A mulher estereotipada e solapada pela Cultura Falocrata

De acordo com o Aurélio (1975), o vocábulo estereótipo significa o clichê, a forma compacta obtida pelo processo estereotípico, ou seja, processo pelo qual se duplica uma composição tipográfica (p. 580). Portanto, o berço desta palavra encontra-se numa atividade de imprensa, servindo à reprodução de textos ou de edições a serem publicadas.
Em dado momento, este vocábulo passou a servir de metáfora aplicada ao comportamento humano como uma atribuição a determinados indivíduos dentro da população em geral. De acordo com Misse (1979), o qual se utilizou do Petit Larousse para defini-Ia, metáfora significa "procedimento pelo qual se transporta a significação própria de uma palavra a uma outra significação que só lhe convém em virtude de uma comparação subentendida" (p. 65). Segundo o mesmo autor, agora se reportando a Lacan e a Barthes, a metáfora pode ser reconhecida, respectivamente, como "a implantação, numa cadeia significante, de um outro significante pelo qual aquele que esse suplanta cai na posição de significado e, como significante latente, perpetua ali o intervalo onde uma outra cadeia significante pode ser enxertada", e como "metalinguagem, uma segunda língua na qual se fala da primeira" (p. 66).

Com essas premissas, podemos melhor compreender o sentido, o significado da atribuição "passivo" ou da "passividade". Trata-se de um estereótipo, ou seja, uma metalinguagem que contém a idéia de reprodução transportada, metaforicamente, ao comportamento de indivíduos, de grupos ou de classes sociais. Assim refletido, o estereótipo é e pode ser criado por qualquer cultura, atribuindo comportamentos que devem ser assumidos por esses determinados indivíduos, grupos ou classes sociais, sendo algo que não é deles por natureza, mas, sim, por imposição cultural.

Ao que indicam os estudos históricos, antropológicos e sociológicos, esta imposição é muito forte e significativa, capaz de criar "tipos humanos" (lembrar da origem tipográfica) através dos séculos. Como exemplo, cito Gregersen (1983): "… transferência de estereótipos de uma cultura para outra com relação a empregos. No mundo de língua inglesa, cabeleireiros e dançarinos de balé são geralmente vistos como homossexuais. Na Rússia, apesar dos dançarinos de balé poderem ser suspeitos, os cabeleireiros não o são: pelo contrário, têm reputação de mulherengos. Na Dinamarca, os cabeleireiros são vistos como homossexuais, mas não os dançarinos de balé".

Estes achados mostram que tais estereótipos variam mesmo dentro da mesma cultura ­para não falar transculturalmente. É provável que uma tradição de estigmatizar uma profissão pode dissuadir heterossexuais que nela estejam interessados. Daí a tradição tende a ser autoperpetuante (p. 284).

Desenvolvimento
Recorrendo novamente ao Aurélio (1975), encontro que por passivo se entende aquele "que sofre a ação ou impressão; (…) que não atua; inerte; indiferente; apático; (…) criança passiva, resignada; (…) conjunto de obrigações que uma pessoa natural ou jurídica deve satisfazer", e por passividade (ib.), "… qualidade de passivo" (p. 1043). Pensando em termos de sexualidade, o passivo sexual seria aquele indivíduo que se comporta como não atuante na relação, é um receptáculo, seu corpo e espírito "aprisionados" dentro de um comportamento que lhe restringe ou limita a contornos específicos ditados pelo que dele espera a Cultura ou Sociedade numa determinada época.

Goffman (1982), ao estudar a questão da identidade, ampliou a situação do estereótipo a uma condição de estigma na qual indivíduos, por possuírem tais denominações atribuídas pela cultura/sociedade, passam a ter uma valorização social menor, interferindo, poderosamente, em sua auto-imagem e conseqüente auto-estima. Segundo suas palavras, "em termos sociológicos, a questão central referente a esses grupos é o seu lugar na estrutura social; as contingências que essas pessoas encontram na interação face-a-face é só uma parte do problema e algo que não pode, em si mesmo, ser completamente compreendido sem uma referência à história, ao desenvolvimento político e às estratégias correntes do grupo" (p. 137).

Acatando o pensamento deste autor – indo ao encontro da história do Homem através dos séculos, principalmente do Homem ocidental, de orientação judaico-cristã – vamos ver que existiu uma postura estereotípica e metafórica desde os primórdios de nossa civilização. A leitura da Bíblia Sagrada (1956) permite identificar claramente como seus escritores retrataram a mulher e o homem homossexual comparando-os por serem possuidores da mesma condição estereotipada e metafórica entendida como negativa: a condição da passividade sexual.

