleses, mas a relação de pertencimento que existe entre torcedor e clube é mais forte do que tudo isso”, disse Arlei Sander Damo, antropólogo social e professor da Universidade de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul.

Segundo Damo, que desde o mestrado se dedica ao tema, a paixão clubística, que normalmente é transmitida pelos parentes consangüíneos do sexo masculino, gera uma comunhão de sentimento muito grande. “É por isso que a maior parte das pessoas vai para o estádio torcer primeiro e não para simplesmente assistir ao jogo”, disse.

Além do paralelismo entre Estado-Nação e clube-torcida, e dos simbolismos tradicionais que relacionam futebol e guerra, os torcedores também reagem às estratégias dos jogos, à estética e assim por diante. “Mas não é isso que causa o engajamento em mais da metade dos casos”, disse Damo.

Segundo o pesquisador, graduado em educação física, outras teorias normalmente utilizadas para explicar a penetração do futebol na sociedade nacional acabam não se sustentando a um olhar mais profundo. É o caso, por exemplo, daqueles que optam por explicar o sucesso do esporte por causa da simplicidade das regras.

“Se fosse assim, por que o futebol não teve o mesmo desempenho em países como os Estados Unidos e a Austrália? A peteca, também jogada pelos ingleses, não se espetacularizou como o futebol, apesar de também ter regras bastante simples”, disse.

Outra explicação descartada pelo pesquisador é a das teses conspiratórias. “Será que algum arquiteto, de forma maquiavélica, programou de alguma forma o futebol para chamar a atenção do povo e tirar a atenção das coisas mais importantes?”, perguntou.

Responder sim a essa pergunta é um erro, na visão do pesquisador. A origem dessa relação estaria na luta sindical, quando os patrões criavam subterfúgios para os trabalhadores não atenderem ao chamado dos sindicatos, que queriam organizar as classes operárias para que elas pudessem reivindicar com mais eficiência os direitos trabalhistas.

“Na Copa do Mundo, a exacerbação do clubismo é muito maior. Tudo é transferido para a seleção. Mulheres e crianças também passam a se interessar pelo tema. O time da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), portanto, passa a representar toda uma nação. O espetáculo gerado pela mídia, que não está na base da explicação do sucesso do futebol, acaba inflando essas relações também”, disse Damo.

Fonte: [url=http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?id=5849]www.agencia.fapesp.br[/url]

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