Anorexia não é um mal da modernidade, e que tem raízes religiosas

Quem acredita que a anorexia nervosa é um distúrbio dos tempos atuais, em que a magreza é o símbolo da beleza, está enganado.
Quem acredita que a anorexia nervosa é um distúrbio dos tempos atuais, em que a magreza é o símbolo da beleza, está enganado.
A privação alimentar é um fenômeno muito antigo, do período medieval, que teria origem na mística religiosa. Esta é a base do livro Do Altar às Passarelas – Da anorexia santa à anorexia nervosa (110 páginas, R$20,00, Annablume), fruto da dissertação de mestrado da psicanalista Cybelle Weinberg, defendida na Faculdade de Medicina da USP em 2004, com a colaboração de seu orientador, o professor Táki Cordás.

A obra derruba o conceito de que a anorexia é “um mal da modernidade”. Os autores fazem um passeio pela História e tentam compreender até que ponto o desenvolvimento de um quadro psiquiátrico pode ser influenciado pela cultura. “Percorrendo a literatura especializada, percebemos que o estudo da anorexia de uma perspectiva histórica, contribuiria para a investigação sobre o que deriva diretamente do processo orgânico e o que se configura como influência cultural na origem e manutenção do quadro” justifica Cybelle.

Ao analisar patografias (biografias históricas a partir de um ponto de vista psicológico e psiquiátrico) de santas e beatas da Idade Média, os autores descobriram que o jejum religioso era comum naquela época e se configurava como uma forma de se aproximar de Deus. Séculos mais tarde, ele entrou em declínio.

O estudioso Próspero Lambertini, que foi coroado como papa Benedito XIV, concluiu que “não era o jejum que fazia a santidade, mas a santidade do jejuador que determinava a santidade do jejum”. Outra explicação para o declínio foi “a valorização do jejum como espetáculo, com as ‘virgens jejuadoras’, cuja capacidade de viver sem comer era explicada como milagre”.

A primeira descrição na literatura médica da anorexia nervosa, de acordo com os pesquisadores, foi feita pelo médico inglês Richard Morton, em 1691. O caso de Miss Duke foi o que mais chamou a atenção. Morton descreveu a paciente como “um esqueleto apenas coberto de pele” e afirmou que nunca havia visto nada igual em toda sua prática médica. Segundo os autores, “a perplexidade de Morton, quando obrigado a lidar com uma paciente que parecia ter escolhido o jejum e que recusava ajuda, abriu espaço para a consideração das bases emocionais do transtorno alimentar”.

Os autores afirmam que houve um aumento da incidência da anorexia nervosa nas últimas décadas e relatam alterações significativas em relação à psicopatologia da doença e mudanças na sua forma. A principal delas foi o aparecimento da bulimia nervosa, caracterizada por episódios de compulsão alimentar, técnicas para induzir vômito e um horror mórbido à gordura.

“O sinal de que houve uma mudança na natureza da anorexia nervosa evidencia-se pela preocupação da anoréxica com seu peso e seu horror a engordar”, contam. O aumento da incidência da doença teria como explicação as pressões sociais cada vez maiores para que as mulheres tenham um corpo magro. De acordo com Cybelle, a doença encontra na cultura diferentes formas de expressão, e os ideais variam conforme a época. “Se as santas medievais almejavam a comunhão eterna com Deus, as anoréxicas de hoje se contentam com a glória efêmera das passarelas”, conclui.

Fonte: [url=http://www.usp.br/agenciausp/repgs/2006/pags/227.htm]Agência USP de notícias[/url]

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