O estudo acurado do episódio envolvendo Sodoma e Gomorra, na ótica de Crespo de Souza (1989), evidencia o extremo desprezo com que eram tratadas as mulheres; de acordo com este autor, "… as mulheres não importavam, não valiam nada, somente as ações dos homens tinham importância!" (p. 322). Seguindo em seqüência na leitura do "livro sagrado", pode-se constatar a ausência de referências ao homossexualismo feminino. Interessantes observações são encontradas na leitura dos profetas Isaías, Ezequiel e Jeremias os quais, em seus textos, condenam a sodomia (bareback) qualificando-a como "injustiça social" (Isaías, p. 891-4), como "maus tratos aos pobres" (Ezequiel, p. 1048) e como "imoralidade geral" (Jeremias, p. 982).

Pode-se inferir, através das palavras de condenação dos profetas, que a prática homossexual ocorria entre a população, mas sendo praticada e permitida (nova inferência) se houvesse disparidade de classe social, os de nível social mais baixo sendo utilizados como objetos passivos pelos mais aquinhoados socialmente (na Bíblia, são inúmeras as referências à presença de escravos, havendo episódios dos quais participam, o mais das vezes, tendo comportamentos que não eram admitidos aos demais não-escravos ou formadores das elites da época…). Esta alusão ao desnível entre as classes e à permissividade sexual aceita se exercida dentro desse contexto Foucault (1980) ressalta que a sexualidade sempre esteve muito associada com dominância e submissão.

Os comportamentos aqui inferidos – ênfase na relação de poder de quem praticava sexo com quem – ­séculos mais tarde surgem, de maneira explícita, nas sociedades grega e romana. Nestas sociedades, havia profundo desprezo pela homossexualidade passiva, prevalecendo, segundo Veyne (1985), "entre as suas concepções 'naturais' (estatuto de leis sociais e não as provenientes da natureza), um estigma pela servidão e não pela homossexualidade em si, tanto é que não se importavam se as relações acontecessem com os escravos, naturalmente se fossem os senhores ativos" (p. 39).

Estas sociedades estabeleceram suas normas, havendo permissão a determinadas condutas e a outras não. O amor ao efebo livre na Grécia, embora realizado segundo princípios bem delineados conforme se pode ler em Foucault (1984 e 1985), encontra em Roma a sua correspondência no escravo favorito. Em ambas, o privilégio do penetrador, agente ativo, pertencia ao senhor, ao nobre ou ao cidadão.

Nestas mesmas sociedades, havia, também, uma absoluta censura à mulher ativa ou homossexual, sendo condenada como bem se pode observar nas palavras de Sêneca (em Veyne, 1985): "um mundo às avessas, horror igual ao das mulheres que 'cavalgam' os homens" (p. 47).

De forma resumida, então, pode-se dizer que, nestas sociedades, havia um profundo desprezo pela passividade, nela se incluindo as mulheres, os adolescentes e os escravos. A lascívia ou prazer somente poderia ocorrer entre os homens desempenhando papéis ativos; tudo o mais seria injurioso e condenável. Reforçando esta teoria, vemos Foucault citando a "Chave dos Sonhos" de Artemidoro onde diz que sonhos considerados desfavoráveis eram aqueles nos quais a passividade sexual representava uma quebra da hierarquia social. A pessoa mais velha, mais rica, mais inteligente e livre não podia ser passiva em relação a alguém considerado inferior em qualquer uma dessas categorias. ­

A posição sexual aceita era a face-a-face com o homem "por cima", pois todas as outras posições eram tidas como correspondendo a "excessos naturais aos quais a embriaguez conduz" (cf. Artemidoro, apud Foucault, ib.). Entre os cristãos tradicionais, esta posição era a única apropriada para as relações sexuais entre homem-mulher, pois, segundo São Paulo, "as mulheres devem se sujeitar a seus maridos" (apud Gregersen, 1983, p. 54). Assim, a posição sexual é um determinante de dominação, de exercício de poder; ao mesmo tempo, trata-se de uma ingerência externa na relação entre os sexos, "normatizando" os comportamentos.

