Sobre Análise do Comportamento e o Acompanhamento Terapeutico em Ambiente Natural

Autores: Dácio Silva – UNINOVE
Eduardo Alencar – UNINOVE
Emerson Dias – UNINOVE

Orientador: Cássia Thomaz – UNINOVE

As pesquisas que serão apresentadas ao longo desse artigo foram realizadas por alunos do segundo ano de graduação do curso de Psicologia do Centro Universitário Nove de Julho (Uninove), durante o ano de 2004, na disciplina de Estágio Básico. Antes de apresentá-las, será exposto brevemente o contexto em que foram realizados esses estudos para que sejam considerados a bagagem academica dos alunos na época em que realizaram as pesquisas. Os autores já haviam passado pelas disciplinas de Analise do Comportamento I, II e III que focavam aspectos teóricos, metodológicos e filosóficos desta abordagem.

Palavras Chaves: Estágio Básico em Instituição, Analise do Comportamento, seleção e avaliação de Acompanhante Terapeutico, ferramentas de registro de comportamento.

INTRODUÇÃO

Segundo Thomaz, Cavalcante e Nico (2005), a proposta de Estágio Supervisionado Básico surgiu como uma forma de atender às novas Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia, segundo o Parecer CES/CNE 0062/2004. Essas novas diretrizes determinam as habilidades e competências a serem desenvolvidas durante a graduação, que capacitem o profissional formado a exercer a função de psicólogo em diversos contextos. O curso de Psicologia da Uninove é elaborado segundo as novas diretrizes. O Estágio Supervisionado Básico desta instituição, segundo Thomaz e cols. (2005), objetiva introduzir o aluno da graduação em procedimentos de pesquisa, seguindo prática de observação, interpretação e descrição de fenômenos, segundo um modelo teórico; ampliar o contexto educacional, de acordo com o contexto sócio–cultural no qual está inserido; fomentar a produção científica, mantendo contato com a ética científica e profissional, entre outros.

Uma das propostas de Estágio Supervisionado Básico no ano de 2004, para alunos do segundo ano foi, de uma forma geral, discutir a prática de acompanhamento terapêutico segundo os princípios teóricos da Análise do Comportamento. Para isso, foram realizados: a) levantamento bibliográfico sobre acompanhamento terapêutico; b) discussão da proposta de intervenção nas contingências naturais; c) discussão sobre o Acompanhante Terapêutico (AT) na Análise do Comportamento como possibilidade de aproximação das contingências naturais e; d) discussão da importância da mensuração e registro de dados levantados na prática do analista do comportamento.

O levantamento bibliográfico possibilitou aos alunos caracterizarem a prática do AT, passando por suas origens e funções, as relações com o terapeuta, as questões éticas envolvidas com esta proposta de intervenção e como o AT insere-se na proposta da Análise do Comportamento, diferenciando-se de outras abordagens teóricas.

As leituras e discussões em salas de aula, visando complementar esta pesquisa, permitiram aos alunos a escolha de um tema específico para aprofundamento da investigação. Parece relevante destacar aqui que o Estágio Básico do Curso de Psicologia da Uninove possibilita a cada aluno o desenvolvimento de uma pesquisa individualmente, com o cuidado de sempre contar com a supervisão de um professor.

Durante o levantamento bibliográfico, observou-se uma baixa quantidade de textos e artigos (5 exemplares) sobre acompanhamento terapêutico, sob a ótica analítico-comportamental. Segundo Zamignani e Wielenska (1999), a prática do AT nesta abordagem, foi pouco enfatizada na década de 1980 (prática essa conhecida à época como paraprofissional), devido às críticas à modificação do comportamento (cf. Guedes, 1993). Ainda segundo os autores (1999), este quadro mudou no início da década de 1990, e isso poderia explicar tal escassez de literatura sobre este tema.

Dentro da literatura pesquisada, observou-se pouca informação referente à caracterização do trabalho do AT na Análise do Comportamento e sobre as atividades realizadas por esse profissional. Também não foi encontrada literatura que apresentasse e/ou discutisse os critérios de seleção e avaliação do AT por parte do terapeuta comportamental. Notou-se, ainda, uma ausência de informações referentes à medidas de avaliação e seleção destes profissionais e/ou discussões a respeito de padronização e importância de registros e medida na prática do AT. Estas observações foram responsáveis, em parte, pelas escolhas dos temas para as pesquisas individuais dos alunos.

O ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO NA ANÁLISE DO COMPORTAMENTO: CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O AT na Análise do Comportamento desenvolve um trabalho de psicoterapia estendido ao cliente e/ou pessoas ligadas a ele em ambientes extra–consultório, registrando e observando mudanças em comportamentos, freqüência de respostas e contingências de acordo com os princípios teóricos da Análise do Comportamento, a fim de realizar intervenções em ambientes naturais.

Neste raciocínio, caberia ao AT obter informações relevantes para subsidiar a análise feita pelo terapeuta, desenvolver atividades em ambiente natural, fazer o papel de mediador entre a família do cliente e a equipe de saúde (em caso de equipe multidisciplinar), promover a manutenção de contingências necessárias que facilitem a adesão a determinados tratamentos, entre outras atividades.

Segundo Vianna e Sampaio (2003), mesmo com registros e tarefas de casa, instrumentos facilitadores da observação e aplicação das técnicas propostas na ausência do terapeuta, não se obtém, em consultório, uma garantia total de que os objetivos traçados entre terapeuta e cliente se concretizem. A possibilidade de se trabalhar diretamente nas contingências naturais do cliente parece ser uma possível alternativa a alguns limites da prática de consultório.

Segundo Zamignani (1999), o trabalho do AT apresenta inúmeras vantagens, como possibilidade de acesso a dados, nas contingências naturais, que explicitam as relações dos indivíduos com o ambiente e suas relações pessoais; servir como ferramenta de modelagem e modelação; facilitar a adesão, uma vez que os sujeitos em tratamento assistidos têm maior probabilidade de aderir ao tratamento; facilitar a aprendizagem de um novo repertório comportamental.

Uma supervisão regular, segundo Zamignani e Wielenska (1999), é considerada condição fundamental para o exercício do trabalho do AT; na maioria dos casos, o próprio profissional responsável pelo caso é quem supervisiona o AT, e, ainda, proporciona coerência ao tratamento.
De maneira geral, diferentemente de outras abordagens, em função dos pressupostos teóricos da Análise do Comportamento, o AT Comportamental deveria ter, em sua prática:

a) Supervisão constante, junto a profissionais mais experientes;
b) Interesse pela área de saúde (doenças e tratamentos),
c) Treino de observação de comportamentos;
d) Noções de relação terapêutica;
e) Conhecimento dos conceitos básicos da Análise do Comportamento Humano e sua filosofia;
f) Técnicas de entrevista e técnicas de relaxamento.

Pelo fato do trabalho do AT estar diretamente ligado ao terapeuta ou médico responsável por um determinado cliente, parece surgir também a necessidade destes manterem uma comunicação clara e precisa constantemente.

Porque trabalham conjuntamente, parece ser importante para o processo terapêutico que o terapeuta atente não só para os rumos da terapia, mas também para o alinhamento das práticas do AT, avaliando-o continuamente e efetuando feedback constante de suas atividades, com intuito único de beneficiar o cliente que buscou ajuda.

Selecionar e avaliar um AT com um repertório que inclua as habilidades acima descritas seria contribuir para escolha de um profissional que efetivamente complementasse o trabalho do terapeuta, de maneira que os resultados fossem mais brevemente atingidos e ainda permitiria ao terapeuta dividir funções, em benefício do processo terapêutico.

Quando o terapeuta trabalha com um AT, o processo terapêutico acaba atingindo as contingências naturais de forma mais direta do que quando esse ocorre no setting de consultório somente. Nesse sentido, a qualidade da terapia dependerá, em parte, das habilidades do AT. Portanto, parece ser de suma importância a seleção e a constante avaliação deste.

ESTUDOS REALIZADOS NO ESTÁGIO BÁSICO SOBRE O ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO E A ANÁLISE DO COMPORTAMENTO

Com o objetivo de investigar a avaliação e seleção do AT, dois estudos foram realizados. Um deles investigou os critérios de seleção de ATs por parte de terapeutas comportamentais. Um outro estudo objetivou identificar quais os critérios utilizados por terapeutas comportamentais para avaliação dos ATs .

