Profissão: psiquiatra de moradores de rua

Em Marselha, esta reportagem acompanhou uma equipe de Médicos do Mundo especializados em atender moradores de rua, os quais são geralmente deficientes mentais

Em Marselha, esta reportagem acompanhou uma equipe de Médicos do Mundo especializados em atender moradores de rua, os quais são geralmente deficientes mentais

13/09/2006

Michel Samson

Nesta terça-feira de verão quentíssima, Vincent Girard, 34, a cabeleira amarrada em rabo-de-cavalo, os olhos azuis e um sorriso de criança, prepara sua turnê semanal. Este psiquiatra “de rua” é acompanhado pelo seu colega Hermann Händlhuber, um austríaco alto e magro de 52 anos que desembarcou em Marselha depois de uma “vagabundagem de oito anos”, a qual resultou numa tuberculose. O projeto da organização Médicos do Mundo associa especialistas oficialmente diplomados com benévolos e “trabalhadores pares” cuja experiência de vida é reconhecida como uma competência.

Dentre as 70 pessoas das quais eles acompanham a evolução, as prioridades do dia dependem da “urgência”. Pode ser a urgência psiquiátrica, médica e social, quando um jovem rapaz recém-saído das ruas está voltando a mergulhar na bebida e que é preciso encontrar um meio para ajudá-lo dar a volta por cima e retomar seu caminho sobre bases melhores. Pode ser uma urgência somática, quando um dos seus pacientes, que se encontra no ápice dos seus delírios e do seu cansaço, abandonou de tal forma o próprio corpo que é preciso intervir.

Mas a rua tem as suas prioridades que a medicina desconhece. As “visitas em domicílio a pessoas sem domicílio”, para retomar uma expressão do médico, nunca acontecem conforme o previsto. Eles partem, portanto, rumo a La Ferme (A Fazenda), um centro de hospedagem situado numa comuna próxima a Aubagne (região marselhesa) onde a equipe havia deixado Sacha, um jovem alemão que acaba de receber um desfibrilador por causa de uma malformação cardíaca. Sacha confessou a Hermann, que fala alemão, inglês, italiano e francês, que ele queria “partir”. Ora, cada uma das suas partidas o trouxe de volta para as ruas e perto da morte.

Sacha é um sujeito de grande gabarito, cujo antebraço é tatuado com a inscrição “Elisabeth” em letras góticas e cujos olhos afundados nas órbitas expressam o medo em primeiro lugar. “Medo, medo”, repete, mostrando o seu coração, isso porque o seu aparelho cardíaco disparou recentemente sem nenhuma razão. Vincent fala com ele, segurando-o pelo ombro, enquanto Hermann traduz: o aparelho foi consertado, e eles vão prescrever-lhe calmantes, já que ele não consegue mais dormir. Nas costas do médico, Sacha, com o olhar desesperado, finge estar atirando uma bala na têmpora com dois dedos, ou simula seu enforcamento. Depois da visita, Hermann explica: “Sacha quer ir embora dali; os outros são velhos demais, ele não faz nada, e vai acabar morrendo de tédio”. Por ocasião da próxima visita, será preciso tentar enviá-lo para um grupo de ajuda mútua onde se encontram ex-pacientes com problemas psiquiátricos.

Agora, a dupla está de volta ao centro de Marselha para procurar Jean-Marie, que normalmente concorda em passar alguns dias no hospital. Vincent Girard reservou-lhe um leito no serviço do doutor Naudin, de quem ele é o assistente. Infelizmente, Jean-Marie sumiu. Um esquizofrênico acometido de delírios expansivos, ele está em apuros. Alguém furtou os cartazes de papelão nos quais ele anuncia por meio de grandes letras coloridas “sessões de cinema em três dimensões”, e que ele pendura nos plátanos da Alameda Pierre Puget. Ghil Darsa, uma antiga arquiteta que se tornou enfermeira, que participou da turnê na semana anterior, explica que o furto desses cartazes o “chocou profundamente, uma vez que aquela era a sua maneira de deixar sua marca, de comunicar, de habitar no lugar”.

