O Crepúsculo dos Sonhos

Davi Wood* Ao leitor ou leitora, analista do comportamento ou não, saiba que muitas vezes nós, os skinnerianos, somos chamados de ingênuos, idealistas e utópicos. Muitas pessoas acreditam que sonhamos acordados ou que somos os bobos da corte, pelas soluções que propomos para os problemas comportamentais. Mas não se assuste, pois isso é, pelo menos a meu ver, um elogio. Vou explicar por que.

Em toda sua obra, Skinner sempre esteve preocupado com o desenvolvimento de uma ciência do comportamento efetiva na resolução dos problemas humanos, dos financeiros, afetivos, aos existenciais. Com base no método científico ele descreveu os princípios responsáveis pela seleção dos variados repertórios comportamentais dos organismos, e afirmou com base nas conseqüências que havia observado, que um dado princípio ou relação era mais eficiente que outro no controle do comportamento. O que veio a ser revalidado inúmeras vezes experimentalmente. Desde então, Skinner sempre advogou a aplicação do reforçamento positivo em substituição à punição. Assim, a área aplicada da análise do comportamento, também sempre priorizou o emprego do reforçamento positivo para promoção de mudanças comportamentais. Bem, creio que já está ficando claro porque os adjetivos anteriormente mencionados e a nós dirigidos, são elogios. Como a maior parte do mundo é, na maior parte do tempo, punitivo, quando nós atuamos de forma diferente nós parecemos ingênuos, é como se não soubéssemos como o mundo “realmente funciona” e quando propomos que esta forma diferenciada de relação com o mundo seja extrapolada, do trato com o vizinho até a diplomacia internacional, somos vistos como idealistas e utópicos. O que infelizmente essas pessoas não sabem é que nós fazemos nosso próprio ambiente, portanto, como tudo “realmente funciona” depende de quais condições criamos, que tipo de relações estabelecemos com nosso mundo. Talvez isso ocorra pelo fato das pessoas vivenciarem, praticamente, apenas os efeitos do controle aversivo, tornando-se assim céticas quanto à outra forma de relação; muito mais produtiva no agir, pensar e sentir. Mas essa visão das pessoas a nosso respeito não é de toda má. Skinner dizia que através de uma tecnologia comportamental adequada poderíamos (re) construir um mundo melhor de se viver, e principalmente: com alguma chance de sobrevivência. Entretanto, para que isso seja possível temos que permanecer sempre fiéis aos dados do mundo natural. Por isso, que os elogios em questão são bons, eles nos mostram que ainda permanecemos como uma forma diferenciada de interação, uma alternativa ao uso da punição. Por outro lado, é lógico que seria melhor que nós não fossemos os únicos privilegiados com tais elogios. Fica claro que as nossas propostas estão se mantendo como saídas possíveis, em parte, por contingências aversivas a nós mesmos. Mas sendo assim, cabem duas perguntas: conseguiremos nos manter como uma variação enquanto prática cultural, passível de seleção, mesmo sob pressão crescente das demandas sociais por uso e defesa da punição? Em qual dos dois sentidos será o nosso crepúsculo dos sonhos? * Psicólogo Mestrando em Psicologia Experimental pela PUC-SP e mantenedor do site [url=http://janeladeskinner.blogspot.com]http://janeladeskinner.blogspot.com[/url] e do grupo de discussão sobre questões sociais [url=http://br.groups.yahoo.com/group/andaimedomundo/]http://br.groups.yahoo.com/group/andaimedomundo/[/url].

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