Amigo Animal: O que leva pessoas a escolherem animais de estimação?

ENTREVISTA COM DR. HÉLIO JOSÉ GUILHARDI (MAIO/2006) PARA REVISTA CHECK UP – EDITORA LOPSO ASSUNTO: AMIGO ANIMAL

Um aspecto extremamente importante para aprimorar as relações entre o homem e seuanimal de estimação é o conhecimento das leis que regem os comportamentos de cada espécie. A Análise do Comportamento é uma área da Psicologia especialmente habilitada para ensinar como instalar, desenvolver e alterar comportamentos no seu “discípulo”. Háuma série de técnicas e procedimentos para manejar comportamentos, tais comomodelação, fading, reforçamento positivo, extinção etc. O domínio de tal área permite aodono do animal desenvolver ao máximo o potencial do seu “companheiro”, tornando-o obediente, participativo, diferenciado, de tal modo que se consegue desfrutar a companhiado “amigo” com prazer.

1) O que uma pessoa deve levar em consideração antes de adquirir um animal deestimação: cães, gatos, aves?

Em primeiro lugar, ter sensibilidade ao outro (o caso, o “outro” é o animal). Ou seja, as necessidades do animal devem ter importância para mim. O frio que ele sente, a sede, a fome, a dor, a solidão devem ser respeitados e meu conforto, preferências, cansaço etc.não podem prevalecer – indiferentes às carências do outro. Assim, mesmo cansado, melevanto e preparo a comida do meu animal de estimação.
Se você não for sensível ao outro, não busque um animal de estimação.

Você pode fazer-lhe mal. Ele está sempre em desvantagem, pois está fora do seu ambiente natural, indefeso, desprotegido, uma vez que os dotes da natureza, em nossas casas, não funcionam em sintonia com oprocesso de seleção natural. Não é justo, nem humano tirá-lo do contexto que lhe épróprio e abandoná-lo à própria sorte. E, finalmente, tudo o que fizer pelo seu animal deve ser feito com afeto: vibrar com as realizações e satisfações dele; sofrer com asdores dele. Desta forma, a sua relação com seu animal é gratificante para ambos. Vocêdeve se realizar com seu leal companheiro.

2) 2. Fale sobre mitos e verdades relacionados à interação homem-animal como, porexemplo, se uma pessoa que tem alergias pode ter um animal.

O mito mais freqüente está relacionado, a meu ver, com os sentimentos do animal emrelação ao seu dono. Num extremo, as pessoas pensam que seu “amiguinho” temsentimentos como ela; no outro, afirmam que é um “bicho” e não sente. A verdade é que a interação entre o animal e seu dono é intensa e desenvolvem-se discriminações muito sutis entre ambos. Tanto um, como o outro captam mudanças mínimas decomportamento; na rotinas, nos encadeamentos de respostas. Desta maneira, há uma comunicação não verbal elaborada e que simula troca de afeto. Não posso afirmar que os animais apresentam os afetos humanos; mas nós podemos ter pelos animais afetoshumanos. Tal constatação basta. Essencialmente, a manutenção de boas rotinas mantémcomportamentos e emoções intactos e saudáveis. Em relação à segunda parte dapergunta, acredito que um médico poderia melhor respondê-la. No entanto, comopsicólogo, posso afirmar que interações estressantes produzem vulnerabilidades, no mínimo, afetivas (tristeza, ansiedade, preocupação etc.). Como e quanto os sentimentos afetam o funcionamento do organismo é questão a ser respondida, mas que exerceminfluências não resta dúvida. E, deste ponto, conclui-se que sofrem mais os organismosmais vulneráveis da relação.

3. Que perfil a pessoa que quer adquirir um cão, gato ou ave deve ter?

A pessoa deve ser afetiva; ter disponibilidade mínima de tempo para cuidarrotineiramente do seu animal; ser capaz de quebrar rotinas para situações de urgências (ferimentos, atropelamentos, dores agudas etc.); ter curiosidade para ler, investigar,saber mais sobre hábitos, rotinas, alimentação etc. do animal; compartilhar seu espaçofísico e, eventualmente, sua rotina com o animal; ter habilidades para envolver as demais pessoas da família nos cuidados dispensados ao “parceiro”. A relação entre odono e seu bichinho deveria ter características semelhantes às dos humanos entre si, porém num nível menos intenso.