PESQUISA 1 -Seleção de Acompanhante Terapêutico

Segundo Vianna e Sampaio (2003), o acompanhante terapêutico pode ser mais bem definido como uma forma de intervenção e/ou complemento de um tratamento multidisciplinar, cabendo ao AT atuar no ambiente natural do indivíduo.

Zamignani (1999) afirma que o trabalho do AT apresenta uma série de vantagens, pois facilita acesso aos dados da relação do cliente com o meio e suas interações interpessoais, além de possibilitar atuação como um agente socializador, e facilitador da aprendizagem de um novo repertório comportamental.

Oliveira (2000) destaca que o AT serve de elo entre o terapeuta, o cliente e a família, podendo vir a reforçar tanto os esforços do cliente quanto os da família, orientar o cliente em suas tarefas diárias, observar dados novos e analisar as reais contingências que ocorrem com o cliente.

Segundo Balvedi (2003), o AT deve ter as seguintes características:

– Interesse em trabalhar em equipe, pois, a variedade de casos pode exigir a participação de varias pessoas, leigas ou não;
– Maturidade que lhe traga segurança e domínio em todas as suas ações;
– Alto grau de compromisso, fator essencial na tarefa que se dispõe a efetuar;
– Iniciativa em tomar decisões diante de quadros que se apresentem, bem como situações inesperadas;
– Atitudes firmes e flexíveis. O cliente pode testar o AT, que deve estar atento as suas respostas.
– Ser uma pessoa com forte vocação pelos problemas que se relacionam com a saúde mental;
– Ter capacidade para trabalhar em equipe;
– Poder se adaptar a situações inesperadas que podem surgir;
– Ter bom controle de ansiedade;
– Ter capacidade de tolerância às frustrações;
– Possuir a capacidade de se dissociar no processo terapêutico e poder se colocar como observador participante, ter simpatia, ter disciplina e imparcialidade para ao acompanhamento terapêutico.

Zamignani (1999) sugere, ainda, como pré-requisitos as seguintes características:

– Conhecimentos dos conceitos básicos de Análise do Comportamento;
– Conhecimentos de técnicas de entrevista;
– Possibilidade de desenvolver uma boa relação terapêutica;
– Conhecimento racional da aplicação de técnica;
– Noções básicas de Psicopatologia e Psicofarmacologia.

Observa-se, de acordo com o descrito acima, que alguns autores atribuem algumas características importantes para se exercer a função de AT. Nesse sentido, algumas destas características básicas deveriam ser levadas em consideração na escolha de um AT. Deveríamos então nos questionar a respeito de quais características realmente são consideradas no processo de seleção de uma pessoa para trabalhar como AT. Assim, o presente trabalho investigou se as características apresentadas pelos autores como pré-requisitos necessários para a atuação como AT costumam ser consideradas na escolha ou indicação deste profissional para um caso clínico e/ou formação de uma equipe multidisciplinar.

MÉTODO

PARTICIPANTES

Participaram dessa pesquisa quatro analistas do comportamento, associados ao grupo de discussão on line Comport (que tem como foco temas sobre a Análise do Comportamento), que atuam como terapeutas comportamentais. O questionário foi enviado por e-mail aos participantes, sendo que os dados obtidos por esta pesquisa referem-se aos questionários devidamente respondidos pelos quatro participantes acima descritos.

MATERIAL

Foi utilizado para a coleta de dados um questionário contendo 17 questões, sendo elas 14 fechadas e três dissertativas, onde se investigava a importância dada às características levantadas na pesquisa, assim como investigar como um terapeuta comportamental seleciona o AT com quem possa desenvolver um trabalho terpêutico.

As questões abertas referiam-se à: 1) se o terapeuta já trabalhou com a ajuda de um acompanhante terapêutico durante uma terapia; 2) se foi feito algum tipo de avaliação do AT antes de contratá-lo; e 3) qual o critério usado para escolher um AT.