Essa normatização impregnou profundamente a sociedade ocidental, gerando situações conflitivas e ansiogênicas em muitos membros de casais até, seguramente, há trinta anos, conforme dados colhidos por Crespo de Souza e Adad em pesquisa realizada com casais. Estes autores (1977) verificaram que, "em alguns casais, o 'estar por cima' ou o 'estar por baixo' impediu ou bloqueou a manifestação orgástica, tanto em homens como em mulheres, na dependência de quem estava por cima ou por baixo" (p. 41).

O gerenciamento sobre o comportamento das mulheres não se ateve apenas ao de sua sexualidade; mesmo com todo o humanismo encontrado entre os gregos, pode-se ler, em "De animalis historia" de Aristóteles (apud Misse, 1979, p. 43), que "a mulher é mais compassiva que o homem e se entrega mais facilmente ao pranto; ao mesmo tempo, porém, é mais ciumenta e mostra uma inclinação maior a queixar-se e a enganar. Do mesmo modo, é mais facilmente presa de desespero e menos confiada que os homens, mais desavergonhada e menos zelosa da honra, mais mentirosa, mais fácil de contrariar e possui uma memória maior. Também é mais prudente, mais tímida, mais difícil de ir à ação e exige uma quantidade menor de alimento".

Dentro do espírito deste artigo, devo enfatizar alguns vocábulos empregados pelo filósofo: mais mentirosa, mais desavergonhada e menos zelosa da honra. Qual seria o real significado de tais atribuições? As mulheres agiriam de forma diferente daquilo que lhes era inculcado? As mulheres procurariam obter o prazer sexual que lhes era negado de forma não-convencional e por isso merecedoras de imputações tão sérias e desabonadoras à sua conduta? Sem dúvida, são questões que merecem ser lançadas à guisa, no mínimo, de curiosidade.

O conhecimento do comportamento humano a respeito da sexualidade, num extenso estudo realizado por Gregersen (1983) através de pesquisas em variadas culturas de nossa civilização, tornou relevante a presença do "culto ao falo". Ele evidenciou que, até em culturas primitivas, foi dado um extraordinário poder ao pênis e a quem o possui e o usa. Como exemplos, citou a presença de estátuas fálicas endeusadas no Egito Antigo, danças espirituais na África Central com a utilização de objetos fálicos, e verdadeiros santuários fálicos encontrados no Japão (p. 189,192,215,233 e 234).

Tais evidências nos dizem da importância e da valorização do homem pelo fato de ser ele possuidor ou dotado de um pênis – certamente não relacionado à sexualidade em si, mas pelo fato de ser capaz de procriar, de gerar novos seres humanos. Tal inferência é possível de ser feita em razão de que o mesmo autor demonstra a valorização que é dada ao sêmen masculino em muitas culturas, nas quais até as relações homossexuais entre homens já feitos e jovens eram permitidas e até incentivadas como forma de transmissão de força e de energia; essas relações poderiam ser realizadas tendo como via de transmissão o ânus (Gregersen, 1983, p. 195,247,255,262).

Este fato, mencionado por Gregersen, demonstra, claramente, que já existia, nessas sociedades antigas, a idéia sobre a "incorporação", via digestiva ou intestinal, do vigor do outro, fato que será utilizado, bem mais tarde, por Freud, quando se reportou à identificação, chamando o processo de "introjeção" (Wyss, 1975, p. 117).

Interessante que se registre o fato de muitos pacientes observados na clínica psi quererem obter do outro, através de uma relação sexual anal ou oral, alguma coisa de si próprios que não podem ou não conseguem exercer, como se esses valores culturais, agora no simbólico, permanecessem ainda em vigor.

O mais impressionante é que a busca é imaginada, fantasiada ou até exercida não pela sexualidade em si, mas pelo poder que ao outro é conferido. Muitos indivíduos (masculinos) embora busquem esse poder colocado no outro, por inibições provocadas pela sexualidade manifesta (homo), mantêm esse desejo ao longo de suas vidas, determinando, muitas vezes, uma concentração prejudicial de energia no seu mundo interno.

Mezer (1977), ao falar da solução do Complexo de Édipo, diz: "identificando-se com a mãe, o rapaz se torna feminino e passivo, assume as atitudes e emoções de uma mulher e deseja outro homem como objeto de amor. É claro, então, que o complexo de Édipo é da maior importância na influência do desenvolvimento do indivíduo envolvido" (p. 35). Na conceituação desse fenômeno estrutural, de acordo com a teoria psicanalítica, há menção ao feminino e passivo como atribuições culturais aceitas e integradas pela teoria de uma forma individual.

