Autonomia e criatividade nas relações cotidianas

Para refletir: no mundo de hoje, será que as decisões que temos tomado em nossas vidas são verdadeiramente autônomas? Até que ponto somos originais e criativos sem culpa, e até que ponto somos influenciados ou levados a fazer alguma coisa de uma certa maneira só porque alguém assim o quer? Por certo sabemos que tudo isso, de fato, nós somos: a soma dos desejos do Outro (dos pais, dos professores, do chefe, do Governo, da sociedade…) com alguma parcela dos nossos próprios desejos.

A princípio nos pareceria cômodo e prático se as relações entre essas demandas fossem sempre equilibradas e harmoniosas, porém elas não são. Certamente que se assim fossem, desde sempre, não haveria ação e reação, e a história da humanidade seria como páginas de um livro em branco. No entanto, devemos sim nos questionar a respeito da nossa própria autonomia, porque ela é uma condição necessária ao nosso desenvolvimento e a uma qualidade de vida adequada.

Procuremos então, em nosso contexto: onde estão os lugares sociais nos quais se é permitido produzir com criatividade? E quando precisamos fazer algum ajuste em nossas vidas ou acrescentar algo novo, qual tem sido a reação do Outro? Ele tem sido colaborador nas nossas necessidades de mudança? Tem participado positivamente quando queremos assumir atitudes de crescimento? Por que às vezes é tão difícil conviver bem com as diferenças, se elas podem nos beneficiar? A quem interessa o não crescimento do ser humano, seja na família, na escola, nos locais de trabalho, no casamento e em tantos lugares instituídos pela sociedade?

Tais questionamentos são pertinentes ao nosso atual contexto, não porque as pessoas falem livremente sobre o quanto se sentem reprimidas, mas porque, por não poderem falar, produzem sintomas, não só psicológicos, mas também físicos e sociais. O que temos então?

Nas empresas e locais de trabalho, encontramos profissionais com perfil dinâmico e empreendedor, mas com potencial pouco explorado por causa de problemas de hierarquias internas; nas escolas, professores com alto índice de sofrimento psíquico refletindo em sua saúde global, nutrindo sentimentos de fracasso em relação ao seu papel profissional por falta de reconhecimento e investimento (seja a nível técnico ou pessoal), e por outro lado, alunos incapazes de manter uma boa convivência com os outros, que não se preocupam em cuidar de si nem tão pouco possuem algum espírito de solidariedade, ao contrário, apresentam comportamento indisciplinado, agressividade e tantas outras formas de violência.

Nas famílias, crianças entre os pólos da rebeldia e da carência afetiva, muitas vezes, uma coisa levando à outra; jovens que não possuem uma perspectiva construtiva de futuro e tão somente procuram desfrutar de prazeres instantâneos e degradantes; pais e mães, homens e mulheres que já não sabem o sentido daquilo que fazem e o valor daquilo que acreditam.

Todos esses são sintomas produzidos ao longo da nossa história porque o tempo passa, algumas coisas mudam muito rapidamente, mas as relações básicas continuam se dando ao nível da heteronomia, isto é, da falta de criatividade e de compreensão global das regras instituídas. Estamos o tempo todo agindo de uma determinada maneira em função de recompensas fugazes e na tentativa de evitar punições. Logo, nós mesmos reproduzimos o mesmo modelo de relação autoritária que nos faz sofrer, transmitindo-o aos nossos filhos, alunos, colegas de trabalho, amigos, companheiros, etc.

Falar em mudança de paradigmas nesse mesmo contexto é uma atitude de muita coragem. A resistência que temos encontrado quando propomos a abertura de um novo campo de reflexão é muito grande e às vezes até combativa. Algumas pessoas e instituições nos parece funcionarem como aquele secretário que depois de 20 ou 30 anos trabalhando com a sua velha máquina de datilografar, não aceita o computador em sua mesa. E é até capaz de jogá-lo no meio da rua, se for preciso.

Mas um dia, diante de alguma necessidade emergente, ele terá que pedir ajuda a alguém que sabe utilizar a nova máquina porque este não se recusou a conhecê-la e aprendeu a manejá-la de maneira autônoma. Assim somos nós, muitas vezes. Por causa da resistência à mudança, somos capazes até de desprezar, ou de tentar manipular aquele que nos propõem a ajudar ou que deseja sinceramente que possamos crescer. Muitas vezes, os ares de mudança circulam pelo nosso meio e nos escondemos. Boicotamos a nós mesmos, embora em algum lugar dentro de nós, saibamos que estamos cansados de repetir.

Acredito no ser humano. Acredito que a criatividade faça parte da nossa natureza e que através de nossas construções e reconstruções temos a possibilidade de compreender o mundo de uma forma nova e mais significativa. Penso ainda que a velha “máquina de escrever” jamais deverá ser jogada fora. Ela deve estar preservada para que possamos sempre resgatar nossas memórias, entendendo como inventamos o mundo e como somos capazes de reinventá-lo cada vez melhor, se quisermos.

Jacqueline M. Cavalcante da Silva
Psicóloga
CRP 06/67838

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