No questionário foi apresentado, ainda, algumas características consideradas importantes que um AT deve apresentar, segundo a literatura, onde se investigou qual o grau de importância (de 0 a 10) para que o participante assim a considerasse. Entre elas:

· Conhecimentos dos conceitos básicos de Análise do Comportamento;
· Conhecimentos de técnicas de entrevista;
· Possibilidade de desenvolver uma boa relação terapêutica;
· Conhecimento racional da aplicação de técnicas;
· Noções básicas de Psicopatologia e Psicofarmacologia;
· Ter capacidade para trabalhar em equipe;
· Poder adaptar a situações inesperadas que podem surgir;
· Ter bom controle de ansiedade;
· Ter capacidade de tolerância às frustrações;
· Ter simpatia, disciplina e imparcialidade para com o acompanhamento terapêutico;
· Ser estudante de Psicologia;
· Ser estudante de qualquer outro curso de saúde;
· Ter se formado, ou estar estudando em uma faculdade que você conheça.
· Se você tivesse que acrescentar outras características que você acha importante ao AT e que não foram citadas acima qual você citaria?

RESULTADOS:

Os resultados desta pesquisa foram obtidos através de uma análise dos questionários respondidos pelos participantes. Foi feita uma avaliação de todas as notas a fim de que se obtivesse uma média geral das questões respondidas. As características investigadas tiveram a seguinte média de grau de importância na avaliação dos participantes:

1) O item “possibilidade de desenvolver uma boa relação terapêutica” foi o único que obteve média 10.

2) As questões abaixo ficaram com média 9,5 de grau de importância:
– Conhecimentos dos conceitos básicos de Análise do Comportamento;

– Ter capacidade para trabalhar em equipe;
– Poder adaptar a situações inesperadas que podem surgir;
– Ter simpatia, ter disciplina e imparcialidade para ao acompanhamento terapêutico.

3) As questões abaixo ficaram com média 8,5 de grau de importância:

– Ter capacidade de tolerância às frustrações;
– Ser estudante de Psicologia;
– Conhecimento racional da aplicação de técnicas.

4) As questões abaixo ficaram com média 7,5 de grau de importância:

– Noções básicas de Psicopatologia e Psicofarmacologia;
– Ter bom controle de ansiedade.

5) As questões a seguir ficaram com média entre 6,5 a 6,75 de grau de importância:

– Conhecimentos de técnicas de entrevista;
– Ser estudante de qualquer outro curso de Saúde;
– Ter se formado, ou estar estudando em uma faculdade que você conheça.

6) A questão abaixo ficou com média 4,5 de grau de importância:

– Ser uma pessoa com forte vocação pelos problemas que se relacionam com a saúde mental.

Dos quatro participantes, três já trabalharam com acompanhamento terapêutico, e dois costumam fazer algum tipo de avaliação antes contratar um AT. Dois participantes afirmaram que o fato de o AT ser indicado por um conhecido já seria o suficiente para sua contratação, enquanto os outros dois consideram necessária uma melhor avaliação antes da contratação.

DISCUSSÃO

Os resultados apresentados mostram que algumas características parecem relevantes na opinião dos participantes na prática do AT, visto que quase todas as questões apresentadas foram avaliadas como importantes.

Apesar de aparentemente pequena, a amostra de participantes forneceu resultados relevantes. Tais resultados parecem indicar que investigações mais apuradas a respeito dos critérios de seleção dos acompanhantes terapêuticos são importantes, uma vez que as informações obtidas permitiriam delinear melhores estratégias de formação desse profissional.

PESQUISA 2 – Sobre a Avaliação de Acompanhantes Terapêuticos

Um outro estudo investigou alguns critérios utilizados por terapeutas comportamentais para a avaliação do trabalho desenvolvido pelo AT.
Consideradas algumas características que compõem o trabalho do AT, como por exemplo, treinamentos em observação, técnicas de entrevista, aplicação de técnicas e função própria dentro de uma equipe multidisciplinar, características essas que são consideradas pré-requisitos para a formação de um bom profissional, supõe-se que os terapeutas comportamentais de alguma maneira deveriam avaliar o desenvolvimento do trabalho de um AT que atua em algum caso clínico específico. Este estudo, então, investigou como se dá essa avaliação por parte dos terapeutas em relação ao trabalho do AT.