Na Idade Média, a mulher foi considerada capaz de despertar paixões no homem e, por isso, transmissora do demônio (Alexander, 1980, p. 104). Por isso, várias mulheres foram queimadas na fogueira, na forma de combater o demônio que nelas existia. De acordo com Gregersen (1983), muitas das perseguições, condenações e ajuizamentos tiveram requintes de sexualidade voyeurista, ações permitidas para os inquisidores e não para a população em geral proibida de obter os prazeres de uma maneira natural (p. 18).

A perversão, assim constituída, tendo a mulher como objeto, durante séculos, serviu para que muitos obtivessem um prazer "institucionalizado" embora pervertido. O mais chamativo é que a mulher serviu como responsável pela sexualidade natural – embora toda a conotação que sempre teve nos séculos anteriores de ser uma pessoa dotada de valores inferiores, um objeto passivo, depreciado e sem valor moral ou existencial.

Neste ponto, devemos chamar a atenção para esse significado. Por qual razão ou razões é a mulher responsável pela sexualidade natural, com gozo e com prazer? Por quais razões o demônio estaria incorporado nela e não no homem? Será pelo simples fato de que os homens é que fizeram (escreveram) a história? Ou será que os homens fizeram uma história a partir de suas próprias noções de fragilidade e de temor à mulher? Perguntas difíceis de se responder. Entretanto, vale questionar essa posição adotada pelos inquisidores, todos eles homens ávidos de sexualidade, embora limitados, eles próprios, pelas imposições culturais vigentes.

Muitas culturas em todo o mundo têm um folclore sobre uma mulher cuja vagina é dotada de dentes e que mata os homens com os quais tem relações sexuais. O exemplo mais conhecido desse tipo de mito a respeito de tais 'vaginas denteadas' nos chega dos índios americanos ao norte do México. O mesmo motivo é encontrado, também, na América do Sul, Índia, Sibéria, Groenlândia entre os esquimós e no Pacífico, nas Marquesas e Triamoto (Gregersen, p. 291).

Este mesmo autor, também, diz: "a predominância masculina, no Oriente Médio, tornou-se associada com a separação pública de homens e mulheres simbolizada pelo costume do uso de véus. A base lógica para essa separação é a crença de que as mulheres são uma ameaça para os homens por causa de sua sexualidade destrutiva" (p. 204, 205).

Na livro primeiro da Bíblia Sagrada – ­Gênesis 2:21-23, pode-se ler como o Senhor Deus formou a mulher e a apresentou ao homem recebendo deste a seguinte exclamação: "Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada."

Ainda em Gênesis 3:11-12, de forma inequívoca, a responsabilização da mulher como desgraça da vida de Adão e de toda a humanidade como se pode ler na transcrição: "… e quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?" E o homem diz: "A mulher que me deste por companheira, ela que me deu da árvore, e comi."

Por causa desse ato provocado por homem e mulher, é a mulher responsabilizada pelos imensos castigos proferidos pelo Deus enraivecido. O homem (Adão) se eximindo e culpando a mulher (Eva). Observando esses dois momentos distintos – a formação da mulher a partir de Adão e sua responsabilização pelo ato do mesmo – consegue-se ver que, inicialmente, ela é inferior, pois nascida de uma costela; logo em seguida, entretanto, ela se torna a principal responsável, a causa da transgressão à Lei Divina. Essa polarização entre a inferioridade e causa do pecado ou da sexualidade natural, como também detectamos na Idade Média, representava a maneira ambivalente com que foi vista a mulher ao longo dos tempos.

Esse sentimento ambivalente, ao que parece, atravessou os séculos, mas, sem dúvida, o que mais costumeiramente aparecia era o relacionado com a inferioridade; sua manifestação sexual foi abafada, tendo de renunciar a ela. Já em pleno século XIX, encontramos as afirmativas de Kierkegaard (apud Misse, 1979): "que desgraça ser mulher! E quando se é mulher, sem dúvida, a pior desgraça, no fundo, é não compreender que é uma desgraça" (p. 7).

Uma afirmativa com tal rigor não pode ser explicada senão à luz de todo esse passado de injunções. O estereótipo da inferioridade da mulher em relação ao homem perpassou entre as sociedades judaico-cristãs, sendo a mulher vista, usualmente, como um objeto sexual, fato que nem sempre ocorreu nas culturas orientais.

