Psicoterapia em grupo: uma saída para a depressão!

Trabalho apresentado em dezembro de 2006 para conclusão do curso “Aperfeiçoamento e Treinamento em Psicoterapia de Grupo do Hospital Universitário Pedro Ernesto/UERJ”, sob a orientação da psicóloga Rosa Maria Carvalho Reis. O presente artigo apenas retrata um dos aspectos abordados no trabalho. O público atendido é da Unidade Docente Assistencial de Psiquiatria do referido hospital.

Esse artigo visa afirmar a importância da psicoterapia analítica de grupo através da experiência da autora reforçada por uma pesquisa realizada na intenção de circunscrever a importância que o referido público intenta para esse tipo de tratamento.
O enfoque teórico é o da Psicanálise, pois que utilizamos essencialmente o conceito de inconsciente, e o manejo da transferência e da resistência. A transferência como uma das expressões da resistência, na prática clínica.

Uma pesquisa ratificou a importância deste tratamento em vários casos de sofrimento psíquico, especialmente naquilo que tem sido comumente chamado de depressão.

A pesquisa foi realizada com 45 pacientes do ambulatório de psiquiatria do HUPE, do setor de psicoterapia de grupo no período de junho a agosto de 2006. Pacientes que já encerraram seus tratamentos, e também alguns que ainda estão em atendimento. As perguntas do questionário foram feitas por telefone, pois consideramos que a vinda daqueles que já interromperam o vínculo com a instituição seria onerosa e demandaria tempo e gastos com convites, que não dispúnhamos. Esses pacientes freqüentaram o ambulatório no período de 2004/02 a 2006. Os bairros de moradia são em sua grande maioria na Zona Norte do Rio de Janeiro com exceção de nove pacientes residentes na Baixada Fluminense.

Dos 45 pacientes (39) são do sexo feminino contra (6) do masculino; (25) casados, (9) separados, (6) viúvos e (5) solteiros. Esses dados se coadunam com os que nos informam que o maior público de nosso atendimento está na faixa etária entre 40 a 60 anos (32), acima de 60 anos são (10), menos que 40 anos apenas (3).

Temos o maior índice de motivos manifestos detectados na pesquisa para a ida ao atendimento grupal a depressão/tristeza (17); seguido de dificuldade de relacionamento com a família (12); em terceiro, dificuldade para falar de seus problemas (8); doença física, pânico e ansiedade ficaram em quarto lugar cada um contabilizando (6) votos cada; por que o médico mandou (5); problemas no casamento (4); nascimento de filho (1) e perda de ente querido (1). Essa questão houve mais de uma resposta para a pergunta, e obtivemos 66 ao todo.
Os encaminhamentos de primeira vez são maioria (28), contra (17) que vêm de grupos anteriores. Porém a prevalência do motivo que os faz permanecer e/ou retornar difere dos motivos de primeira vez. Em primeiro vêm as dificuldades de relacionamento com a família (7); em segundo doença física (5), e empatados em terceiro lugar dificuldades para falar de seus problemas, depressão/tristeza e perda de ente querido (3) cada um.

Podemos inferir então, que a psicoterapia de grupo oferece grande suporte aos quadros de depressão/tristeza, reiterando que o relacionamento entre seres humanos que sofrem contribui para que o espelhamento, isto é, “a ação terapêutica do grupo que se processa através da possibilidade de cada um se mirar e se refletir nos outros e, especialmente, de poder reconhecer no espelho dos outros aspectos seu que estão negados em si próprios” (1997, p.21), sirvam como guia para uma saída do adoecimento. Citação de Osório e Zimerman.
O quadro depressivo neurótico que é manifesto através de uma grande desmotivação e esvaziamento de sentido na vida encontra suporte num grupo, pois a oportunidade de ouvir e se identificar com o sofrimento humano, através do jogo de espelhos que o grupo oportuniza, amplia a possibilidade de percepção e reavaliação dos conceitos significativos da própria vida. Através do amor que passa a experimentar como somente uma mãe compreensiva, ou alguém nessa função pode oferecer, o deprimido sai do seu lugar de ameaçado, de rejeitado, daquele que não tem forças para vencer a hostilidade do mundo.

Num grupo as falas vão surgindo e despertando no outro pensamentos, emoções e outras falas que se coadunam em busca de uma solução que amenize sofrimentos que há anos vêm levando os sujeitos a agirem de modo impensado e repetitivo.

O paciente passa atuar na relação com o terapeuta e com o grupo atualizando suas vivências e experenciando maneiras outras de solucionar antigas queixas. Abdicando do queixume cotidiano, em nome da possibilidade de transformar sua dor em questionamentos que apontem saídas amplas para o viver.

A trama imaginária ultrapassa o ideário individual e encontra seu porto na simbolização sustentada na relação grupal. Toda vez que o sujeito transfere uma vivência primeva e transforma esse viver numa nova posição. Encontrando no grupo, através da relação identificatória, meios de re-significar sua história, ele passa a ser autor de si mesmo, ao menos em alguns episódios.

O grupo, então, é lugar privilegiado para a busca de encontros que permitem uma transformação, pois desperta o amor que acalenta, protege e aceita o outro como ele é. “A psicanálise não oferece a cura como barganha para o sofrimento. A troca é do sofrimento (ou excesso de gozo) do sintoma, que já não satisfaz, pela “miséria banal” para empregar um termo de Freud. Mas, amar e trabalhar, já dão, muito trabalho para os que apostam na vida”. (1997, p.100), Figueiredo.
Concluindo então, é por buscar ser amado, evitar a rejeição, sentir-se valorizado afetivamente, ser completo com um outro, que o ser humano constitui-se como tal, mas também adoece, por ir de encontro a um amor que espera vir do outro. Numa eterna batalha que só reflete um lado da diversidade da vida. Freud sempre apontou o amor como saída para a cura das doenças. “Lado a lado com as exigências da vida, o amor é o grande educador, e é pelo amor daqueles que se encontram mais próximos dele que o ser humano incompleto é induzido a respeitar os ditames da necessidade…” (1980, 352)

Referência Bibliográfica:

Figueiredo, A.C – Vastas Confusões e Atendimentos Imperfeitos – a clinica psicanalítica no ambulatório público – Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1997
Freud, S. – Obras Completas, Vol XIV, Rio de Janeiro, Imago Editora LTDA, 1980
Minayo, M.C.S – O Desafio do Conhecimento – Pesquisa Qualitativa em Saúde –, São Paulo-Rio de Janeiro, HUCITEC-ABRASCO, 1992
Osório, L.C e Zimerman, D. E. e colaboradores – Como Trabalhamos com Grupos Porto Alegre, Artmed, 1997

Obs. Autora: Cláudia Aparecida dos Santos Alcântara
Telefone de contato: (22) 9231 2445 – Cabo Frio e Rio

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