Uma discussão sobre testes para emprego e critérios de avaliação

[b][size=medium][color=000000][font=Arial]A competitividade e racionalidade nas relações econômicas têm exigido cada vez maior rigor na contratação profissional pelos setores de recursos humanos das empresas. Resta saber se os parâmetros de avaliação adotados têm atendido aos objetivos colocados pelas empresas.[/font][/color][/size][/b]

Alguns concursos públicos e processos de contratação para emprego chegaram a incluir testes de Q.I. na seleção, pensando estarem escolhendo funcionários ou empregados de muitas capacidades. Seriam pessoas com bom raciocínio lógico, matemático, verbal etc., e sem dificuldades expressivas em qualquer área da compreensão humana. Uma seleção tão simplificada e medíocre atenderia aos interesses do mercado de trabalho atual?

Muito se fala hoje em dia em flexibilidade nos negócios e nas relações de trabalho. Essa idéia ganhou força e alcançou o setor de recursos humanos. O empregado deve ser flexível, resolver qualquer problema numa situação emergencial. Como uma massa de modelar, deve encaixar-se perfeitamente em qualquer espaço, adquirir a forma necessária, deixar-se moldar. Questiono os benefícios que essa criatura invertebrada e sem caráter possa oferecer a uma organização empresarial, a médio e longo prazos.“Dizem por aí” que o mundo do trabalho exige que as pessoas sejam comunicativas e bem relacionadas. Bem, isso não é problema para nós, brasileiros, que só precisamos guiarmo-nos pelos exemplos de nossos políticos. Estes, sim, sabem resolver qualquer conflito como se nem conflito fora – recorde fatos recentes e outros históricos, como a Independência e a Abolição da Escravatura. Agora, que já se lembrou, faça comparações com fatos semelhantes ocorridos em outros países. Satisfeitos com os resultados no nosso país?Longe de mim, criticar os que têm a capacidade comunicativa e de dirimir conflitos, pois tenho admiração por tais pessoas, que são tão necessárias à nossa sociedade. Então, não estou eu a criticar a flexibilidade ou a inteligência como qualidades.

Voltemos ao foco principal – os objetivos da empresa a serem alcançados na seleção de pessoal.Os testes de emprego deveriam avaliar se o candidato possui o perfil do profissional que necessitam contratar, isto é, se a sua personalidade amolda-se ao trabalho que deverá desempenhar. Isso significa respeitar e valorizar as individualidades ou peculiaridades, que seriam utilizadas em prol da organização.Penso assim, pois eu mesma já ingressei numa área que não deveria ter trabalhado. Agradeceria se um teste “inteligente” houvesse me excluído, evitando tanto desgaste emocional e prejuízo à clientela. Há dificuldades no trabalho que podemos vencer com esforço e boa vontade, mas há outras que não são contornadas devido às qualidades individuais.Por que estabelecer parâmetros tão rígidos na avaliação para contratação profissional? Por que tentar igualar seres humanos naturalmente diversos? Um pensador famoso por expressar com simplicidade e clareza as suas idéias, Francis Bacon, anunciou que “não se domina a natureza, senão obedecendo às suas leis”. Assim, precisamos estudar a imensidão das capacidades humanas para trabalharmos com “recursos” humanos.Até nós, seres humanos, somos vistos como “recursos”. Sendo otimista com essa visão tão prática, diria que o mercado de trabalho pode beneficiar-se da diversidade humana ao invés de se ater às deficiências individuais que naturalmente hão de existir.

Vamos abolir o termo deficiência e passemos a falar em diferenças.Antes que houvesse tantos diagnósticos como hoje, as pessoas diferentes já estavam no mercado de trabalho e vivendo em sociedade. Para isso, eram educadas por seus pais, familiares e/ou professores com fé e amor e, não, seguindo a pedagogia leiga do “pobre coitado”. Então, é importante acreditar na pessoa, que ela pode ser alguém do jeito que é, ao invés de simplesmente entregar um atestado médico de “problema”.Quem já leu o livro “O alienista”, de Machado de Assis? Nele, o personagem principal é um médico psiquiatra que busca descobrir o que é a loucura. Trabalha com a idéia de que os “normais” são a maioria. Por fim, questiona se seria normal alguém se preocupar tanto com o que é ou não loucura, o que o leva a uma atitude inesperada – leiam o livro.Penso que, para sermos corretos e imparciais, deveríamos diagnosticar a todos, incluindo os neurotípicos (“normais”) e, não, apenas os diferentes. Todos podem trazer prejuízos para as empresas e para a sociedade. Excessiva dificuldade para viver só, falta de criatividade, preocupação com o status, depressão, fobias – as conseqüências disso são imprevisíveis, já que essas pessoas nem sempre expressam seus reais anseios e pensamentos.Avaliemos quais são os prejuízos que pessoas bem “enquadradas” causam para a sociedade. Quanta energia gasta para se manterem as aparências! Fazer o que é certo, atingir o alvo, atender ao cliente, não é tudo o que importa?De forma alguma, estou sugerindo que as avaliações para contratação profissional deveriam ser mais rígidas, excluindo mais pessoas. Apenas estou questionando os critérios de seleção adotados e os prejuízos decorrentes para as empresas e para todos nós.As diferenças individuais poderão ser utilizadas em prol do crescimento da empresa. Para atividades profissionais diferentes, temos pessoas diferentes. São duas faces da mesma moeda: diferenças e potencialidades. Sejamos otimistas e humanos: viremos a moeda!

Comments are closed.