Segundo Misse (1979), na relação sexual, o ativo é o pênis com um duplo significado contextual de comer, botar, vencer e fazer; tudo isso indicando "prestígio". O passivo é representado pela vagina e o ânus com o significado de dar, apanhar, perder, deixar, sendo indicativo de um estigma.

Freud (1973, p. 138) comparou o pênis a objetos capazes de penetrar num corpo e feri-Io: armas pontiagudas, armas de fogo (particularmente a que, por sua forma, se presta a esta comparação: o revólver). Por outro lado, associou a vagina com objetos cujas características consistem em circunscrever uma cavidade na qual algo se possa alojar: minas, fossas, cavernas, caixas, copos, baldes, vasos. Novamente, a masculinidade é vista como relacionado a algo ativo e a feminilidade como sinônimo de passividade.

Convém chamar a atenção para o fato de que os símbolos masculinos estão associados a algo agressivo, capaz de produzir ferimentos ou até a morte. Pode-se inferir que também, simbolicamente, possuam o significado de assim serem para vencer algum obstáculo só superável por tais características.

Hite (1982) identifica este significado ao dizer "que os homens aprendem na infância que têm de fazer uma escolha que significa optar por comportamentos masculinos, pela identidade masculina para conquistar a proteção do poder" (p. 13). Complementa, ainda, dizendo que a definição de sexualidade masculina e de masculinidade não torna os homens particularmente mais felizes, mas, em sua maioria, "eles se vêem forçados a agir dentro desse papel" (ib.).

Logo mais adiante, ela segue afirmando: "… isso se dá porque a necessidade básica dos homens é se identificar com a masculinidade evitando a feminilidade. Deve-se olhar de cima para a mãe (mesmo com medo dela) e nunca contar com ela para proteção contra o poder masculino (do pai, do mundo)" (ib.).

Aqui, claramente, Hite menciona o receio da mãe e a necessidade de superação desse sentimento por parte dos meninos para sua inclusão no "mundo dos homens e de seu poder". Também faz menção que esta superação não lhes traz felicidade. Segundo este entendimento, o sexo está intimamente ligado ao poder. Para a preservação desse poder há como que um artifício a subtrair dos homens partes de si próprios.

Foucault (1980) também percebe assim a sexualidade. De acordo com ele, "a sexualidade não é o elemento mais rígido, mas um dos dotados de maior instrumentalidade utilizável no maior número de manobras podendo servir de ponto de apoio, de articulação às mais variadas estratégias" (p. 98).

O conjunto de estereótipos da feminilidade (tímida, recatada, sedutora, fiel, virgem, sacrificada, doce, dependente e por aí vai) aparentemente não contém nenhuma alusão desvalorizada, a não ser enquanto a identifica como passiva. No homossexual, o ativo não é tão estigmatizado quanto o passivo. Pode, até, ser motivo de prestígio alguém dizer que "comeu um gay", pois isso significa tê-Io rebaixado, tê-Io submetido ou subjugado.

Então, cabe fazer a pergunta: por qual razão há a vitória (por isso motivo de prestígio) em rebaixar alguém? Senão pelo poder, como justificar tal comportamento sendo a sexualidade a arma para atingi-Io? De propósito, utilizamos, aqui, a palavra "arma" querendo dar a devida dimensão à sexualidade, sendo utilizada como instrumento de poder e não da felicidade humana.

Pode-se inferir – em função do instrumento e do objetivo – que a sexualidade passiva, atribuição da mulher e do homossexual e ainda do adolescente em algumas culturas, também estaria sendo utilizada com o propósito de rebaixamento. Visaria o poder estando implícito o receio por essas manifestações, daí a necessidade de negá-Ias em si próprios e de as deslocar para outros, que as assumiriam (como de fato assumiram até há poucos anos).

De acordo com Johnson (1987), as mulheres foram ensinadas a idealizar valores masculinos em detrimento dos femininos. Segundo este autor, "muitas mulheres passaram a vida com sentimentos de inferioridade por achar que o feminino era a segunda melhor opção. Elas foram educadas para achar que só a atividade masculina, raciocínio, poder e sucesso têm valor" (p. 10).

Laing (1982) enfatizou que a alma humana é masculina e feminina sem definição do que seja masculino e feminino. Para esse autor, "numa relação entre homem e mulher, há um entrelaçamento entre os lados masculinos e femininos de cada um, com todas as possíveis combinações" (p. 125).

