Doença mental, uma sombra na sociedade

Na ideia geral das pessoas, a doença mental é associada à deficiência mental e, ao mesmo tempo, o doente mental é encarado como um indivíduo que não é capaz de pensar (quando há muitos que são mais inteligentes do que a maioria da população) e ao qual lhe é associado um factor de perigosidade.

Uma equipa da Medicina & Saúde® passou algum tempo no Hospital de Júlio de Matos (HJM), procurando conhecer a história e a evolução desta instituição, ao mesmo tempo que visitava alguns dos serviços que procuram, essencialmente, tornar possível a reabilitação e integração do doente mental na comunidade e fora dos muros. Muros esses que, ainda hoje, desviam olhares de pessoas que conside­ram a doença mental como uma realidade à parte, como uma sombra da sociedade.

HJM é resultado de uma herança

Após o assassinato do Prof. Miguel Bombarda, director do Hospital de Rilhafoles – actual Hospital de Miguel Bombarda – por um doente, nas véspe­ras da Revolução Republicana, o Prof. Júlio de Matos, que exercia Psiquiatria no Porto, foi chamado para Lisboa.

No entanto, antes dessa sucessão acontecer, encontrava-se em Rilhafoles Salgado Araújo, um senhor de posses, que havia sido indevidamente internado, por obra de um sócio e de um médico. Supõe-se que, em algumas visitas a Rilhafoles, Júlio de Matos teria tomado conhe­cimento deste caso e, possivelmente, em conjunto com Miguel Bombarda, deu alta a Salgado Araújo.

«É o próprio Júlio de Matos que chega à conclusão de que não havia, de facto, motivo para o internamento de Salgado Araújo. Este último, dada a sua experiência e passagem “forçada” pelo manicómio, ficou sensibilizado para a área da saúde mental e revoltado com a situação de pobreza nas condições de tratamento aos doentes mentais», conta-nos o Dr. Luís Gamito, director do Hospital de Júlio de Matos.

Assim, deixa no seu testamento a vontade expressa de direccionar uma parte do seu legado para a construção de um novo estabelecimento, designado por Novo Manicómio de Lisboa, que servisse para o internamento dos doentes mentais e que se deveria reger por normas de grande humanidade e com boas condições asseguradas.

Júlio de Matos, agora em Lisboa como director do Hospital Rilhafoles, resolve então comprar uma área, que pertence hoje ao Parque de Saúde de Lisboa, e cons­trói o Hospital de Júlio de Matos, inaugurado a 2 de Abril de 1942, tendo por referência modelos progressistas na época, nomea­damente, na Europa Central.

De facto, «na altura, foi considerado o melhor hospital da Europa», alerta-nos Luís Gamito. Algo que se pode justificar, precisamente, pela relação harmoniosa que se estabeleceu entre os espaços verdes (com espécies de plantas que não existem noutro lado do País) e as estruturas edificadas», salienta Luís Gamito.

O hospital foi concebido como uma instituição de assistência na área dos pro­blemas do sistema nervoso. Neste âmbito, foram criadas outras especialidades (como Neurologia, Endocrinologia, Sexologia, Oftalmologia, Medicina Inter­na, entre outras) que não apenas o campo da Psiquiatria, no qual o hospital era pioneiro em relação às novidades que surgiam. Esta orientação procurava cortar laços com o passado denegrido da Psiquiatria e com a noção dos asilos psi­quiátricos.

Com esta diversidade de especialidades, pretendia-se passar a mensagem de que «o Homem é um ser complexo que, como tal, tem de ser bem estudado e para isso precisamos de contar com o olhar de várias abordagens. Não é suficiente dizer que o indivíduo é doente mental. É preciso compreender as razões», alerta-nos o director do HJM.

No entanto, no fim dos anos 50, o hospital entra numa fase de degradação por falta de verbas. Em 1971, Luís Gamito chega ao Júlio de Matos como voluntário e confessa-nos que «os tempos eram de grande miséria, com condições deploráveis, embora existisse uma certa dignidade do ponto de vista médico».

