Filosofia e Psicanálise Lacaniana III

(…) O estatuto ontológico da linguagem deve ser buscado não mais em relação a ela ser uma mera expressão de uma condição interna, mas em ela ser a própria condição de uma suportabilidade externa do falante. Para a teoria lacaniana, o anthropos se movimenta somente e apenas num campo minado que é estruturado pela linguagem.
A linguagem condiciona o aparecimento do anthropos, no sentido de que ela pré-figura o lugar, o topos, que este deverá ocupar como falante. A chegada à linguagem supõe a ruptura com o território da necessidade. Estrangeiro e estranho a si mesmo, porque possuído pelo símbolo, o anthropos vaga pelo mundo dos objetos, capturado pela armadilha do olhar e, a partir deste desconhecimento, supõe, metafisicamente que haveria uma linguagem que pudesse colar e aderir a objetos. Sendo a linguagem apenas o locus interior onde o sujeito estaria situado, a linguagem está, por conseguinte, separada dos objetos. Não há, a partir daí, ponte de acesso entre palavra e coisa, entre linguagem e objeto.

A introdução da linguagem no sujeito, ou o contato e a fusão do sujeito com a linguagem supõe a eficácia de uma divisão que deve se constituir no sujeito. O sujeito é, então, levado embora para o oceano do mundo dos símbolos e encontra-se irremediavelmente perdido e separado do mundo dos objetos. Sabemos então que o conceito mata o objeto. A palavra livro mata todos os objetos livros, porém dá acesso a cada objeto empírico livro em particular. O humano dispõe, assim, de uma condição a priori de possibilidade de relação, através da linguagem, com a universalidade do objeto, pois o conceito lhe garante a possibilidade da relação com o Real. Um real fictício, porém para a experiência possível que o humano pode produzir, ainda assim, para ele, Real. Da mesma forma, o sujeito falante existe posicionado a partir do significante que utiliza, no sentido de que seu ser é definido pelo estatuto dessa relação. A linguagem envelopa o ser. Daí que Lacan constrói o estatuto ontológico do humano designando-o por parlêtre, construído a partir da noção de que o humano somente é humano porque é um ser que fala, um ser que tem uma relação com a linguagem. Daí a junção de parler(falar) + être (ser), ou fala-ser. Compreende-se, então, que o poeta seja o pastor, o lavrador da palavra. Temos assim uma primeira compreensão do alcance da terceira ferida narcísica infligida ao humano, instituída pelo saber produzido pela psicanálise.

O saber trazido por Freud e Lacan implica compreender o humano como constituído por um universo de sentido que lhe é exterior, excêntrico e excedente, do qual não possui domínio absoluto. As duas outras feridas narcíseas anteriores seriam as produzidas pelo saber de Copérnico, com a teoria heliocêntrica, descentrando a terra do centro do universo, e a de Darwin, com a colocação do humano, em definitivo, na taxionomia zoológica. A psicanálise tem um valor de revolução copernicana. A relação toda do homem consigo mesmo muda de perspectiva com a descoberta freudiana. (…)

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