Por que sou Behaviorista Radical?

Autor: Eduardo Alencar

Resumo

Os estímulos naturais pelos quais estamos expostos e em constante interação, levam-nos as mais diversas / diferentes contingências (história ontogenética). Você se lembra por que foi fazer o curso de psicologia após a saída do ensino médio ou se esperou uns anos entre a saída do 2º grau e o ingresso do ensino superior? Por que escolheu uma determinada abordagem teórica? Por que hoje trabalha em organizações e não em clinica ou vice – versa? Por que não gostava de um professor ou de outro? É exatamente sobre a reflexão destas questões que tentei expor no presente artigo o “por que sou behaviorista radical”.

Palavras Chaves: Behaviorismo radical, formação de psicólogo, análise do comportamento, atuação profissional.

Todos nós fomos gerados, criados e por tanto desenvolvidos de maneiras diferentes, cada um construiu e mantém sua bagagem ontogenética (interações sujeito – ambiente), filogenética (herança de genes, formação fisiológica, biológica, neurológica, características de uma determinada espécie) e cultural (cultura que estamos inseridos e em constante interação), estas são responsáveis pelo fato dos nossos comportamentos serem sensíveis a uma determinada conseqüência e não a outras.

Mesmo irmãos gêmeos gerados pelos mesmos pais, criados na mesma casa, terão diferenças em sua bagagem (repertório comportamental). Neste sentido, trago para iniciarmos o tema deste artigo, os fatos de que: fomos criados em diferentes regiões, interagindo com diferentes personalidades (repertório comportamental), e por tanto, recebendo diferentes tipos de “educação”, freqüentamos diferentes escolas de ensino infantil, fundamental e médio, investimos em diferentes relacionamentos amorosos, recreativos e sociais, despertamos interesses e motivações diferentes, enfim, somos expostos a diferentes contingências de reforçamento positivo e coercitivo que estão relacionado a como respondemos as situações do dia – a – dia.

Para justificar a escolha da abordagem, não vejo outra maneira se não contar um pouco da minha história de vida: no meu caso, iniciei colegial técnico de administração de empresas em uma instituição particular na zona norte de São Paulo – capital, pelo fato de minha mãe ser contadora, profissional autônoma dirigente de sua própria consultoria de contabilidade e na época, contava com o meu ingresso neste negócio. Com 14 anos, eu não fazia a mínima idéia do que faziam os administradores, contadores ou profissionais desta área. Com 15 anos no meu 2º ano técnico, eu já fazia uma vaga idéia das possíveis rotinas de um técnico de administração, acho que ali, comecei a direcionar a minha carreira, até então, trabalhava com a minha mãe atualizando fichas de registros de empregados (Depto. Pessoal), cadastrando dados em sistemas e separando documentos (arquivo), dentre outras atividades de escritório quando recebi uma ligação de uma empresa do seguimento de Rádio e Televisão convidando-me a participar de um processo seletivo para estágio no RH.

Nesta época estava tendo as matérias de psicologia (que abordavam motivação, mecanismos de defesa, relações humanas) e administração de pessoal (recrutamento e seleção, treinamento, cargos e salários, segurança do trabalho, departamento pessoal, etc.), que já me davam a vaga idéia do que era o RH, em paralelo as outras matérias (administração financeira, estatística, administração de produção, direito, economia, informática, etc.) aceitei participar do processo e por sorte ou não, passei. Muito feliz, mesmo ganhando uma bolsa auxílio de R$ 191,00 para trabalhar de Segunda à Sexta das 08:00 às 18:00 horas no Morumbi (sendo que morava e estudava na zona norte), como únicos benefícios VT e restaurante interno, me mantive lá por 6 meses.

Quero mostrar com os dois parágrafos acima o quanto de contingências já me afetavam:

– Estimulação aversiva: Trabalhar longe, ganhar pouco, acordar muito cedo, dormir muito tarde, etc.
– Estimulação positiva: Ganho de experiência, atuação em uma empresa de nome, atuação na área de RH, autonomia financeira, etc.
– Estimulação neutra: As pessoas que trabalhavam lá, que ao conhece-las, deixaram de ser neutras e passaram a ter influência sobre minha vida, os meus professores que deixaram de ser neutros quando passei a interagir no ambiente pedagógico, etc.

Com 14 anos eu queria ser veterinário, mas minha família não tinha dinheiro para pagar uma faculdade nesta modalidade, como fiz colegial técnico, tive menor quantidade de matérias básicas (português, biologia, inglês, física, etc.), o que pode ter sido um dos fatores de eu não conseguir uma vaga em instituição pública de ensino superior, enfim pode ser que eu não tivesse despertado interesse por RH se o meu primeiro estágio do curso técnico tivesse sido no departamento financeiro de uma financeira, ou se eu não tivesse tido aulas com professores pelos quais não fosse sensível as contingências de ensino como por exemplo o professor de estatística.

Este recorte da minha trajetória (experiência com RH, curso técnico, aulas de psicologia aos 14,15 e 16 anos) foi um dos grandes responsáveis pela modelação de minha escolha a formação de psicólogo, já a escolha pela instituição permeia a comodidade frente ao acesso (questões logísticas), disposição de preço, dentre outros estímulos que fizeram o diferencial na escolha pela mesma.