Desmistificar a doença mental

Depois do 25 de Abril (1974), a situação começa a alterar-se, até porque existia uma outra atitude política que auxiliou à renovação do hospital. Actualmente, «pode­mos dizer que o hospital é mais Parque de Saúde e menos asilo psi­quiátrico».

As valências são várias, desde as clínicas psiquiátricas às consultas diferenciadas, ao serviço de reabilitação, à psicoterapia comportamental e à residência psiquiátrica, entre outras. Ao todo, são cerca de 30 pavilhões com múltiplas funções e com o intuito de prestar o melhor dos cuidados ao nível da saúde mental.

A doença mental deve ser entendida com a mesma naturalidade com que encaramos uma outra patologia, sem conotações e estigmas. Todos nós, eventualmente, estamos sujeitos a ter problemas do foro psicológico, mais ou menos graves.

É neste sentido que o HJM promove vá­rios eventos culturais, contando com «a ajuda dos amigos – os artistas e os profissionais de comunicação social – mais sensibilizados para tudo o que diz respeito à natureza humana», para desmistificar a doença mental. Essas iniciativas têm sido classificadas como positivas, tendo em conta os objectivos de ter uma instituição de portas abertas à sociedade, em vez de ser considerado um gueto, divorciado da restante comunidade.

Para além desta actividade, existem também serviços específicos orientados para a reabilitação e integração do doente nas famílias e sociedades. O esforço desenvolvido por todos os profissionais deste hospital é notório, mas a batalha é dura quando se tem por inimigo o «monstro» do estigma.

Serviço de Reabilitação

Integrar na sociedade os doentes mentais é um dos grandes objectivos do Serviço de Reabilitação do Hospital de Júlio de Matos. Para isso conta com várias ver­tentes, nomeadamente a residencial, que é classificada como a porta de entrada do Serviço. Esta vertente encontra-se estruturada em diferentes unidades.

Como explica o Dr. Ricardo França Jardim, director do Serviço de Rea­bilitação, «a Unidade de Transição recebe os doentes que saem do internamento. Por norma, são doentes agudos ou de evolução prolongada em risco de institucionalização. Por isso, passam do internamento para esta unidade, na qual se trabalham algumas competências em actividades da vida diária e sociais que os doentes com psicose, normalmente esquizofrenia, perderam».

Por competências entenda-se desenvolver aptidões para realizarem por si tarefas como os cuidados pessoais e de higiene, o tratamento de roupas e a limpeza do quarto, entre outras. A intenção é a reinserção na família ou em outras estruturas residenciais, como é o caso da Casa das Tílias, uma Unidade de Treino Residencial (ver caixa).

Com capacidade para 10 utentes (cinco quartos de duas camas, uma sala, casa-de–banho, lavandaria e cozinha), os doentes são supervisionados por uma enfermeira e por um terapeuta ocupacional que fazem visitas diárias, no sentido de orientá-los para a aquisição de competências in loco.

«O objectivo é, progressivamente, pro­curar criar neles uma autonomia maior na sua actividade de vida diária. Os doentes que passam pela Casa das Tílias são utentes com perspectiva de alta do hospital e reinserção na sociedade. Começa-se por um programa mínimo, no qual se pede aos doentes que façam a limpeza da residência, preparem a mesa para as refeições, etc. Numa fase posterior, com o fim de aumentar a indepen­dência dos doentes, em vez de serem fornecidas as refeições confeccionadas, são entregues os produtos em bruto, ficando a preparação das mesmas a cargo deles, no início, uma vez por semana e posteriormente diariamente. Na última fase, são responsáveis pelas próprias compras dos alimentos e outros produtos», esclarece Ricardo França Jardim.

Apesar de este ser um programa de evolução lenta, a Casa das Tílias já vai na segunda leva de utentes. O sucesso tem sido francamente positivo, na medi­da em que a maior parte dos doentes, relativamente ao primeiro grupo, foram reinseridos na família ou na Casa de S. Bento. Considerada uma Unidade de Vida Autónoma, a Casa de S. Bento conta com cinco utentes, desde Julho de 2001, que saíram da Casa das Tílias.

