Filosofia e Psicanálise Lacaniana I

Quando nos colocamos em marcha, com o objetivo de produzir uma investigação sobre filosofia e psicanálise, a fim de determinar as possibilidades, dificuldades e limites de um diálogo entre esses dois campos do saber, uma primeira questão merece e necessita ser investigada de antemão.
Deveremos ser capazes de determinar se a filosofia constitui-se num resto ou num produto. Contudo, a possível resposta a essa questão supõe que primeiro devamos produzir uma descrição e uma caracterização do que é, ou do que seria, a atividade filosófica.

Aquilo que poderíamos denominar como a tarefa da filosofia, poderia ser compreendido como uma tentativa de descobrir os princípios, as causas, o sentido e o significado de algo.

Como ato privativo do universo constitutivo do mundo humano, no sentido de que somente o ser-humano consegue produzir um saber reduplicativo, reflexivo, parece-nos importante tentar compreender o exato estatuto desse empreendimento. Assim, fazer filosofia não pode constituir-se num anúncio ou numa promessa. Deve ser, ao contrário, um estilo, um modo.

A filosofia é fundamentalmente um ato que se pratica quando se está efetivamente engajado nela. Dessa forma, o discurso filosófico, ou o campo conceitual instituído pela filosofia, constitui-se como atividade radical, no sentido de ir à raiz de algo, visando à produção do sentido referente à totalidade dos entes ou dos fatos. É um discurso que busca e visa atingir e expressar um saber sobre a totalidade.

A filosofia constitui-se, assim, numa operação de reconstrução ou de reposição do sentido e do significado dos objetos que ela investiga. Por conseguinte, a filosofia opera sempre no campo do contrafático, supondo-se que o fático seria o universo do realismo ingênuo, da atitude natural, do senso comum.

A partir daí, e seguindo um passo mais adiante, poderíamos nos colocar a questão se haveria a necessidade e a possibilidade de existir uma filosofia da filosofia. Ou, em outros termos, uma verificação filosófica da postura da filosofia e dos enunciados filosóficos.

Assim chegamos à questão formulada no início de nosso trajeto, estabelecendo que a pergunta filosófica que poderia ser lançada em direção à filosofia, em nossa tentativa de compreender seu estatuto de fundação, poderia ser formulada nos seguintes termos: a filosofia é aquilo que sobra, como resto, daquilo que não se conseguiu dizer, ou é um produto, resultado, como plus, daquilo que se pôde dizer, como conseqüência da ocupação de um topos transcendental?

Esse outro lugar, esse topos onde se posiciona o filósofo para poder operar e produzir seu saber já é um topos transcendentalmente instituído, pois é o local onde se opera a diferença entre, de um lado, o sentido e significado produzidos pelo ato filosófico e, de outro lado, o realismo ingênuo, a atitude espontânea que supõe tudo como já compreendido e explicitado.

Daí que chamamos de diferença transcendental esse espaço ocupado pela dessimetria entre o filósofo e o homem do senso comum. (cont…)

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