Lacan e a sexualidade humana IV – o feminino

(…)A mulher não exerce o simbólico, a mulher existe a partir de um dado no Real. A mulher não existe a priori, a partir do exercício fundado num significante prévio, como o ocupante do campo masculino. Ela não existe a partir de estar ancorada na linguagem, como o masculino. A mulher somente existe a posteriori.
Fica invalidado, porém, invocar a figura da lésbica que pretensamente deteria um saber e uma maestria de manejo do feminino, pois a lésbica é um produto e um equipamento com defeito de funcionamento.

O corpo feminino, a feminilidade, é também pseudocompreendida e pseudoalcançada pelo homossexual masculino, na figura do estilista ou costureiro, que através da ditadura imposta à ocupação militar do revestimento externo do corpo da mulher, fenômeno econômico chamado Moda, supostamente e ilusoriamente deteria um saber sobre o modo de acesso e de produção do feminino, e do enigma que do que É uma mulher, do quer uma mulher.

A mulher não pode ser aprisionada no conceito como a mesa objeto, ou como o elefante objeto. Ela somente existe como música. Como música e texto cifrado aprisionado nas bordas do corpo feminino. Música que como a música só existe se executada, se tocada. Música que dolorosamente existe nas linhas pautadas e cifradas do corpo da mulher.

Quem detém a maestria para tocá-la, para fazê-la existir, para fazer existir a música? Como disse Jobim, na canção que fez à ainda adolescente e linda atriz Candice Bergen, de passagem pelo Rio e pelo fusca de Jobim em uma de suas intrépidas idas a São Conrado. Which magic words will capture you????

Para o masculino, a castração significa que é preciso que o gozo seja recusado, para que possa ser atingido na escala invertida da Lei do desejo. Isto é, o masculino somente pode aceder ao desejo e ao objeto do desejo, se previamente regulado por uma Lei, metaforizada na expressão, castração. O desejo que habita, anima e atormenta o feminino não pode ser regulado por nenhuma Lei, pois não há lei prévia que a funde, que funde a mulher. A mulher é um ser fora-da-lei.

O domínio de existência da mulher é de um ser não normativizado pelo Édipo, enquanto ser fora-da-lei. Ser que tem um acesso ao gozo, interditado ao masculino.Como não há A mulher, com o artigo definido para designar o universal, por sua essência ela é não toda. Sendo não toda, o sexo da mulher não lhe diz nada, a não ser por intermédio do gozo do corpo. O corpo ancora o feminino, que aguarda uma fundação simbólica, e nem o sabe que lhe é necessária. A Mulher É, existe fora das palavras. A mulher É um Outro para si mesmo. O homem serve aqui de conector para que a mulher se torne esse Outro para ela mesma, como o é para ele.

Assim, devemos apontar o fracasso de uma teorização biológica da relação sexual, de uma sexologia cretinizada, pois o homem transa com o significante, materializado e metaforizado na carne do feminino; enquanto que a mulher consegue copular com o real do corpo do homem. O gozo do homem é gozo do órgão, por isso ele não pode gozar do corpo da mulher. Por não exercer o simbólico, ela tem acesso a um gozo suplementar, a um Outro gozo, somente que deste gozo ela nada sabe, ela apenas o experimenta. Assim, uma das teses mais fortes do Seminário XX de Lacan nos diz são as mulheres que possuem os homens.

Comments are closed.