Outro programa do Serviço de Reabilitação é a Unidade de Vida Apoiada, formada pelas Casas de Santa Rita e das Olaias (ver caixa), duas estruturas residenciais para doentes com relativa autonomia, mas que carecem dos cuidados mínimos de apoio médico e de enfermagem.

De acordo com o director do Serviço, «há uma série de doentes institucionalizados há muitos anos, sem relação com os familiares e em faixas etárias elevadas, que têm uma actividade pragmática boa e não precisam de estruturas hospitalares «pesadas». Na Unidade de Vida Apoiada, os utentes têm as suas tarefas organizadas, como a limpeza, embora não cozinhem. Para além da supervisão da enfermagem, há uma reunião semanal com a equipa terapêutica».

Paralelamente, desenvolveram, na Uni­dade de Terapia Ocupacional (ver caixa), ocupações para os doentes que estão em todo este processo (do Serviço de Reabilitação), recebendo também doentes agudos, doentes de evolução prolongada e doentes externos.

Esta Unidade está orientada para os doentes manterem as capacidades que têm ou adqui­rirem algum tipo de novas capacidades. Está, por isso, estruturada num conjunto de actividades oficinais (papel, carpintaria, culinária, bar e lavandaria), socioculturais e recreativas (atelier de artes plásticas, sessão de movimento e psicodança). Cada doente, de acordo com as suas capacidades e necessidades, tem, deste modo, um programa organizado pelos terapeutas ocupacionais.

O Hospital de Dia é outra estrutura, mas de internamento parcial (os doentes dão entrada às 9 horas e saem às 16 horas, com excepção dos fins-de-semana), «orien­tada para doentes psicóticos jovens, doentes que saíram do internamento a tempo inteiro e doentes com situações graves que não são possíveis de se resol­verem em ambulatório, mas que não têm a necessidade do internamento a tempo inteiro». O Hospital de Dia tem uma equipa constituída por dois psiquiatras, uma psicóloga a tempo parcial, uma assistente social e três enfermeiros.

Formar e empregar

Relacionadas com o Serviço de Reabilitação, existem ainda duas estruturas de formação profissional. No Escritório Europa, os doentes que já tiveram alta, com capacidade e motivação para integrar o mercado de trabalho, podem frequentar o Curso de Formação Profissional em Novas Tecnologias de Informação, co-financiado pelo Fundo Social Europeu.

Outra estrutura, a Cooperativa Tílias­coop (empresa de inserção profissional) foi formada por técnicos da Unidade de Transição e organiza Cursos de Formação e Profissionalização em Manutenção e Conservação de Espaços Verdes, sendo co-financiada pelo I.E.F.P.

Tal como noutros sítios, os 14 forman­dos recebem um subsídio de formação que corresponde ao ordenado mínimo e, poste­rior­mente, na fase de profissionalização, consoante o progresso, surgem varia­ções no vencimento atribuído. Os principais clientes da Cooperativa Tíliascoop são o próprio Hospital de Júlio de Matos e «a Junta de Freguesia do Lumiar, que é o nosso melhor cliente, actualmente», afirma Ricardo França Jardim.

Uma última iniciativa do Serviço, mas não menos importante, é o emprego protegido. A inserção de um doente mental na sociedade é complexa, sendo que, por vezes, o mais difícil é conseguir um trabalho e mantê-lo.

Deste modo, os doentes com alta vêm ao hospital para trabalhar na Lavandaria, no Quiosque e/ou no Clube Horizonte e recebem um pequeno ordenado por mês. Por outro lado, há também um outro objectivo muito específico:

«Depois de um doente ter alta, se o colocarmos “em casa” e não fizermos nenhum tipo de acompanhamento, é normal que a apatia, a tendência para o isolamento e o autismo regressem. Com estas estruturas, o doente vem ao hospital para prestar um serviço e acaba por conviver com os ou­tros e sair do seu isolamento. Isto permite fazer-nos um follow-up desinstitucionalizado», conclui Ricardo França Jardim.