MÉTODO

PARTICIPANTES

Participaram dessa pesquisa 22 (vinte e dois) terapeutas comportamentais, partindo do pressuposto que são esses profissionais que supervisionam as atividades realizadas pelo AT. Os participantes foram selecionados via contato eletrônico com a ABPMC (Associação Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva), à qual foi solicitado o endereço profissional de terapeutas que atuam na cidade de São Paulo.

Procedimento

Foi enviado, por correio, para trinta terapeutas comportamentais, um questionário contendo nove questões fechadas, todas voltadas aos procedimentos que envolvem o trabalho do AT e baseadas na literatura, junto com um termo de consentimento livre e esclarecido. Destes, vinte e dois questionários respondidos retornaram ao endereço do pesquisador, junto com o termo de consentimento livre e esclarecido devidamente assinado pelo participante, via correio, num envelope fechado. Não houve nenhuma identificação do participante que respondeu a cada questionário.

Análise dos dados

A questão inicial do questionário investigava se o terapeuta já havia trabalhado com AT em algum de seus atendimentos e, entre esses, apenas dez responderam afirmativamente a essa questão. Portanto, os resultados apresentados adiante baseiam-se nas respostas de dez terapeutas comportamentais. As questões apresentadas no questionário foram: se o terapeuta oferece supervisão a seu AT e se essa é importante para torná-lo um bom terapeuta posteriormente; em qual período e com que freqüência é avaliado o AT; tempo de aplicação de técnicas como relevância da habilidade do AT; se há programação de datas para avaliação; qual o tipo de profissional que atua como AT é mais freqüentemente utilizado pelo terapeuta e, por fim, se o terapeuta possui algum instrumento sistematizado de avaliação do AT.

Pretendeu-se analisar, com os dados obtidos, como os terapeutas avaliam o trabalho de seu AT. Foram elaborados gráficos que representam a freqüência de respostas nas alternativas de cada questão. A partir desses dados, pôde-se descrever critérios relatados como relevantes para a avaliação do acompanhante terapêutico, bem como o grau de concordância entre os terapeutas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados nos mostram, em princípio, que a participação de um acompanhante terapêutico nos tratamentos realizados por terapeutas comportamentais parece não ser freqüente, uma vez que dos 22 terapeutas selecionados, apenas 10 já se utilizaram de AT em suas terapias. Estudos posteriores poderiam investigar quais as variáveis envolvidas no fato de o AT não ter sido utilizado por alguns terapeutas comportamentais, conforme apontam as respostas aos questionários.

Em relação à supervisão oferecida ao AT, os participantes foram unânimes em afirmar que a supervisão é fundamental para uma boa formação do AT como terapeuta comportamental. No entanto, isso não significa que os participantes ofereçam essa supervisão, podendo até mesmo não oferecer, conforme demonstram os resultados obtidos. Uma questão investigava se os participantes ofereciam supervisão ao AT e de que forma o faziam. Observou-se que quatro participantes oferecem supervisão freqüentemente, três sempre a oferecem, um raramente oferece e, ainda, dois participantes afirmaram que não oferecem nenhuma supervisão a seus ATs.

Quanto à avaliação da prática do acompanhante terapêutico, seis participantes afirmaram que é importante avaliar o AT durante e após um tratamento, enquanto quatro afirmaram que avaliam seu AT apenas durante o tratamento. Este dado parece indicar que os terapeutas tendem a avaliar o AT pelo menos durante o tratamento, o que permitiria uma readequação das intervenções pré-programadas com base nos resultados obtidos durante o tratamento. Dentre os dois participantes que não oferecem supervisão ao AT, um considera importante avaliar o AT durante e após o tratamento, enquanto o segundo apenas durante o tratamento.

Em relação à freqüência da avaliação, prevaleceram as freqüências de menor intervalo entre uma avaliação e outra, ou seja, os terapeutas costumam avaliar o AT semanalmente e quinzenalmente (três e duas respostas, respectivamente), enquanto dois participantes somente avaliam seu AT quando vêem necessidade, e um apenas mensalmente, o que parece corroborar a preocupação de avaliar as intervenções do AT durante o tratamento. Aqui, ainda, há os dois terapeutas que não avaliam, que por ora são os dois que não supervisionam seus ATs.