Até pouco tempo, ser mulher e homossexual na cultura ocidental significava possuir e encarnar o estereótipo da passividade, principalmente nos aspectos relacionados à sexualidade. Entretanto, com a progressiva participação da mulher na vida econômica e social aliado ao movimento feminista, passou a haver uma profunda mudança nos padrões de comportamento sexual. Além de uma mais ampla conscientização de seus direitos e deveres, a mulher também passou a encarar a sua própria sexualidade como algo existente e inegável saindo, aos poucos, da anulação em que se encontrou através dos séculos. Ela percebeu que poderia, também, ser ativa sexualmente sem que isso viesse a denegri-Ia.

Alguma confusão ainda existe neste novo posicionamento da mulher. Na opinião de Johnson (1987), pelo fato da mulher querer assumir os valores masculinos – tidos como os de sucesso ou de poder ­"ela termina por cair no mesmo dilema do homem ocidental: um domínio unilateral e competitivo das características masculinas em detrimento do lado feminino" (p. 10), a colpocracia.

Pollak (apud Crespo de Souza, 1989) afirmou que a homossexualidade está saindo da escuridão onde ficou confinada por tanto tempo. Segundo este autor, o estereótipo da "bicha louca" é abandonado em prol de uma imagem homossexual "superviril". Passa a ocorrer não mais uma identificação caricatural com o feminino, "mas o machão é o ideal no meio homossexual masculino: cabelos curtos, bigode farto, corpo musculoso e pênis avantajado" (p. 325).

Misse (1979) comenta que realizou uma pesquisa de campo na cidade do Rio de Janeiro entrevistando homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais. As perguntas fundamentais foram: "o que é ser passivo?". Nas respostas obtidas, o autor observou que os homens (hétero e homo) rejeitaram qualquer atribuição de passividade. As mulheres heterossexuais, embora tendo consciência de que ser passivo é uma desvantagem no sentido sexual, acharam "ser natural" ficar nesta condição. Por outro lado, os homossexuais masculinos rejeitaram a condição de passividade mesmo que o "passivo" na relação possa ser representado por eles, havendo a conotação de "ativos dentro da passividade" (p. 39).

Conclusão
De acordo com o exposto, concluo que as culturas e as sociedades criam padrões de comportamento que devem ser obedecidos pelos seres humanos que delas fazem parte. De igual forma, que aqueles que não se enquadram nas normas estabelecidas ou institucionalizadas passam a receber adjetivos fortes, devendo se comportar segundo os estereótipos criados, muitos deles capazes de transformar as pessoas em caricaturas humanas.

Neste artigo, procurei demonstrar como a chamada atitude passiva, sexualmente falando, ao longo dos tempos, em variadas culturas, esteve ligada à feminilidade, sendo seus atributos a fraqueza e a inferioridade (como pessoas) aliadas a uma sexualidade inibida, proibida, execrada, impedida de se manifestar (como expressão de si, no tocante ao sexo). Ao mesmo tempo, procurei também demonstrar que as atitudes ativas, relacionadas ao sexo, nas mesmas culturas ou sociedades, estiveram ligadas à masculinidade.

Seus atributos eram o prestígio, a superioridade social, econômica e até religiosa, havendo nela, implícita, uma conotação de poder. Mais ainda, procurei evidenciar que, embora ao longo dos tempos tenha havido um culto ao falo como provedor da continuação da espécie, também ocorreram períodos que demonstraram, claramente, o imenso terror à sexualidade feminina imerso na dúbia pretensão ao poder.

Com a evolução dos costumes – maior conscientização da mulher sobre seus direitos e deveres – importantes mudanças se operaram. A passividade, agora investigada e capaz de ser aberta, passa a adquirir uma outra dimensão antes não proposta ou aparentemente não vivenciada.

As necessidades humanas sempre existiram e vão continuar a existir apesar dos estereótipos criados pelas sociedades/culturas. Seriam os ativos realmente ativos e os passivos realmente passivos nos seus relacionamentos íntimos? Ou tal condição foi apenas observada tão-somente pro forma, influenciando de maneira marcante a cultura humana?

Tais estereótipos, atualmente, estão em vias de extinção ou se produzirão outros capazes de substituí-­los por alguma outra razão que desconhecemos. O que tornaria necessário tal acolhimento pelas culturas existentes de tão longa época?

Uma questão a pensar…, é o que proponho.

Referências

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About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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