Unidade Comunitária
de Cuidados Psiquiátricos
de Odivelas

À Clínica Psiquiátrica I, uma das quatro que integram o Hospital de Júlio de Matos, dirigida pela Dr.ª Teresa Gil, está associado o internamento misto para doentes agudos. Para além disso, há 15 anos, a equipa da Clínica Psiquiátrica I começou a introduzir, em termos de projecto tera­pêutico, uma diferenciação, fora dos muros da instituição.

«Procurou-se, à semelhança dos centros de saúde mental que vieram a desaparecer, desenvolver um serviço psiquiátrico comunitário para tratar os doentes na sua área de residência, junto das suas famílias e também próximo dos médicos de família e clínicos gerais que os assistem e fazem uma primeira triagem das suas patologias em geral. Muitas queixas que parecem somáticas escondem, muitas vezes, alguma patologia do foro psi­quiátrico», esclarece Teresa Gil.

Rapidamente percebeu-se, então, que seria importante haver uma articulação bastante próxima entre os médicos de família, os clínicos gerais e a assistência psiquiátrica. Dentro desse modelo, a equipa procurou estudar e fazer a sua própria formação para perceber que tipo de resposta poderia dar nesse sentido.
A Unidade Comunitária de Cuidados Psiquiátricos de Odivelas arrancou, em 1990, num edifício em Odivelas, inicialmente com apenas uma Consulta Geral de Psiquiatria e, em 91, com a área de Dia, que permite a reabilitação e inserção social e familiar do doente mental.

«No início, uma das prioridades foi, também, uma ligação mais intensa aos centros de saúde, tendo-se feito, na altura, várias acções de formação e encontros de saúde mental e cuidados de saúde primários, no sentido de participar, motivar e informar, numa espécie de articulação entre nós, os especialistas da área, e os profissionais e doentes dos centros de saúde», afirma a Dr.ª Ana Cristina Farias, psiquiatra e coordenadora da Unidade Comunitária de Cuidados Psiquiátricos de Odivelas.

Diferenciar as áreas interventivas da unidade

Progressivamente, foi-se verificando que era importante desenvolver outro tipo de actividades e o projecto foi sendo desenvolvido, «apesar das grandes dificuldades em relação ao número de profissionais que formam uma equipa multidisciplinar — médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e terapeutas ocupacio­nais, uma vez que este tipo de trabalho envolve sempre uma equipa multidisciplinar», afirma Teresa Gil.

Em todo o caso, e contornando sempre os contratempos, foi possível diferen­ciar algumas consultas de especialidade, nomeadamente a Consulta de Alcoologia, Tabagismo, Terceira Idade e grupo de apoio às famílias, entre outras. A preocupação de interligar áreas e de prestar serviços complementares e completos esteve sempre presente, até porque se considera essencial para permitir a reabilitação do doente mental.

A directora do Serviço de Clínica Psiquiátrica I salienta que «com os novos antipsicóticos permite-se uma melhor adesão à terapêutica e resultados mais eficazes nos seus sintomas negativos. Ora, se ao nível terapêutico temos essa diferenciação, é necessário que, depois, tenhamos outro tipo de respostas que lhes permita retirá-los do seu isolamento – de casa e do quarto, onde muitas vezes se refugiam».

A área de Dia, o Hospital de Dia, os fóruns sociocupacionais e as articulações com outras estruturas da área, como a Câmara de Odivelas, os Bombeiros e o Centro de Emprego, entre outros, permitem criar actividades promotoras da inserção social e do desenvolvimento de competências sociais.

De acordo com Teresa Gil, «é possível treinar determinado tipo de actividades que, posteriormente, melhoram a sua integração, ou na família ou, se possível, numa ocupação profissional. Os doentes necessitam, cada vez menos, do internamento e necessitam mais de uma assistência adequada para garantir-lhes qualidade de vida».

Para algumas patologias do foro psi­quiátrico é essencial pensarmos numa complementaridade entre a terapêutica e a reabilitação.