Atualmente sou estudante de psicologia e trabalho na área Organizacional coordenando operações de recrutamento e seleção, recebo uma remuneração bem diferente dos colegas de classe que trabalham em escolas, clinicas e / ou clinicas (acompanhamento terapêutico – AT), neste sentido o salário pode ser um grande estímulo nas formas de responder as contingências profissionais de trabalhar ou não em uma determinada área.

Lembram na graduação quando vimos o experimento do Seligman onde “cachorros” exposto ao que chamamos de “desamparo aprendido” mantem-se na contingência em que suas respostas são consequenciadas por choques mesmo quando tem a opção de elimina-lo, não o fazem? Então, alguns psicólogos trabalham em organizações, não gostam do trabalho, são livres para procurar outro emprego e não o fazem. Em diversas situações, somos responsáveis pela escolha de fazer ou não fazer (frente a disposição de estímulos), em outras, as contingências fazem com que o homem faça coisas mesmo que não “goste” de faze-las.

Algumas pessoas poderiam afirmar, mas eu escolhi fazer psicologia por que eu gosto de ajudar as pessoas…eu pergunto: e por que você gosta de ajudar as pessoas? Não há respostas que não tenham suas raízes na interação entre sujeitos – ambientes, neste sentido, o behaviorismo radical do americano BF Skinner (radical no sentido de raiz e não de radicalismo, ignorância aos eventos encobertos – sentimentos como propunha o behaviorismo metodológico de Watson, focado apenas nos comportamentos observáveis) possibilita ao psicólogo a compreensão da ordem entre os eventos, onde podemos ir além das relações de causa – efeito, chegando a intervenções (e avaliações destas), a compreensões (e o que fazer com elas), enfim, permite analisar funcionalmente uma relação, desde semelhante ao que chamamos de “comportamentos patológicos” até aos comportamentos de “Por que escolho uma profissão ou uma abordagem”.

O behaviorismo radical enquanto filosofia da análise do comportamento, dá a terapia comportamental a possibilidade de comando no que se refere ao planejamento da estratégia geral da terapia e / ou controle de seus detalhes à medida que prossegue, ou seja, quando um tipo de técnica falha em obter mudança em comportamentos, imediatamente outra é tentada, quando ocorrem mudanças comportamentais desejadas, é nítida e pode ser facilmente mantida e/ou reforçada, as observações dentro ou fora do setting terapêutico, com o seu rigor científico permitem a previsão e conseqüentemente, o planejamento de eficazes intervenções.

O psicólogo, independente da abordagem, está em busca de compreensões acerca das maneiras em que as pessoas se comportam, por que fazem X coisas e não Y, trabalham com os seus medos, limitações, vontades, sentimentos, sua sexualidade, dentre outros temas que correlacionam ao nosso objeto de estudo (homem), é exatamente neste sentido, que nossa história de vida (que nos modelou deixando – nos sensíveis a determinados estímulos e não a outros) deixa claro as influências de gostarmos ou não de matemática, gostarmos ou não de neuroanatomia funcional, e por tanto, gostarmos ou não de uma determinada abordagem psicológica. Em paralelo a isso, os professores possuem grande responsabilidade no repasse de conteúdos programáticos, compromisso com a didática, compromisso com o ensino.

Em qualquer abordagem, erro na teoria, significa erro na prática. Para criticar uma determinada abordagem, precisamos conhecer o essencial das outras (visão de homem – mundo, objetivos terapêuticos, metodologias de pesquisa, etc.), na minha atual instituição de ensino, posso afirmar que pude escolher o behaviorismo radical com plena convicção do que eu não concordava em outras abordagens, neste caminho, ao invés de aderir as críticas que ouvia nos corredores frente a abordagem comportamental, me engajei em congressos, literatura e pesquisas para averiguar o que realmente estava por trás de cada questionamento, acho que foi exatamente ai que comecei a ficar sensível ao rigor da analise do comportamento, aprendi a distinguir o behaviorismo radical do metodológico, aprendi a estudar sentimentos, descobri que esta abordagem trabalha com grupos, casais, crianças, idosos, organizações, instituições, luto, medo, limitações, mudança de hábitos, esporte, marketing, dentre muitas outras possibilidades presentes nas “janelas para o mundo” ( como eu “apelidei” os congressos de comportamental).

Compreender o que o homem faz a partir de suas interações com o ambiente nos dá a possibilidade de chegar a raiz de comportamentos, entendendo como estes se dão, como se mantém e como podemos mudar o fluxo de comportamentos, hábitos, sentimentos, inclusive ambientes. É neste sentido que eu me achei no BEHAVIORISMO RADICAL, tal abordagem é condizente com minha história de vida (aprendizagem, sensibilidade a reforçadores específicos, disposição com professores X e não Y, dentre muitos outros fatores).

About Eduardo Alencar

Psicólogo comportamental do Cais/USP (2009), pós graduado em Psicologia Comportamental e cognitiva pela USP, com formação técnica em administração de empresas, extensão universitária em OBM e em Acompanhamento Terapêutico pelo Núcleo Paradigma, especializ

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