Aulas práticas sem animais

Estudo aponta semelhanças no grau de aprendizagem dos alunos submetidos a aulas distintas, com e sem o uso de animais, em demonstrações práticas do curso de medicina
Estudo aponta semelhanças no grau de aprendizagem dos alunos submetidos a aulas distintas, com e sem o uso de animais, em demonstrações práticas do curso de medicina
Ao comparar o nível de aprendizagem de dois grupos de alunos do curso de medicina que tiveram aulas práticas demonstrativas com e sem utilização de camundongos, pesquisadores do Centro Universitário Lusíada, em Santos (SP), concluíram que é possível manter a mesma qualidade de ensino com a substituição dos animais por outras fontes de conhecimento.

O estudo se concentrou na disciplina de histologia, que estuda os tecidos do corpo humano, em aula prática referente à demonstração de técnicas citológicas. O conteúdo ministrado aos 128 alunos, divididos em duas turmas, foi idêntico, com diferença apenas na coleta das células. A primeira turma coletou células dos órgãos de animais sacrificados e a segunda utilizou células da mucosa oral dos próprios alunos.

O trabalho, conduzido pelos professores Renata Diniz, Ana Lúcia Duarte e Charles de Oliveira, foi publicado na Revista Brasileira de Educação Médica. “Como a finalidade da aula era visualizar características celulares, não importava se a célula fosse de humanos ou de animais, já que componentes de interesse como o núcleo e o citoplasma são iguais em ambos os casos”, disse Renata à Agência FAPESP.

Com as demonstrações práticas das células encerradas, um questionário para avaliação da aprendizagem foi aplicado nos alunos. As respostas foram inseridas em um banco de dados informatizado e analisadas de maneira quantitativa e qualitativa. “A análise estatística apontou desempenho semelhante das duas turmas por não haver diferenças significativas de acertos e erros nas questões”, afirma.

Segundo ela, o trabalho não propõe a eliminação total dos animais em sala de aula. “A idéia é apenas alertar professores da área de saúde para a existência de outras metodologias de ensino que possam oferecer o mesmo nível de aprendizagem respeitando a vida animal”, explica Renata, ressaltando que, após os resultados do estudo, a disciplina de histologia do Centro Universitário Lusíada não utilizou mais camundongos em aulas práticas.

Outra metodologia bastante utilizada no exterior e que está se tornando freqüente no Brasil, explica Renata Diniz, são os modelos que imitam peles e órgãos de animais e de humanos. “Hoje existem modelos que imitam a elasticidade da pele para que o aluno consiga praticar técnicas cirúrgicas. A vantagem é que o mesmo modelo pode ser utilizado durante vários anos e o aluno pode praticar o mesmo procedimento várias vezes. O animal, por sua vez, após ser sacrificado é aproveitado em poucas aulas”, compara.

Sentimentos diversos

Em uma das questões do questionário, os alunos tinham que indicar também três sentimentos vivenciados na presença dos animais, a partir de 18 palavras listadas. Os sentimentos mais citados foram curiosidade, ansiedade e tranqüilidade. Por outro lado, felicidade e orgulho não foram assinalados por nenhum estudante.

Em seguida, os sentimentos foram agrupados em positivos, negativos, curiosidade e indiferença. Considerando os dois grupos analisados, o sentimento negativo foi indicado por 50% dos indivíduos e o positivo por 18%. De acordo com a análise separada dos sexos masculino e feminino, verificou-se um predomínio de sentimentos negativos entre as mulheres (61%) em comparação com os homens (27%).

“De maneira geral, o comportamento emocional dos alunos muda com a presença de animais em aulas práticas. Eles ficam mais agitados, principalmente os homens, e acabam passando essa ansiedade para os colegas”, justifica Renata Diniz.

Para ela, a alta prevalência de sentimentos negativos entre as mulheres pode ser explicada pela maior aversão em relação ao sofrimento dos animais. “Os homens, talvez por uma questão social, tendem a disfarçar suas emoções, o que explicaria o baixo predomínio de sentimentos negativos relacionados aos animais de laboratório”, sugere a pesquisadora, que também leciona no curso de medicina veterinária do Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), em Santos.

Fonte: [url=http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?id=6670]Agência FAPESP[/url]

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