«Tratam-se os sintomas, a pessoa fica com mais capacidades, mas se não se fizer mais nada os doentes mantêm a tendência ao isolamento. Daí a necessidade de se criar outro tipo de abordagens para estas doenças que devem incidir em áreas do social, familiar, profissional e mesmo individual, no que diz respeito às próprias capacidades do doente, no sentido de recuperar as perdidas e ganhar outras», salienta Ana Cristina Farias.

Além disso, a articulação da unidade com outras estruturas da comunidade possibilita uma alteração de conceitos criados relativamente ao doente mental. Para a Dr.ª Noélia Canudo, psicóloga e supervisora dos psicólogos da unidade, «o doente mental é tradicionalmente visto como uma pessoa à parte, mas o contacto próximo com instituições da comunidade tem auxiliado no rompimento deste estigma. Por exemplo, fizemos alguns debates em escolas sobre saúde mental que motivaram os alunos a olhar para o doente mental de uma forma mais adequada».

A inserção na comunidade de Odivelas tem sido bastante positiva e agora faltam outras condições, como um espaço maior e mais recursos humanos, que possibilite uma maior diferenciação das intervenções.

Para Ana Cristina Farias, «a evolução lógica de um projecto como este seria a abertura de residências na comunidade e a formulação de projectos de emprego protegido, no sentido da melhoria da qualidade dos cuidados».

Actualmente, a Unidade conta com consultas de Psicologia, Psiquiatria, Alcoologia e Tabagismo, uma área de Dia e um Hospital de Dia, no qual os doentes têm a oportunidade de desenvolver actividades no atelier de artes plásticas, que assume uma função terapêutica, na me­dida em que permite observar-se a evolução do doente e funciona como uma outra forma de comunicação – o doente consegue descobrir e exprimir coisas que de outra forma não seria capaz de transmitir.

A sala de Informática para formação na Internet, os fóruns sociocupacionais, a culinária, a dançoterapia e a sessão de movimento são outras das actividades presentes na unidade. A Associação Comunitária de Saúde Mental de Loures Ocidental também se situa no mesmo edifício e rege-se pelas mesmas intenções e princípios da unidade.

Com um intuito ocupacional e tera­pêutico, esta associação conta o trabalho de uma assistente social, de uma psicóloga e de um professor de artes, que gerem e fazem o desenvolvimento de actividades como sessões de movimento e relaxamen­to, acções com o objectivo de fomentar a comunicação e as relações interpessoais, jogos e saídas ao exterior. Nesta associação funcionam, ainda, os ateliers de encadernação, carpintaria, reciclagem do papel e artes plásticas para os utentes que apresentam uma faixa etária dos 20 aos 65 anos.

Grupo de Teatro Terapêutico

Desde finais de 1968 que o Grupo de Teatro Terapêutico (GTT) existe e à frente dele tem estado João Silva, encenador e responsável pelo GTT. A ideia deste grupo partiu, na altura, de alguns médicos do hospital e, desde então, tem mantido a sua actividade. A proposta inicial era realizar uma peça, apresentada como trabalho de fim de ano.

A iniciativa resultou e depois foi dar continuidade ao grupo. Ao longo de 36 anos, o GTT tem passado por dias melhores e dias piores, no entanto, o resultado é positivo.

«A apresentação de dezenas de traba­lhos para milhares de pessoas tem provado a eficácia e a utilidade do grupo na possibilidade de servir a comunidade», adverte João Silva.

No fim dos anos 70, o grupo estreia as peças no hospital e dá início a apresentações no exterior, «levando os doentes-actores à comunidade, o que ajuda a desmistificar estigmas». A partir de 1997, o GTT passou a estrear os trabalhos no exterior do hospital, em lugares como o Teatro Maria Matos, o Instituto Franco-
-Português e a Culturgest, entre outros, e a apresentá-los, posteriormente, sempre que possível, na instituição.

No corrente ano, «Tordos à Deriva» estreou no Salão Nobre do Hospital Júlio de Matos e concretizou 18 exibições. Agora, prepara-se uma comédia.