Vincent e Hermann apertam as mãos dos quatro moradores de rua que estão bebendo, sentados num banco da praça, e lhes indagam sobre o paradeiro de Jean-Marie. Um dos quatro aproveita para iniciar uma conversa privada com o psiquiatra. Com o olhar vago, ligeiramente titubeante, Jean-Marc, um homem jovem alto e loiro recém-saído das ruas, puxa Vincent pelo braço. Eles sentam num banco vizinho, e conversam. Pouco depois, Jean-Marc retorna, pega uma sacola de plástico que contém documentos e entra no carro. Finalmente, é ele quem parte para o hospital, no lugar de Jean-Marie que ninguém consegue encontrar. “O álcool acabou comigo; ele acabou comigo”, confessa o jovem rapaz. “Eu achava que eu iria sair dessa, mas naquele momento, eu já havia acabado de tomar a minha terceira garrafa de rose; eu tomo os meus medicamentos junto com o álcool; de manhã eu já acordo transpirando; tenho duas folhas de pagamento para receber, mas alguém me roubou minha sacola com os meus documentos; a vida precisa oferecer-me uma outra perspectiva”.
Vincent lhe responde, sorrindo, que “a recaída é normal” e que o que está acontecendo com ele hoje “é bom para ele”.

Esta hospitalização imprevista, explica o médico após tê-lo acompanhado, atende também a uma outra necessidade: “Para nós, é muito importante que as pessoas que nós tiramos das ruas não retornem àquela condição. Para eles, é claro, mas para que nós tenhamos também, de vez em quando, alguns sucessos”.

Este retorno ao hospital sublinha, sobretudo, a carência total de locais aptos a receberem os deficientes mentais que moram nas ruas. A equipe vem lutando pela criação de uma casa adequada e já começou a trabalhar num projeto de hospedagem assistida que o plano de coesão social do ministro Jean-Louis Borloo torna teoricamente possível. A enfermeira Ghil Darsa explica: “Em Marselha, não existe nenhum local aberto para as pessoas que não conseguem ser plenamente autônomas, que não têm mais nenhum laço parental e que precisam de ajuda para reconstruírem a sua vida. Acima de tudo, eles não devem permanecer no hospital, que continua sendo útil em tempos de crise”.

O próximo encontro do dia é com o “Senhor Betti”. Este homem idoso sem dentes e com o corpo escangalhado vive na entrada de um estacionamento. Ele tem um pesado passado psiquiátrico, que ele conta por pedaços mais ou menos coerentes. A equipe vai visitá-lo regularmente, fala com ele, lhe traz água: no cerne desta psiquiatria de rua, o que importa em primeiro lugar é uma presença regular, que pode até mesmo ser muda. Uma presença “que se mostra sem se impor” e se encarrega de acompanhar as pessoas tais como elas são e, sobretudo, com o seu assentimento.

“Dando uma passada, conversando, apertando a mão, é possível criar uma confiança com esses moradores de rua, homens e mulheres, dos quais se sabe, graças aos raros estudos existentes, que um em cada seis é psicótico”, explica Vincent Girard.

Todos os especialistas, benévolos e “trabalhadores pares” do projeto de Médicos do Mundo participam da reunião das terças-feiras à noite, durante as quais as equipes trocam suas informações e fazem um levantamento das suas necessidades. Essas necessidades são tão imensas quanto variáveis: “Pode ser ajudar alguém a telefonar para a sua mãe ou um irmão, resolver um problema de orientação e reclassificação profissional, ajudar a encontrar um apartamento mobiliado para o paciente poder se instalar, ou hospitalizá-lo”.