Os critérios mais utilizados pelos participantes para avaliação profissional do AT são o conhecimento teórico e os resultados obtidos, segundo oito participantes, seguidos da habilidade em aplicação de técnicas comportamentais e o relato do cliente (seis respostas). Esta informação parece sugerir que os terapeutas comportamentais apóiam-se em critérios mais facilmente mensuráveis e objetivos (como conhecimento teórico e técnico e os resultados) para a avaliação do AT.
Estes dados não mostram, portanto, como os terapeutas utilizam esses critérios para avaliar seu AT. O relato de apenas um cliente pode ser suficiente para interpretar o AT como um bom profissional? Ou ainda, se em um caso o AT apresentar bons resultados, isso o qualifica desta mesma forma? É mais importante o conhecimento teórico, ou a correta aplicação das técnicas comportamentais para classificar um AT como bom profissional?

Em relação ao tempo de aplicação de procedimentos pelo AT como critério de avaliação de sua habilidade, seis participantes não consideram o atraso nas atividades programadas um critério para avaliar o AT e quatro participantes consideram-no como critério para se avaliar a habilidade do AT. Este dado parece sugerir que habilidades teóricas e técnicas, conforme observado anteriormente, seriam mais relevantes que a duração de um tratamento para se avaliar um AT.

Já em relação a uma possível programação prévia de datas para avaliação do trabalho do AT, oito participantes relataram não programar essas datas. Esta informação parece demonstrar que, apesar da avaliação ser geralmente semanal e/ou quinzenal, não há um dia específico para que ela ocorra.

Deste ponto de vista, valeria a pena investigar, em um estudo futuro, por que estas datas não são previamente marcadas e se isso interfere na prática e avaliação do AT.

A formação do AT mais freqüentemente utilizada pelos participantes é a de estudante de Psicologia (cinco), seguida pelo psicólogo formado (três), e a menos utilizada são outras formações (três), enquanto um participante opta tanto por estudante quanto por psicólogo. Esta informação talvez indique uma maior presença de pessoas ligadas à Psicologia (formadas ou não) nas equipes multidisciplinares de tratamentos terapêuticos.

Por fim, todos os participantes afirmaram não possuir um instrumento sistematizado de avaliação do AT. Este dado levantaria a possibilidade de uma investigação, em pesquisas futuras, da sistematização da avaliação do AT, uma vez que, alguns critérios (como conhecimentos teóricos e técnicos e resultados obtidos) parecem ser mais freqüentemente considerados para a avaliação do AT.

PESQUISA 3 – Instrumentos de Registro de Comportamento na Prática do Analista do Comportamento

O AT, de maneira geral, na Análise do Comportamento, costuma trabalhar em conjunto com um terapeuta e, em alguns casos, também com um psiquiatra. O trabalho em equipe multidisciplinar poderia ser facilitado se a troca de informações entre os profissionais fosse realizada de maneira clara, objetiva e precisa.

Sendo assim, um outro foco de investigação, em um dos estudos realizados na disciplina de Estágio Básico, diz respeito à possibilidade de criação de um instrumento de registro que venha a possibilitar a sistematização de dados e facilitar a troca de informações entre terapeuta e AT.

As informações sobre a eficácia terapêutica da Análise do Comportamento, principalmente em relação aos casos de transtornos psiquiátricos, lançam luz ao AT, que costuma atuar fora do consultório e auxiliar terapeutas com a coleta e registro de dados, bem como na aplicação de técnicas planejadas, coordenadas e estabelecidas pelos terapeutas responsáveis pelos casos clínicos.

Em função da aparente importância da medida e registro sistemático de comportamentos, o presente trabalho objetivou apresentar uma forma de registro de comportamento que pudesse ser utilizada pelo AT para facilitar a comunicação deste com a equipe multidisciplinar acerca de comportamentos referentes a interações sociais.

Com base em um cliente fictício, com déficit de repertório social, supôs-se a necessidade de avaliar esse aspecto da vida dele. Com isso, propôs-se uma ferramenta de registro de informações referentes a interações sociais.