«Nas reuniões, a maioria dos doentes-actores manifestou o interesse em realizar uma farsa ou uma comédia, visto que anteriormente as peças foram mais orientadas para o género dramático», explica o encenador.

Deste modo, João Silva escreveu A Borralhona, uma adaptação livre do conto tradicional A Gata Borralheira, no formato de «simbologia humorista». Esta é, com certeza, mais uma peça com potencial para brilhar dentro e fora dos muros do Hospital de Júlio de Matos, transpondo fronteiras e estigmas, referentes à doença mental, demasiado enraizados e possibilitando um contacto mais directo com a sociedade.

O GTT consegue, pelo seu trabalho, conciliar duas vertentes: a terapêutica com a artística/cultural, possuindo, deste modo, características pouco vulgares. Os actores são, de facto, doentes do Júlio de Matos, ou do exterior, que «vão aparecendo no Grupo de Teatro por recomendação dos médicos ou por iniciativa dos próprios utentes, desde que tragam uma autorização médica», afirma João Silva, salientando:

«A abordagem terapêutica, aliada a uma vertente artística/cultural, ajuda os actores a ultrapassar barreiras, proporcionando-lhes mais confiança e vontade. Aqui o trabalho também tem de se reger por uma certa sensibilidade e permite-se a liberdade que é possível, com algumas regras, para fazer surgir a criatividade.»

Porém, desengane-se quem pensa que aqui não há profissionalismo.

«Os actores acreditam no que estão a fazer porque aqui também as pessoas acreditam nelas e esse é o maior incentivo que se pode dar. Além disso, procura-se que o empenho e o profissionalismo seja idêntico ao de lá fora. Posso mesmo afirmar que a construção dos espectáculos é igual à construção de um outro tipo de trabalho lá fora», adverte o responsável pelo GTT.

E para que este grupo de teatro, com componentes menos usuais, continue a progredir no seu trabalho, com objectivos louváveis, há «necessidade de mais apoios de entidades exteriores ao hospital, como o Ministério da Cultura, por exemplo», apela, em tom de conclusão, João Silva.

Unidade de Terapia Ocupacional

Os corredores não enganam. São cores e formas que inundam as paredes e que nos levam de visita a outros mundos expressos nas telas. Estes mundos são construídos pelos doentes e conseguem exprimir fantasias, desejos, emoções e pensamentos para os quais, muitas vezes, faltam as palavras. É deste modo que eles se nos apresentam no seu mais íntimo porque, de outra forma, é difícil de comunicar.

O desenho e a pintura são actividades desenvolvidas no atelier das artes, que integra a Unidade de Terapia Ocupacional. Além das artes, existem ainda ateliers de carpintaria, reciclagem, encadernação e cozinha, entre outros.

De acordo com Maria João Gaudêncio, te­rapeuta ocupacional, «o recurso a actividades deste género tem como fim o desenvolvimento das competências. Por exemplo, na actividade criativa procura-se, através da expressão escrita, verbal ou até por dese­nho, debater com os doentes agudos um conjunto de ideias que nos permitem, depois, trabalhar com esses conteúdos e que nos ajudam a perceber como o internamento está a ser vivido por eles e que emoções estão mais presentes, entre outras noções».

Outro exemplo é a sessão de movimento que envolve duas fases: a mobilização articular e o relaxamento. Na primeira, através de jogos interaccionais procura-se corrigir padrões posturais viciosos, isto é, «corrigir as posturas cifóticas, que são indicadores e consequências, muitas vezes, do quadro clínico dos doentes. Além disso, nas doenças mentais há um “fechar em si” e ao pedirmos interac­ção estamos a contrariar a tendência deles», esclarece a terapeuta ocupacional.

No relaxamento, há uma orien­tação para «repor as energias do doente e reproporcionar o equilíbrio pelo desgaste anterior realizado», salienta Maria João Gaudêncio.

Libertar e descarregar as tensões acumuladas, adquirir uma sensação de bem-estar são outros dos objectivos do relaxamento.
O ba­lanço, por parte dos doentes, é positivo.

