Cultura científica no Brasil e Análise do Comportamento

Como pode um país que não cultiva o gosto pelas Ciências nem o hábito do pensamento abstrato gostar de uma visão de mundo nascida de uma filosofia de Ciência Natural?

Provida por um sistema educacional decreptante, nossa população na verdade tem mais propensão a cultivar o hábito de assistir programas dominicais, novelas, e outras bobagens que não contribuem em nada para o Conhecimento (e duvido que para elas mesmas, a não ser a distração que poderia ser feita de diversas outras maneiras menos ultrajantes para o intelecto humano). Muitos poderiam se perguntar por que o Behaviorismo Radical (uma filosofia de Ciência Natural) e a Análise do Comportamento (uma Ciência Natural) não emergem como um conhecimento compreendido e disseminado na fala do público em geral (e até do público específico! – psicólogos). Mas eu vou dar algumas pistas, indícios (em forma de dados é claro!).

Apesar de várias especulações mentalistas que possam ser feitas(é um conhecimento muito difícil de se entender;a ideologia pragmática nunca seria aceita pelos brasileiros; as nossas influencias filosóficas são prioritariamente européias e não norte-americanas…) a verdade pode não estar muito longe…Veja bem, o Brasil na avaliação internacional feita pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico em 41 países, em 2003, ocupou a última e a penúltima colocação em Matemática e Ciências !!!!

Isso significa que mesmo com 8 anos de Ensino Fundamental e 3 anos de Ensino Médio os estudantes brasileiros estão lendo sofrivelmente,não têm domínio da linguagem matemática básica,e pouquíssimas condições de estabelecer relações entre fenômenos, leis e teorias.Que tipo de população adulta estamos formando?

Claro que seria reducionista afirmar que o simples gosto (cultivado geralmente nos bancos escolares) pelas Ciências e Matemática por parte de uma população seriam pressupostos básicos para a Análise do Comportamento se desenvolver no Brasil (mas que iria ajudar muito, com certeza iria!).

Se fosse por isso a correlação positiva, “Desenvolvimento das Ciências e Matemática x Desenvolvimento da Análise do Comportamento”, valeria para todos os outros 40 países, ou seja, lá a Análise do Comportamento estaria mais desenvolvida do que no Brasil. É óbvio que numa análise efetiva das Práticas Culturais um levantamento rigoroso da freqüência, probabilidade, incidência e prevalência de comportamentos encontraria outras variáveis tão significativas quanto o interesse por Matemática e Ciências.

Além disso, você poderia se questionar: “mas esses dados refletem mais a realidade das escolas públicas. Eu me formei em uma escola privada”. E eu perguntaria a você, então: “será que a realidade das escolas privadas reflete a realidade da educação brasileira, ou seja, ele é mesmo significativo?” Lembre-se que o grosso da população é formado pelas escolas públicas e não pelas privadas (existem entre 49 milhões e 39, 3milhões de estudantes na rede pública brasileira. O governo não sabe ainda o número correto apesar dessa margem de diferença que corresponde mais ou menos à população da Somália!).

Se, além disso, a gente for levar em consideração que é nas escolas públicas que os governantes dos países desenvolvidos começam a formar (para terminar nas universidades) a massa crítica e com capacidade de promover a disseminação e desenvolvimento do conhecimento científico – ligados sempre aos interesses da Nação, diga-se de passagem – a realidade brasileira vai nos parecer mais absurda ainda.

Os sinais de falência do sistema educacional brasileira – conseqüentemente da disseminação e do desenvolvimento científico e de todas os ganhos decorrentes dele – são claros: em 2003 , de acordo com o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, 55,4% dos alunos terminaram a 4ª série com resultado crítico e muito crítico em português (incapacidade de ler e compreender apenas frases simples) , esse percentual foi de 51,6% em Matemática( incapacidade de resolver operações básicas) .o mesmo exame detectou que 26,8% dos alunos chegaram á 8ª série com desempenho crítico e muito crítico em português. Em Matemática, o percentual foi de 57%. Ao invés de o professor tentar resolver, junto com a comunidade e governo, situações como essa, piora o quadro ao propagar alguns mitos na educação atual como o que diz que o afeto e o carinho dos professores são imprescindíveis para que o aluno aprenda.

O bom relacionamento em sala de aula não envolve necessariamente afeto e carinho. Não é razoável atribuir um eventual fracasso ás características pessoais do professor – desde que suas aulas sejam boas, evidentemente.

Para quem acha pouco o que foi relatado aqui vejam só a discrepância de publicações científicas de 1995 a 2005: Enquanto o Brasil teve 115.000 publicações editadas a Inglaterra teve 635.000 publicações editadas e Estados Unidos 2.800.000 publicações editadas, isso mesmo dois milhões e oitocentas publicações editadas!!! .Parece brincadeira, mas não é!

A capacidade de um país de produzir sua própria tecnologia é um excelente critério para avaliar a solidez de seu desenvolvimento. Em 2004 a União Européia concentrou 38% da porcentagem de artigos publicados em periódicos científicos internacionais, os Estados Unidos, 33%, a Ásia (exceto o Japão 17%, o Japão 9%, e a América Latina 4%.É o que mostra um levantamento de artigos veiculados em 8700 publicações especializadas e classificadas de acordo com a nacionalidade de seus autores.Esse é um dos métodos mais utilizados para avaliar a produção científica de um país, de acordo com o Institute for Scientific Information (ISI), banco de dados norte-americano que compilou os dados.Enquanto a China torna-se obcecada por formar cientistas –mais da metade dos universitários chineses preparam-se para seguir carreiras ligadas á área da ciência e tecnologia – o Brasil – mesmo tendo quadruplicado sua participação na produção científica internacional – só consegue emplacar 1,8% de participação. Essa bola a gente não vai conseguir matar no peito!

Por isso não seria demais afirmar que a falta de valorização da Ciência, da produção científica, de uma cultura de Ciência no Brasil podem ser fatores maléficos, impeditivos até, para o desenvolvimento da Análise do Comportamento no nosso país. O que os Analistas do Comportamento precisam fazer é pensar a Cultura, a sociedade brasileira em termos de Evolução Cultural, ou seja, ajudar a planejar a nossa sociedade para valorizar a Ciência. Isso pode, indiretamente, influenciar o desenvolvimento da Análise do Comportamento no Brasil e diretamente contribuir com a emancipação e desenvolvimentos econômico e social da nossa população, claro sempre pensando em termos de auto-sustentabilidade e equilíbrio ambiental. Não temos tempo a perder!

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