MÉTODO

PARTICIPANTES

Participaram desta pesquisa seis professores do curso de Psicologia da Uninove, que ministram aulas de Análise do Comportamento e que atuam como terapeutas comportamentais em clínicas particulares.
Na análise e discussão dos resultados não foram apresentadas as identidades dos participantes por questões éticas. Estes assinaram termo de consentimento livre e esclarecido da pesquisa.

MATERIAL

FICHA DE REGISTRO DE COMPORTAMENTO

Para elaboração da ficha de registro do comportamento do cliente “fictício”, que foi apresentada pelo autor como uma possibilidade de coleta e registro de dados através do AT, foi necessário levantar supostos comportamentos relevantes, na literatura da Análise do Comportamento, que merecessem atenção clínica em casos de fobia social, déficit de repertório e habilidade sociais, por exemplo, que poderiam ser observados e registrados. As fichas continham perguntas abertas e fechadas, como por exemplo “Em quais locais o cliente refere sentir-se ansioso?” (alternativas A, B, C, D)

Foi, então, desenvolvida uma ficha de registro com os seguintes cuidados: 1) preocupação com layout, de maneira que propiciasse ao AT uma coleta de dados rápida e fiel dos eventos observados no ambiente natural; 2) espaço para anotações de freqüência de respostas como, por exemplo: “Quantas pessoas o cliente cumprimentou no local Y?”

QUESTIONÁRIO

Foi elaborado um questionário que objetivou avaliar a viabilidade da ficha de registro de comportamentos proposta. Constaram do questionário de avaliação os seguintes critérios: a) se o layout da ferramenta facilitaria a coleta de dados de determinadas respostas em ambientes naturais; b) se a ferramenta proposta atingia as expectativas dos terapeutas sobre coleta de dados relevantes; c) se o instrumento fornece dados sobre repertório e habilidades sociais; d) se o instrumento permite elencar ambientes freqüentados ou não pelo cliente para que se decida em que lugares as intervenções poderiam ser feitas; e e) se os dados coletados através desta ferramenta poderiam ser claramente, objetivamente e precisamente transmitidos ao terapeuta.

PROCEDIMENTO

A ficha de registro do comportamento e o questionário foram entregues pessoalmente pelo pesquisador aos participantes, juntamente com um termo de consentimento livre e esclarecido. Foram-lhes solicitados um prazo para retirada, em data combinada com o pesquisador.

ANÁLISE DOS DADOS

Pretendeu-se analisar, a partir das respostas dos participantes ao questionário sobre a ficha de registro do comportamento, a viabilidade do uso de uma ferramenta sistematizada de registro. Ainda, objetivou-se avaliar os aspectos que deveriam ser melhoradas nesta ferramenta.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Devido ao rigor e preocupação científica da comunidade de Analistas do Comportamento, esta pesquisa foi recebida “receptivamente” pelos participantes que consideram adequado e na maioria dos casos, necessário, a utilização de instrumentos extra (como por exemplo, planilhas, fichas de registros, filmadoras, entre outras técnicas) para coleta de dados acerca do comportamento humano, que permitam através de linguagem científica, clara e objetiva, promover uma classificação dos comportamentos observados, que conseqüentemente, servirão de orientações para futuras e posteriores intervenções.

De maneira Geral, todos os participantes concordam que o mero registro dos comportamentos em linguagem objetiva não basta. Numa etapa posterior, é necessário que o observador identifique as características comuns existentes entre os comportamentos observados, classifique-os e, descreva os critérios utilizados na sua classificação. Estas exigências que garantem um rigor científico, só podem ser fidedignas por intermédio de registros, dado que vai de encontro com a preocupação científica desta comunidade, justificando a existência deste instrumento nas práticas destes profissionais.

Os participantes que avaliaram as fichas de registro afirmaram que cuidados muito importantes deveriam ser considerados na elaboração de um instrumento de registro, como: 1) adaptar cada ficha de registro ao caso clínico específico; 2) modificá-lo quando necessário ou com a mudança do caso; 3) elaborá-lo junto com o terapeuta do caso; 4) atentar-se para os resultados que estão sendo obtidos através da coleta de dados (registro) e se estes atingem os objetivos propostos pela terapia/terapeuta.