«Gostei da sessão e gostei muito do relaxamen­to»; «Sinto-me com mais energia»; «Gostei de todos os exercícios» – foram alguns dos comentários ouvidos no fim da sessão.

Unidades de Vida Apoiada e de Treino Residencial

Casa das Olaias

Inserida na Unidade de Vida Apoiada, a Casa das Olaias é uma estrutura residencial destinada a doentes de evolução autónomos que, apesar de serem relativamente autónomos, necessitam de alguns cuidados mínimos médicos e de enfermagem. Aqui os residentes têm uma faixa etária mais elevada, entre os 50 a 60 anos, e o principal objectivo não é tanto a pretensão de adquirir autonomia, mas, pelo menos, manter as capacidades.

Todas as actividades procuram, nesse sentido, estimular a partilha entre o grupo, uma vez que, dada a idade avançada e pela própria doença mental, há uma maior predisposição para o isolamento. Os traba­lhos artesanais, por exemplo, têm o objectivo de congregar o grupo, unindo-os para a realização de uma mesma actividade, como a elaboração de um tapete. Para tal existe uma escala de tarefas com várias perspectivas pedagógicas.

Casa das Tílias

A Casa das Tílias, inserida na Unidade de Treino Residencial, com capacidade para 10 utentes, tem, neste momento, seis residentes do sexo masculino, com a particular característica de serem doentes em vias de desinstitucionalização. Neste sentido, e com o objectivo de manter, ganhar e não perder capacidades, procura-se formar um projecto de vida.

Os residentes são responsáveis pela manutenção da residência (limpeza e conservação das instalações), pelo tratamento das roupas e, consoante os progressos, podem ou não ter as refeições a seu cargo. Todas as semanas há uma reunião com a equipa terapêutica, que é uma equipa multidisciplinar, na qual se discute a organização da casa, o relacionamento entre eles e onde se procura resolver eventuais conflitos.

Serviço
de Reabilitação

• Unidade de Transição
• Unidade de Treino Residencial:
o Casa das Tílias
• Unidade de Vida Autónoma:
o Casa de S. Bento
• Unidade de Vida Apoiada:
o Casa de Santa Rita
o Casa das Olaias
• Unidade de Terapia Ocupacional
• Hospital de Dia
• Escritório Europa
• Cooperativa Tíliascoop

A filosofia da intervenção comunitária

O projecto da Unidade Comunitária de Cuidados Psiquiátricos de Odivelas foi desenvolvido pelo Dr. João Cabral Fernandes que desempe­nhou, durante muitos anos, a função de coordenador e actualmente continua ligado à unidade.

A organização dos serviços de saúde mental e dos serviços de psiquiatra devem estar, fundamentalmente, nos hospitais gerais, como filosofia. Esta realidade deve ser adaptada a cada País em concreto. No caso de Portugal, não há hospitais gerais que comportem os serviços de psiquiatria.

«Neste sentido, a equipa da Clínica Psiquiátrica I, das quatro que existem no hospital, fez uma transferência de recursos para estas instalações, privilegiando a filosofia da intervenção comunitária», refere João Cabral Fernandes, acrescentando:
«Por essa filosofia entende-se a criação de serviços acessíveis, racionais, integrados e que possam fazer a ponte entre os cuidados primários e os hospitais gerais.»

A equipa, em 89, começou por equacionar e reflectir no projecto a concretizar e, em 91, arrancaram com a área de dia, dirigida a doentes psicóticos com menos capacidades de reabilitação, mas que necessitam de cuidados e, em 97, surge o Hospital de Dia.

«Conseguimos todos os anos ir conquistando recursos. Como temos uma filosofia que não é só de “psiquiatrização” fomos tendo também outro tipo de técnicos, como é o caso da dançoterapeuta, de monitores, terapeutas ocupacionais e psicólogos, por exemplo», adverte, em tom de conclusão, João Cabral Fernandes.

Texto: Teresa Pires

Fonte: [url=http://www.medicosdeportugal.iol.pt/action/2/cnt_id/75/]Médicos de Portugal[/url]

Comments are closed.