4. Qual animal é mais indicado para pessoas que trabalham fora? E para uma famíliaque tem crianças? E para idosos?

Pessoas que trabalham fora deveriam colaborar, curtir, conviver o possível com animais de pessoas próximas. Não é indicado deixar os animais muito tempo a sós (não estouconsiderando, neste caso, aqueles pouco convencionais, tais como cobras, iguanas,roedores de hábitos noturnos). Os animais solitários podem satisfazer necessidades de solidão e de expressão de afetos dos humanos, mas eles próprios pouco recebem emtroca. Como conseqüência, manifestam carências através de comportamentos anômalos.Peixes talvez possam ser uma opção para pessoas que ficam muito ausentes de casa. Para crianças, animais que expressam afetos (neste sentido, os cachorros são imbatíveis) e que interajam abertamente, porém sem brutalidade (mesmo que não sejaintencional. Um movimento brusco e intenso machuca, apesar da alegria e boa vontadedo animal…). As crianças, ao se relacionar com os animais, aprendem a expressar e receber afeto.

Devem ser estimuladas a cuidar deles, a notar dificuldades e proezas de seus “inseparáveis amigos”. O animal é um excelente professor de afetividade, de auto-estima, de responsabilidade, de disciplina, e é fundamental para o desenvolvimento derepertório social. Para os idosos, recomenda-se “companheiros” com as mesmas características apontadas para as crianças, mas principalmente aqueles que estimulem os idosos a emitirem comportamentos, tais como sair de casa; fazer exercícios físicosmoderados, mas sistemáticos; que estimulem a interação social e os façam sentir-se úteis. Para os idosos – como para as crianças -, são importantes fontes de afeto, gostaria de voltar a enfatizar

5) Quais são os animais mais indicados para crianças, desde bebês até pré-adolescentes? E dentro das espécies (cães, gatos, aves), quais são as raças maisindicadas?

Animais mais indicados são aqueles de boa índole, mansos, tranqüilos. Para crianças,conforme comentado, aqueles que interajam mais freqüentemente e que demonstremafeto são mais indicados. Acredito que o melhor animal para uma criança é aquele queos pais mais adoram. Sendo amado, o “amigo” será mais bem tratado, o que dará para a criança importantes modelos de interação com animais e, através de generalização, bonsmodelos de interação com outras pessoas.

Além disso, qualquer animal bem cuidado será mais dócil, mais afetivo, mais acolhedor. Há necessidade de bom senso na escolhado animal de estimação. Por exemplo, o que fazer se a criança adora cachorros, mas o pai gosta de passarinhos? Sugiro, neste caso, que ambos fiquem felizes: cachorro para o filho, passarinho para o pai e paciência para a mãe.

6) Quais benefícios uma pessoa que tem animal de estimação pode ter com relação àsaúde física e psíquica?

Muitos e importantes benefícios. Assim, há troca de afetos; a pessoa sente-se amada eútil; desenvolve responsabilidade e disciplina – para cuidar da rotina e das necessidades do animal; os “amigões” propiciam interações sociais entre as pessoas – que conversam sobre seus bichinhos (e, por sinal, quantas histórias são contadas!); estimulamatividades físicas, passeios; o dono melhora sua auto-estima; desenvolve tolerância à frustração. Como se vê, não é pouco!

7) Como os animais de estimação podem ajudar pessoas solitárias ou que têmdepressão? Quais animais são mais indicados para elas?

Os animais devem ser escolhidos, não impostos. Devem ser bem tratados, pois assimsão mais gratificantes e dão menos trabalho; devem ser incluídos na rotina da pessoa, dentro de limites (é muito agradável ter seu animal de estimação por perto, tranqüilo,enquanto você lê ou assiste à televisão, por exemplo); a pessoa deve ser bem informadasobre as características e hábitos do animal, pois assim pode tratá-lo de forma maisadequada. Os animais são excelentes companheiros e sua dependência gera sentimentosde eficiência e utilidade; suas iniciativas despertam sentimentos de prazer e orgulho (às vezes, de zanga passageira, quando são travessos). Os animais têm mais função deprevenção de sentimentos de solidão e de depressão, do que função terapêutica. Explico melhor: uma pessoa deprimida pode se sentir incomodada com a presença de umanimal; alguém ansioso pode se irritar ainda mais com a presença do animal. Os benefícios da companhia do animal de estimação advêm da convivência construídapasso a passo, não da intromissão arbitrária. O animal inesperado pode ser indesejável eisso traz perdas para o dono e para o próprio animal.

About Eduardo Alencar

Psicólogo comportamental do Cais/USP (2009), pós graduado em Psicologia Comportamental e cognitiva pela USP, com formação técnica em administração de empresas, extensão universitária em OBM e em Acompanhamento Terapêutico pelo Núcleo Paradigma, especializ
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