A ficha de registros foi avaliada mediante reflexões críticas acerca de sua estrutura, metodologia e layout. Os dados obtidos parecem demonstrar que a ferramenta (ficha de registro de comportamentos) que visa a troca de informações clinicamente relevantes entre AT e terapeuta necessitam de cuidados especiais em sua elaboração que permitam que esta coleta de dados seja clara, objetiva e precisa.

Pode-se observar que os sujeitos que avaliaram a ferramenta, embora tenham feito ressalvas, consideraram-na válida como ferramenta do AT em atendimento extra–consultório, uma vez que pode proporcionar vantagens, tais como: a) facilitar a comunicação entre AT e terapeuta, b) coletar informações precisas sobre dados clinicamente relevantes, c) propiciar “visualização” sobre possíveis melhorias de casos clínicos, uma vez que demonstram claramente os comportamentos como relações – possibilitando assim a descrição das contingências e; d) auxiliar em análises funcionais.

Ainda, dois participantes fizeram as seguintes ressalvas: a) o questionário que levanta os locais de interesse do cliente nem sempre podem mostrar os locais de interação social do cliente, já que pessoas com este quadro clínico podem apresentar aversão a diferentes lugares. Por isso, foi indicado que, na prática, poder-se-ia aumentar a variabilidade de respostas emitidas em certos locais e, sucessivamente, fazer com que essas respostas possam ocorrer também em outros locais; b) a ficha poderia ser melhor estruturada à medida que a coleta se inicia, ou seja, esta ferramenta dever ser flexível e adaptável a cada caso/cliente de maneira que sua metodologia e objetivos caminhem lado a lado com as características do cliente e com as necessidades de análise do terapeuta sobre estes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE AS PESQUISAS REALIZADAS

Apesar do cuidado do Analista do Comportamento em investigar e publicar a respeito da prática do AT, ainda há uma carência referente à produção de conhecimento e reflexão sobre essa prática como, por exemplo, questões sobre a ética, função e limites da prática em ambiente extra-consultório realizada pelo acompanhante terapêutico.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Balvedi, C. (2003). Acompanhamento terapêutico – a terapia no ambiente do paciente. Em: M. Z. S. Brandão e cols. (orgs.), Sobre Comportamento e Cognição, vol. 11. Santo André: Esetec Editores Associados.
Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Superior. Diretrizes Curriculares nacionais para os cursos de graduação em Psicologia – Parecer nº 0062/2004.
Oliveira, S. G. (2000). O acompanhante terapêutico. Em: R. R. Kerbauy (org.), Sobre Comportamento e Cognição, vol. 5. Santo André: Esetec Editores Associados.
Thomaz, C. R. C., Cavalcante, L. S. B. & Nico, Y. C. (2005). Avaliando uma proposta de Estágio Básico em Análise do Comportamento como possibilidade de adequação às novas diretrizes curriculares do curso de Psicologia. Campinas – SP. Programação do XIV Encontro Brasileiro de Psicoterapia e Medicina Comportamental.
Vianna, A. M. & Sampaio, T. P. A. (2003). Acompanhamento terapêutico – da teoria à prática. Em: M. Z. S. Brandão e cols. (orgs.), Sobre Comportamento e Cognição, vol. 11. Santo André: Esetec Editores Associados.
Zamignani, D. R. (1999). Qual o lugar do AT numa equipe multiprofissional? Em: R. R. Kerbauy & R. C. Wielenska (orgs.), Sobre Comportamento e Cognição. Santo André: Esetec Editores Associados.
Zamignani, D. R. & Wielenska, R. C. (1999). Redefinindo o papel do acompanhante terapêutico. Em: R. R. Kerbauy (org.), Sobre Comportamento e Cognição, vol. 4. Santo André: Esetec Editores Associados.

About Eduardo Alencar

Psicólogo comportamental do Cais/USP (2009), pós graduado em Psicologia Comportamental e cognitiva pela USP, com formação técnica em administração de empresas, extensão universitária em OBM e em Acompanhamento Terapêutico pelo Núcleo Paradigma, especializ
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