Uma hospitalização é sempre complicada, uma vez que os funcionários do hospital relutam muito a aceitar esses doentes, e têm dificuldades até mesmo para entender que eles sofrem de distúrbios psiquiátricos profundos. “Eles são distribuídos por categorias”, comenta o psiquiatra. “Ora eles são toxicomaníacos, ora alcoólatras, ora deficientes mentais. Mas, na verdade, eles são “e” alcoólatras, “e” dependentes dos medicamentos “e” bipolares, por exemplo. Isso porque a droga pode ser uma auto-medicação frente a um distúrbio psiquiátrico grave”. Além disso, prossegue Vincent Girard, “eles fedem, eles têm piolhos, e os funcionários do hospital não raro temem as contaminações – até mesmo imaginárias”.

O Senhor Betti, por sua vez, sofre de todas as moléstias ao mesmo tempo. Já faz algumas semanas, ele enfiou no dedo um anel talismã que corroeu sua carne negra; a sua mão está inchada por um fleimão. Vincent e Raymond Négrel, um enfermeiro especializado em psiquiatria já aposentado, diagnosticam uma infecção que exige uma intervenção cirúrgica imediata. O Senhor Betti a recusa violentamente, grita, conta que naquele hospital “roubaram tudo” o que ele tinha, mistura prováveis elementos de realidade com um delírio repetitivo. Raymond o segura pelo ombro e lhe diz: “O senhor vai morrer caso não for tratado, Senhor Betti”.

O médico resolve chamar os bombeiros. Ele detesta isso, uma vez que a filosofia desta psiquiatria da confiança é de nunca obrigar as pessoas.
Exceto, é claro, quando existe um sério perigo de morte. O Senhor Betti se afasta, e ainda grita: “Raymond, o que você está fazendo comigo?”, mas acaba subindo finalmente, sem mostrar muita resistência, no caminhão vermelho. Ele é levado até o serviço de emergências do hospital geral… de onde ele foge imediatamente! Alcançado pela equipe de rua, o Senhor Betti é finalmente “hospitalizado a pedido de um terceiro”, no caso o doutor Girard, no seu serviço de psiquiatria. Lá, ele vai sofrer um tratamento destinado a “torná-lo um pouco mais maleável, sendo sedado com algumas pílulas”, antes da intervenção cirúrgica.

Já, no que diz respeito a Omar, ele é “psicótico, abandonado e incurável”, diz o médico. Em pé na frente de um banco, curvado, trajando roupas cobertas por uma sujeira espessa, Omar tende vagamente a sua mão negrusca para os passantes que não o vêem. Omar só consegue se movimentar muito lentamente. É uma massa humana apenas viva. Nos seus cabelos, dá para ver os piolhos se mexendo. Ele reconhece Hermann e Vincent. Neste momento, aparece uma breve centelha nos seus olhos apagados. Ele não comeu nada, dorme sem nenhum cobertor, às vezes sobre um papelão, costuma ser assaltado pelos toxicomaníacos na Praça Jean Jaurès, onde ele sobrevive. Mas Omar nada diz, nada quer, não está pedindo mais nada. Ele aceita o cigarro que Hermann enrola para ele, procura num dos seus bolsos internos para ver se ele ainda tem uma moeda. Ele a tira lentamente, ela é amarela.

Vincent Volta a falar com ele em hospitalização; ele balança silenciosamente a cabeça para recusar. Vincent lhe propõe conduzi-lo até a sede de Médicos do Mundo para se lavar. Mesma recusa. Vincent lhe recorda de que um dia ele havia gostado disso. Um fulgor passa nos seus olhos, mas é o mesmo não silencioso. Omar nunca fala. A equipe de despede dele, mais uma vez, e voltará para vê-lo, ainda, sempre.

No carro, Hermann o discreto diz: “Ele não tem nada na mente, nada”. E ele acrescenta, com o seu belo sotaque alemão: “É difícil para nós também. A gente traz apenas uma gota de água no oceano, e nem mesmo uma gota”.

Uma gota de água na secura do mundo.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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