Classe social influencia visão de estudantes sobre democracia

Alunos de escolas particulares e públicas têm visões diferentes sobre sociedade democrática.

Enquanto os estudantes de escolas públicas enfatizam os direitos de participação e expressão, os de escolas particulares tendem a associar democracia a valores como igualdade e liberdade. Para pesquisadora, a classe social interfere nessas visões.
Alunos de escolas particulares e públicas têm visões diferentes sobre sociedade democrática.

Enquanto os estudantes de escolas públicas enfatizam os direitos de participação e expressão, os de escolas particulares tendem a associar democracia a valores como igualdade e liberdade. Para pesquisadora, a classe social interfere nessas visões.
Alunos de escolas particulares e públicas enxergam de forma diferente a vivência numa sociedade democrática. Para os primeiros, ela está mais associada a valores, como a igualdade e a liberdade que aparecem, por exemplo, na possibilidade de fazer escolhas. Já os estudantes de escolas públicas acreditam que a democracia se expressa nos direitos de participação – principalmente o voto – e de expressão.

“A classe social interfere na maneira como esses jovens vêem a democracia”, afirma a pedagoga e socióloga Ana Maria Klein, autora da pesquisa realizada na Faculdade de Educação (FE) da USP. Foi aplicado um questionário para 80 alunos do terceiro ano de ensino médio de duas escolas públicas e duas particulares da cidade de São Paulo. O objetivo era descobrir como eles enxergam a democracia na sociedade, na escola e nas relações interpessoais.

“A democracia ainda é muito recente no Brasil, e as representações que fazemos dela dependem da nossa vivência numa sociedade democrática”, avalia a pesquisadora. De fato, os alunos de escolas particulares, mais ricos, vivenciam em seu meio a possibilidade de escolha e têm a real experiência de igualdade de oportunidades. “Já a maior parte daqueles que estão na escola pública têm sua possibilidade de escolha restrita. Para esses, a vivência de direitos democráticos parece estar mais associada ao voto.”

Um levantamento dos termos que aparecem com maior ou menor freqüência nas respostas traz um dado curioso: os alunos de escolas públicas mencionam muito mais vezes a palavra “povo”, colocando-se como parte dele. “O termo foi citado 20 vezes nas respostas dos estudantes de escola pública e apenas duas nas particulares, onde são mais constantes expressões como ‘pessoa’ e ‘outro’. Tal dado pode nos revelar que entre os alunos de escolas particulares parece haver maior identificação com a ideologia liberal”, analisa Ana Maria.

As respostas que Ana Maria encontrou para a idéia que os estudantes tinham da democracia na escola foram semelhantes. Para a maior parte, a escola é democrática quando possibilita que os estudantes se expressem e participem, e é antidemocrática quando não os ouve. “Em uma das escolas públicas os alunos reclamaram que o diretor não queria ouvir a proposta deles para a festa de formatura. Nas particulares, há reclamações de que os cursos extracurriculares são muito caros e que a direção não dá ouvidos aos estudantes”, exemplifica a pedagoga.

Nenhum dos alunos, entretanto, mencionou aspectos relacionados a currículo (conteúdo de disciplinas) e acesso. É como se a realidade da escola se encerrasse nela mesma: “eles não fazem a conexão entre escola e sociedade, não se perguntam por que devem aprender certos conteúdos e também acreditam que uma escola particular pode ser democrática mesmo sendo restrita a uma pequena camada da sociedade”.

Além disso, ela notou que, nos dois casos, prevalece a passividade. “Os alunos adotam uma postura mais passiva em relação a sua participação social como cidadãos. Geralmente eles se referem mais a direitos, e pouco ao que poderiam fazer para alterar as situações que criticam”, diz Ana Maria, que conclui: “vale refletir sobre que cidadãos estamos formando e que cidadãos queremos formar de fato”.

Fonte: [url=http://www.usp.br/agen/repgs/2006/pags/140.htm]www.usp.br[/url]

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