Corpos sob pressão

Mauro Fisberg, da Unifesp, fala sobre anorexia e como ginastas e atrizes sofrem dos mesmos dramas que as modelos para ter corpos perfeitos.
Mauro Fisberg, da Unifesp, fala sobre anorexia e como ginastas e atrizes sofrem dos mesmos dramas que as modelos para ter corpos perfeitos.
O pediatra Mauro Fisberg assistiu a um desfile de moda pela primeira vez há dez anos. Não para ver as novidades, mas para acompanhar as adolescentes que trabalhavam como modelos e começavam a ser atendidas no ambulatório que havia acabado de criar na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Em vista da escassez de atendimento à saúde das adolescentes que sonham em ser uma Gisele Bündchen, Fisberg começou há alguns anos a discutir o que fazer com as agências de modelos. Antes era pouco ouvido. Agora, depois da morte da modelo brasileira Ana Carolina Reston e da estudante de moda Carla Casalle, ele tem observado maior disposição para o diálogo e a busca conjunta de soluções.

As modelos, porém, não são as únicas vítimas da pressão por um corpo perfeito, que persegue também ginastas, bailarinos e atores. Fisberg sabe que não conseguirá evitar que meninas e meninos de 12 ou 13 anos entrem nessas profissões de alto risco para a saúde, mas defende uma supervisão mais intensiva para os mais novos, com idade mínima para ingresso no trabalho e a continuidade dos estudos.

Pesquisa FAPESP – Como o senhor avalia a atenção que se deu à morte de duas modelos brasileiras por anorexia?
Mauro Fisberg — É transitória. Não acredito que se vá discutir uma mudança de imagem corporal das modelos. Quem define o padrão é o mercado. Não o nacional, mas o internacional, que movimenta bilhões e bilhões de dólares e não se guia pela saúde. Hoje o manequim procurado é 38, há dez anos era 40 ou 42. Daqui a alguns anos talvez seja 43, 44, 45, não importa. Essa preocupação atual com a saúde é, infelizmente, passageira. Daqui a pouco será esquecida pela mídia.

Mais do que pela gravidade, as duas mortes ganharam visibilidade por a mídia ser formadora de opinião e porque a moda atualmente está associada à magreza, uma situação chamativa e complexa. Infelizmente, há padrão de consumo estético. Assim como os meninos querem ser jogadores de futebol, uma profissão glamorosa e que teoricamente traz altas recompensas, as meninas querem ser Gisele Bündchen. É uma visão absolutamente distorcida. Só um menino ou menina entre milhões da mesma idade consegue ser modelo ou jogador de futebol.

O problema é que essas profissões representam uma oportunidade de ascensão social tremenda, que, ao menos em princípio, não depende de trabalho físico, mas da característica física da pessoa. Existe um grupo de meninas que têm o biotipo adequado para ser modelo, mas nosso medo é que a menina normal busque uma característica que não pode atender porque não tem o corpo de que precisa para ser modelo. Ela vai fazer o máximo para chegar perto desse corpo, e aí há riscos grandes de saúde. Temos visto que mães e pais são grandes incentivadores e aceitam qualquer sacrifício em nome dessa possibilidade de ascensão social.

Fonte: [url=http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3135&bd=1&pg=1]Revista Pesquisa – Fapesp[/url]

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